Sinh-moa
M. Dezonne Pacheco Fernandes
                         Dados de Catalogao na Publicao (CIP)
Internacional (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Fernandes, M Dezonne Pacheco.
F41s Sinh-moa / M. Dezonne Pacheco Fernandes , prefcio de Afonso
Schmidt. - 9 ed -So Paulo Editor* Nacional, 1986.
1 Romance brasileiro
CPD-869.935
ndices para catlogo sistemtico:
1. Romance Literatura brasileira
869.935
869.935
Ao meuquerido e inesquecvel Joo Batista, recordando a beleza de sua
alma e a grandeza de seu corao, pelo muito que a todos nos deu de
afeto e inspirao, ofereo esta edio de Sinh-Moa.
Sua me.
Ao Joo, querido companheiro de uma longa caminhada, aos nossos filhos
Sandra, Snia e Waldo, Mario e Regina, e a todos os amados netos Maria
Camila e Emidio, Mario e Cristina, Ulysses e Salete, Eduardo e Sandra,
Joo e Leonor, Silvia e Srgio, Lus Otvio, Pedro, Rodrigo, Fernanda, e
os bisnetos Emidio, Regina, Camila, Mario, Maria Antnio, Mariana,
Leonardo, Ana Priscilla, Joo Arthur, Eduardo, Roberto, Luiza, Joana e
Valentina.
A minha querida sobrinha Reninha Dezonne Carvalho, com o meu afetuoso
agradecimento por sua constante amizade e valiosa cooperao no preparo
da edio de meus livros.
Prefcio de AFONSO SCHMIDT
9 edio
companhia edicora nacional
Capa: concepo Osvaldo Sequetim, sobre foto de Adir Mera.
Ilustraes de miolo, cedidas por gentileza de VValter Hugo Khouri,
todas pertencentes ao filme Sinh-Moa, da Vera Cruz.
Direitos reservados
COMPANHIA EDITORA NACIONAL Distribuio e promoo:
RuaJoli, 294 - Fone: 291-2355 (PABX)
Caixa Postal 5.312- CEP 03016 - So Paulo, SP - Brasil
1986
Impresso no Brasil
POR QUE ESCREVI SINH-MOA, PELA LIBERDADE
Meus caros leitores, vocs me perguntam por que escrevi SinhMoa,
romance que j foi filmado, ainda nos tempos da Vera Cruz, e hoje 
tambm novela de televiso. O sucesso do livro, o sucesso do filme e,
agora, o sucesso da novela enchem-me o corao de alegria, pois a
mensagem de fraternidade contida em Sinh- Moa multiplica-se cada vez
mais, ao encontro de imenso pblico.
Embora seja uma modesta escritora, que escreve sem floreados, procuro
sentir, no mago do corao, todos os problemas que fazem sofrer os
nossos semelhantes.
Assim, escrevendo Sinh-Moa, procurei focalizar, em cada personagem, a
figura que sentia dentro de mim mesma. Desde o delegado pusilnime, o
feitor sdico, o mdico de sentimentos verdadeiramente humanos.. . A
menina-moa como desejo que sejam todas as sinhs-moas do nosso querido
Brasil. Por que no dizer, do mundo inteiro? Minha velha mucama de
carapinha branca, Virgnia, que no filme, ela mesma, to bem interpretou
a velha Ba. .. O moo de sentimentos altrusticos, protegendo os fracos
e castigando aqueles que os queriam ultrajar.
Sinh-Moa, acentuo,  um dos poucos romances a tratar diretamente do
problema da escravido no Brasil. Ele descreve os nossos ricos cafezais,
onde o negro, com seu suor e sangue, debaixo de copas bonitas, confundia
suas lgrimas com o orvalho que as umedecia, escondendo do sinh a
saudade imensurvel de suas terras longnquas, de onde viera, deixando
filhos, esposa e me.
Por tudo isso, escrevi Sinh-Moa. Sinh-Moa que  um grito de
solidariedade humana e de amor.
Maria Dezonne Pacheco Fernandes
INTRODUO  8. EDIO
Para minhas Trs Marias, nesta oitava edio de Sinh-Moa, numa
evocao de saudade e de ternura...
"Um dia Vocs vieram ao meu corao. Ele era ainda muito moo para tanta
emoo...
Eu senti que, dentro dele, uma aleluia de festa se desabrochava.
E tudo, desde ento, se tornou riso e encantamento para mim. ..
Levantava-se novo altar de amor e de ternura dentro do meu corpo de
quase adolescente. . .
E sonhava com Vocs, Bonequinhas queridas do meu corao!
E as via crescendo, ficando moas, enfeitando de ventura a minha vida...
Cada momento que passava era para mim, como um marco todo juncado de
flores...
E, eu s vezes, as imaginava flores, estrelas, passarinhos. ..
E assim, durante tantos meses de ansiedade, vivia devaneando com Vocs.
Setembro chegou... E Vocs o vieram anunciar. ..
Pois no eram flores, estrelas ou passarinhos? E, como se apresenta a
Primavera, seno assim, perfumada flor, marchetada de estrelas com
pssaros riscando o cu para o enfeitar...
E eu fiquei to contente. .. to feliz. . . Vocs, perto de mim. . .
aquecendo meu corao. . . E eu, podendo-as embalar docemente como
fizera tanta vez com as bonecas que amara. ..
Mas. .. a durao da flor na terra  sempre to curta... a estrela
ilumina por to pouco tempo... O pssaro passa to depressa no espao...
E, por tudo isto, Vocs se foram, Bonequinhas lindas do meu corao...
Hoje, e so passados j vinte e tantos anos... e. .. eu as vejo como
naquele dia, novamente juntas de mim. .. Perfumando minha vida com o
aroma da inocncia, iluminando-me a existncia com a beleza sem mcula
das suas almas. ..
Pairando sobre os meus sonhos como pssaros predestinados para os
abenoar e os tornar em realidade...
E  por tudo isto, penso eu, que toda vez que olho uma estrela, toda vez
que diviso um pssaro, eu me sinto feliz, comovida e contente. ..
 porque Vocs, filhinhas queridas, esto sempre no que  belo, no que 
puro, no que  grande...
Setembro de 1964.
PREFCIO D 1. EDIO
D. Maria Desonne Pacheco Fernandes, autora das pginas que se seguem,
acredita na influncia do prefcio no destino das obras literrias. 
como os antigos lobos do mar que atribuam ao "rostrum", a figura de
proa dos seus barcos, o poder de pacificar as ondas e de propiciar
ventos galernos.
Em parte ela tem razo, pois a verdade para muitos  aquilo que se julga
a verdade. Assim, pensaram os filsofos de Alexandria, assim escreveram
Victor Cousin e Luigi Pirandelo. "Cosi  se vi pare..." Quase todas as
peas e contos do escritor siciliano poderiam ter esse nome.  prtica,
porm, em casos semelhantes, tem demonstrado que um livro vale por si
mesmo, est acima das palavras favorveis e desfavorveis que sobre eles
escrevam os contemporneos.
Isto posto, comeo a ler as provas ainda midas da tinta tipogrfica que
a autora teve a bondade de mandar-me. "SINHA-MO"  uma histria do
tempo da campanha abolicionista, circunstncia que ainda a torna mais
simptica a meus olhos. Nas suas pginas agita-se uma humanidade de
transio; ns de hoje, sobreviventes de muitas revolues e duas
grandes guerras, mal podemos compreender esse conflito. Os maus nos
parecem menos maus, os bons se nos apresentam um pouco excessivos nos
seus sentimentos. No entanto, a autora tem razo de pint-los desse
modo, pois eles foram geralmente assim.  que, durante a memorvel
campanha, s poucos compreenderam a grande verdade.
A Abolio foi apressada pelos senhores; o proletariado comeava a
surgir nas ruas da cidade,  procura de servio. O branco viu logo que
entre o operrio e o escravo no havia hesitao possvel. O primeiro
chegava, vendia esforo produtivo e no lhe criava responsabilidades.
Quando no trabalhava no comia nem ganhava salrio. Quando comeava a
produzir menos, pela velhice, pela enfermidade ou por quaisquer motivos,
mandava-o embora e achava outros em melhores condies... Com o escravo
no se dava o mesmo. Custava de dois a trs contos de moeda forte, quase
o preo de uma roa, ou de uma casa. Era preciso vesti-lo, aliment-lo,
sustent-lo na velhice ou na enfermidade, procur-lo nas suas freqentes
fugas. O operrio para um auxiliar sempre  sua disposio; o escravo
representava mercadoria que se depreciava com o tempo e, alm disso,
estava lutando pela prpria emancipao... De um dia para outro, como
veio a acontecer, as senzalas poderiam amanhecer vazias... Ento, os
fazendeiros inteligentes se tornaram abolicionistas. Foram eles prprios
a dar alforria aos seus cativos, conservando os mais aptos como
operrios. Era mais barato, mais seguro e no criava aborrecimentos. ..
O povo, porm, no tinha estudado o problema  claridade da economia.
Nas pginas de "SINH-MOA", agitam-se muitas personagens, umas
liricamente favorveis  Abolio, outras teimosamente contrrias. As
demais eram hesitantes, como na prpria vida. No fundo da novela
aparecem os negros, com seus caracteres marcados. Este, por falta de
quem lhe abra os olhos, est conformado com a existncia que leva no
eito e na senzala. Esse, como  da prpria raa, vive pelo corao; 
submisso, leal, devotado, capaz de dar a vida pelo senhor; aquele, tendo
adivinhado a verdade, ficou de cabea virada e luta ferozmente pela
prpria liberdade, uma liberdade que ele, esconhecedor dos problemas da
economia, julga a prpria felicidade...
Ao longo destas quase dusentas pginas, que tanto so as da novela de D.
Maria Dezonne Pacheco Fernandes, essas foras entram em choque.
Felizmente, l est "SINH-MOA".  a filha do fazendeiro, uma
abolicionista convicta, poderamos chamar apostlica.  um conflito de
duas geraes. O pai formara a mentalidade em outros tempos. Ele poderia
dizer dos abolicionistas que o cercavam o que em 1794, j em plena
Revolu-o Francesa, Dom Fernando de Portugal escrevera na carta que
acompanhou a Frei Jos de Bolonha, talvez o primeiro abolicionista do
Brasil, mandado preso para a Metrpole, por se haver manifestado, no
plpito, contra os horrores da escravido. O fidalgo lusitano escreveu
que As idias humanitrias do capuchinho deviam ser tidas "no tanto por
malcia ou dolo, mas por falta de maiores conhecimentos teolgicos e em
razo de uma conscincia sumamente escrupulosa"...
Quanto aos outros abolicionistas da novela, eles sempre apresentam
argumento social. Com certeza no tinham lido os autores da poca, os
versos de Paulo Eir e Castro Alves. Nem assistido s conferncias de
Raul Pompia, como de quase todos os intelectuais do tempo. Deixam-se
levar pelas razes do corao, que so as mais eloqentes.
Como se deduz do exposto, a novela de D. Maria Dezonne Pacheco Fernandes
no aspira a discutir a questo.  uma histria de amor, de ternura, de
abnegao. Como tal deve ser lida. Umedecer de emoo a muitos olhos.
E, para a vida agitada destes dias, trar os quadros, as cenas
familiares, as alegrias e as tristezas de uma poca j morta que tem a
sua beleza e que, por vezes, nos  to grato exumar das cinzas frias do
passado.
AFONSO SCHMIDT
Captulo 1
A fazenda de Araruna era circundada de rios que cantavam docemente,
batendo suas guas nas pedras redondas, cobertas de limo, douradas pelo
sol. Nessa propriedade morava a famlia do Coronel Ferreira. Ele era um
homem spero, que punha seu direito acima de qualquer outro, chegando
mesmo a considerar os escravos como outros tantos animais de servio.
Sua esposa, D. Cndida, era uma criatura simples, sem personalidade
prpria, completamente esmagada pela tutela do marido. O casal tinha
dois filhos: Lus, um menino fraco, doentio, que s vivia a poder de
mimos e cuidados, e Sinh-Moa como todos a chamavam. Um misto de boto
e de rosa, flor que se abria trescalando o perfume da sua bondade.
Sinh-Moa era a nica pessoa da fazenda a abrandar a m vida que
levavam os cativos. s vezes, sentiam clamorosas injustias. Nessas
ocasies, a jovem entrava na senzala e os infelizes, tocados pela doura
da sua presena, se resignavam.
A existncia para eles era uma luta sem trguas. Todos os dias, sofriam
a prepotncia do forte contra o fraco, do senhor contra o escravo,
atenuada apenas pela presena compassiva dessa menina-moa que era
12
como uma rstia de luz alumiando as trevas do cativeiro.
Trabalhando sem compensaes, aoitados pelo feitor que procurava tirar
deles o mximo proveito, era um verdadeiro sacrifcio a vida da fazenda.
Dias seguidos suas mos calosas cortavam jacarands que eram mandados s
indstrias das cidades e vendidos a peso de ouro...  noite, ao se
recolherem, exaustos, olhavam os filhos pequeninos sugando avidamente o
seio murcho da mulher sem alegrias, que no via brotar uma gota sequer
de sangue branco para as suas criancinhas. Sentiam, ento, uma revolta
nascer nos seus peitos de bronze. O dio incendiava-lhes o corao,
pensavam: "Deus Nosso Senhor no pode permitir tanta desigualdade no
mundo! Por que esta diferena, se ns todos somos irmos. Quando adoece
o rico, o importante, muita gente se pe  sua disposio. Se o escravo
adoece, deixam-no morrer sobre a enxada, sua companheira cotidiana. Ah!
se no fora Sinh-Moa que a medo os procurava, quem se incomodaria com
eles. Quem procuraria conhecer as suas dificuldades?
Um dia, Sinh-Moa amanheceu tristonha... A casa inteira se alvoroou e
o prprio fazendeiro, to alheio e to indiferente ao bem-estar dos
seus, se impressionou.
Muitas indagaes foram feitas. Chamaram, entre outros, a mucama de
sinhazinha. D. Cndida procurava adivinhar os desejos da filha. Fazia
promessas
13
a todos os santos de sua devoo para aliviarem as tristezas da moa. O
coronel passeava de um lado para outro, querendo atinar com o motivo
daquela mudana. - Sinh- Moa antes era to alegre!
De repente, como assaltado por mau pensamento, gritou para a escrava que
insistia com a moa para que ela bebesse um copo de leite.
- Negra! Venha c! Que sabe voc a respeito de minha filha? Fale-me sem
mentir, do contrrio, corto-lhe a chicote, est ouvindo! ?
Os olhos da mucama encheram-se de lgrimas. Seus lbios trmulos
suplicaram misericrdia ao senhor. Sinh-Moa, ento, sentou-se na cama
e, chorando, procurou segurar entre as suas as mos da escrava.
D. Cndida, que acabava de fazer um mingau para Lus, assustada,
arrastando as chinelas, veio do fundo da sala de jantar e, timidamente,
suplicou ao marido:
- Ferreira! Por Deus! Tenha calma! O que devemos fazer  chamar um
mdico. Sinh-Moa est doente, pobrezinha! Voc assim contribuir para
que ela piore!
- No faltava mais nada! Minha mulher a querer dar-me ordens! Cala-te.
Sei o que fao! Dispenso opinies... Era preciso que eu no tivesse
ouvido os murmrios que se fazem por a! No percebesse certas
confabulaes! Esses cativos so traioeiros e vm, dentro de minha
casa, trazer o fel que lhes envenena o sangue...
- Meu pai!  injusto o seu julgamento! Virgnia nunca me falou no seu
sofrimento nem no dos companheiros... No martrio em que eles vivem...
14
- Martrio! Essa  boa! - retrucou o velho, encolerizado. Negros, disse
ele, animais sem entendimento, alimentados e tratados sem precisarem
pensar no dia de amanh! E voc os chama de "mrtires"!!! Queria, por
certo, que lhes desse camas macias, instruo superior e os mandasse
para as Academias? Francamente! Voc no parece minha filha! Essa sua
mentalidade  de criana ou... de imbecil!...
- Eealmente, meu pai - retorquiu Sinh-Moa, enxugando as lgrimas e
olhando com altivez a figura spera do velho. Custo a crer na dureza de
sua alma. Apesar de tudo, ainda tenho pena do senhor, e esperanas de
que um dia mudar. Deus pregou a fraternidade entre os homens, meu pai,
e no o jugo do forte sobre o fraco. Que direito temos ns, portanto, de
tratar nossos semelhantes como ces, desejando tirar deles esforo e
trabalho, sem nos preocuparmos com a sua sade, com a sua formao moral
e espiritual? Pensa que  s aliment-los para tirar-lhes mais proveito?
No! O senhor est errado - insistiu a jovem.
Espantado com o desabafo da filha, ele, que nunca admitia ser
contrariado por quem quer que fosse, bateu com os punhos cerrados sobre
o consolo onde, entre flores viosas, se achava a imagem da Virgem, e
declarou:
- Fique certa, menina, de que no frutificaro na minha fazenda essas
idias. O escravo que tentar rebelar-se ser marcado a fogo, para servir
de exemplo aos demais, e, se fugir, mat-lo-ei a tiros, como a qualquer
ladro...
15
Olhando o pai com altivez, Sinh-Moa chegou-se para junto de Virgnia,
que sentia-se horrorizada com a possvel sorte dos seus irmos.
Ajoelhada aos ps de Sinh-Moa, puxava-a pela saia rodada, pedindo-lhe
que no falasse mais...
- Sinh t nervoso - dizia baixinho a pobre escrava...
Sinh-Moa prosseguia, com veemncia, cheia de entusiasmo e de f:
- As suas palavras no me atemorizam e no me demovem do meu intento,
meu pai! Sou e serei pela liberdade dos cativos. So humanos, no podem
ser tratados como ladres, como o senhor os chamou, se viessem a fugir.
Para eles, o que somos ns cerceando-lhes a liberdade?
- Mas... - retrucou o fazendeiro desgostoso com a atitude da filha. Onde
voc foi tirar tais convices? Eevolta-se contra os atos de seu prprio
pai? Eu sou o culpado por suas atitudes... Procurei educ-la
erroneamente mandando-a para So Paulo, centro cosmopolita onde as
idias mais estapafrdias so importadas. Deveria deix-la aqui, na
fazenda, em companhia de sua me, aprendendo a cozinhar, fazer doces,
bordar... V para o seu quarto! A noite  boa conselheira. Amanh
conversaremos.
Sem proferir nem mais uma palavra, aborrecida com a resoluo do pai,
aproximou-se de D. Cndida, pediu-lhe a bno, beijou enternecida o
irmo e, evitando o fazendeiro, Sinh- Moa encaminhou-se para o quarto
Aquela noite foi muito comprida.
16
Surgiram os primeiros albores da manh. Os passarinhos j ensaiavam os
primeiros gorjeios. Comovido, o orvalho despedia-se das ptalas bonitas
das flores. Ao longe, ouvia-se a voz rouca e melanclica dos negros
tangendo a boiada... Mais alm, o monjolo, no seu bater pausado, parecia
acompanhar a mgoa que envolvia aquela pobre gente. E Sinh-Moa, que
no conseguia conciliar o sono, debruada no parapeito da janela do
quarto, olhava as senzalas... Condoa-se daquela massa humana que ia
saindo para o terreiro, como autmatos, movimentando-se sem esperanas,
sem perspectivas, verdadeiras mquinas que se preparavam para a faina
pesada de todos os dias.
L embaixo, estava o pobre Toms, trpego velhinho, cego, de carapinha
branca, faces sulcadas, mos trmulas, procurando encostar-se no tronco
de -uma perobeira carcomida pelo tempo e que fora sua companheira de
mocidade. O tronco o apoiava como alguma coisa de humano, para que ele
pudesse aquecer-se ao sol.
Mais longe, negrinhos sujos, mal nutridos, olhando o vasilhame luzidio
que levaria o leite gordo para a fazenda. Tudo isso machucava e fazia
sangrar a alma bem formada de Sinh-Moa.
Dentro do seu corao a voz da justia falava cada vez mais alto! "Tudo
estava errado no mundo. Algum precisava ter coragem, levantar-se contra
tanta tirania, mudar o regime escravocrata que o infelicitava" - pensava
a jovem. E to absorta ficou em suas divagaes que nem percebeu a
presena da me que,
17
h muito tempo, a olhava preocupada, seno quando D. Cndida exclamou:
- Minha filha! Como voc est abatida! Que fundas olheiras e que
palidez! Temo pela sua sade! Voc no dormiu, bem sei... E to cedo j
de p, recebendo este ar frio da manh!... Por que no abre seu corao?
No mereo a sua confiana? - interrogou D. Cndida, acariciando os
sedosos cabelos dourados da filha. - Tudo isso ser amor? No sei se me
engano... Desconfiei muito... Quando fomos ao baile em casa do Dr.
Fontes... Ests amando, minha filha querida?
Voltando-se para a me, que no a compreendia, num misto de carinho,
pena e recriminao, respondeu Sinh-Moa:
- No amo a um homem... Estou apaixonada, revoltada pelo sofrimento de
diversos... homens.. . Hei de trabalhar muito para v-los colocados na
posio digna de seres humanos...
Boquiaberta, sem entender a aluso da filha, respondeu D. Cndida:
- Que est voc dizendo? No chego a perceber o sentido de suas
palavras!... Voc deve, minha filha, assentar essa cabea. Seu pai est
furioso e no perdoar qualquer indisciplina. J pensou em vender. . .
Virgnia para um ricao de Minas Gerais, que o procurou em busca de uma
mucama bonita, inteligente e forte! Ele est certo de que  ela a
responsvel pelas suas maluquices...
De um salto, Sinh-Moa correu para o meio do quarto, indignada:
18
- Perdoe-me, minha me, o que lhe vou dizer, mas isso que meu pai quer
fazer  crueldade demasiada , uma injustia que clama aos cus! Pense
bem o que seria da senhora, se arrancassem seus filhos para vend-los
como animais! Morreria de dor. Pois bem! Virgnia  igual a ns... Ela
tem direito de viver, de ser livre, de pensar. Ningum a tocar sem
matar-me primeiro!
- Sinh-Moa! Morrerei se voc continuar assim... Como suportar a vida,
vendo-a detestada pelo seu prprio pai? Mude, mude de idias, minha
filha! - aconselhou com brandura D. Cndida.
-  verdade, sinhazinha, minha ama tem razo, - falou Virgnia, que
estava  porta com a bandeja de caf esperando para servir. - Deixe os
negros sofre... Assim qu Nosso Sinh! Num temo, no, dereito de ama, de
quer bem... Somo tudo vendido mermo, Sinh-Moa... Vassunc  que
percisa esquece de nis... Percisa casa, s feliz... O coroner nunca
fica mais brabo... com vassunc, num zanga mais, sinhazinha!
Vendo mais uma vez confirmado o juzo que fazia do corao dos cativos
que a cercavam, disse a moa fitando a me:
- Que me diz a senhora deste corao magnnimo que oferece com tanto
desprendimento seu martrio em proveito da minha felicidade? Quantos
brancos tero uma alma delicada como a de Virgnia?
- Voc tem razo, minha filha... - conveio D. Cndida, muito baixinho,
sempre com medo de ser ouvida e recriminada pelo marido.
19
- E assim, minha me, ela veio estimular a coragem que tenho para lutar
pelo santo ideal que abracei. Ensinou-me a no ser egosta e a no me
acomodar ao meu bem pessoal. Lutarei pela liberdade dos humildes e
vencerei...
Captulo 2
A fazenda Araruna continuava envolta na mesma tristeza... O Coronel
Ferreira dera ordens formais ao capataz para exercer rigorosa vigilncia
sobre os cativos. Se os encontrasse conversando, cort-los a chibata.
Nas cercanias da casa-grande, o capito-de-mato andava farejando como
co de caa, em busca de presa...
D. Cndida vivia atemorizada, procurando daqui, dali, melhorar um pouco
aquele pesado ambiente. O fazendeiro, de sobrecenho carregado, no saa
de casa. Em passadas largas, abalando as tbuas velhas do assoalho,
fazia at estremecer de medo Lus, que se aconchegava ao seu amigo Fiel,
um cachorro que achara nas proximidades da fazenda.
Sinh-Moa no saiu mais do quarto. As refeies eram levadas ao
aposento e Virgnia tinha ordem de no conversar com ela.
Serena, estica, a jovem no se lamentava. Pelas caladas da noite ficava
escrevendo. O alimento espiritual no a fazia necessitar de outros
materiais. As bandejas voltavam intactas...
Na vila, j se comeava a sentir falta de SinhMoa, que todas as
semanas ia visitar os pobres. Frei Jos, o vigrio da parquia,
apreensivo, preocupava-se
   21
com a ausncia da famlia e, em particular, da moa, a quem ele havia
batizado e que acompanhara na adolescncia, achando-a deveras original,
no seu modo to elevado de pensar, para uma jovem daquela poca.
Assim, deliberou ir  fazenda. Organizou a viagem, mandou preparar o
cavalo e partiu logo ao amanhecer. Vencendo o percurso de algumas horas,
chegou a Araruna, extenuado, mas contente. Ia rever os amigos, levar o
seu concurso, caso dele precisassem.
Bastio, que estava ajudando a recolher a boiada, ao reconhecer o
sacerdote, correu para ajud-lo a apear-se. Frei Jos, pesquisador
habitual de almas, viu na cara do preto que ele escondia alguma coisa.
- O que  isso? Voc est doente? Haver algum enfermo na fazenda? Como
vai sua sinhazinha ?...
- Qu, seo Bevereno - falou Bastio, limpando com as mos calosas o
resto, que se inundara de lgrimas. O coroner anda brabo qui nem
cobra... Sinh-Moa tem pena do negro... Ele proibiu antonce qui ela
saia du quarto... Parece int pomba-rola presa na arapuca... Virgnia
contou que sinhazinha perfere morre pra liberta tudo nis... Vassunc
num pode consei o coroner?
- Fique sossegado, Bastio - respondeu Frei Jos, batendo paternalmente
nos ombros do escravo. Nada de mal acontecer  Sinh-Moa...
- Nosso Sinh benoe Vassunc... - exclamou cheio de confiana Bastio,
que aos pulos subia a
22
escada que conduzia ao casaro branco da fazenda para anunciar a D.
Cndida a chegada do frade.
- Que susto! Bastio! J vivo to alarmada e ainda voc entra desse
jeito!
- Descurpe, minha sinh - replicou o cativo. . . Vim avisa, disse ele
com a fisionomia iluminada, que t chegano gorinha mermo seu Revereno...
Surpresa com aquela boa notcia, D. Cndida entregou a Virgnia o prato
com biscoitos de polvilho que fizera para a filha e correu ao encontro
do frade.
- Quanta satisfao em v-lo aqui, Frei Jos! - disse D. Cndida,
beijando as mos do sacerdote e fazendo-o sentar.
- Para mim, redarguiu o frade, no  menor esse contentamento, tanto
mais que, ao que me parece, tudo est em ordem e na paz... de Deus, no
 verdade? Onde, no momento, est o coronel? - perguntou o religioso,
olhando D. Cndida.
- Foi  cidade... A propsito... Frei Jos, tenho-me entristecido tanto
estes ltimos tempos!... Sinh-Moa no se conforma com a vida e as
teimas do pai... - disse a senhora, desandando num pranto copioso. Tenho
medo, pressentimentos... Alguma coisa grave poder sobrevir... Gostaria
que aconselhasse Sinh-Moa. Ela herdou, infelizmente, a altivez de
Ferreira, e isso lhe  prejudicial. As mulheres precisam ser submissas
para viverem tranqilamente... O senhor  testemunha. Nunca tive opinio
prpria. Vivi apenas para criar os filhos, cuidar da casa... nada mais.
23
- Mas, D. Cndida,  impossvel aconselharmos algum, contrariando-lhe
um direito justo. A senhora no pensou bem. O que precisamos  levantar
a alma mercantilizada, desculpe-me a franqueza, do coronel Ferreira. O
mundo tem de evoluir. O esprito humano quer ser independente. No se
pode conceber o forte subjugando covardemente o fraco. Os direitos tero
de ser iguais. No haver, asseguro-lhe, futuramente, senhores e
escravos, mas cidados com direitos recprocos ... Considero ignomnia
acorrentar negros, cortando-lhes as carnes com ferro em brasa, como se
faz aos bois para marc-los, vendendo-os, depois, como irracionais!
Falava to alto, com tanta eloqncia, Frei Jos, movido pelo seu
esprito de humanidade, que se fez ouvir por Sinh-Moa.
No querendo acreditar nos prprios ouvidos, a jovem imaginou tratar-se
de um sonho, chamou Virgnia e mandou verificar se era o frade.
- , sinhazinha.  mermo seo Revereno qui t falano.
Sinh-Moa no perdeu mais um momento. Correu para junto do amigo,
osculando- lhe as mos queridas, dizendo:
- Como sou feliz vendo-o aqui! Como transborda de alegria meu corao!
Tive, agora, a certeza de que participa das mesmas esperanas! Ah! Frei
Jos I Deus h de abenoar o sacrifcio que fez vindo at aqui. Contarei
com o senhor, como um brao amigo para auxiliar-me. Quando ouvi sua voz,
quando escutei suas
24
palavras, julguei delirar... Virgnia, todavia, assegurou-me da sua
presena e uma nova aurora nasceu no meu corao! - falou-lhe
Sinh-Moa, com os olhos brilhantes e as faces afogueadas pela emoo.
Frei Jos, que a ouvia com bondade, afirmou:
- Havemos de vencer, Sinh-Moa. No deve no entanto irritar seu pai.
Procure, antes, lev-lo com pacincia. A lgica dos fatos o far
razovel. No est querendo compreender por capricho!  apenas o
sentimento de humanidade que a impele a agir assim! E, depois, j 
conhecido de todos o seu bom corao! Ser, D. Cndida, mais dia menos
dia, uma realidade este nobre desejo de sua filha! - asseverou,
convictamente, o frade.
- Por que ento Sinh-Moa h de estar aborrecendo tanto o pai? Deveria
deixar que outros tomassem a iniciativa. Isso  prprio para os
homens... Moa deve pensar em casamento. Acredito e lhe digo aqui para
ns, Frei Jos, que um dos filhos do Dr. Fontes, o Kodolfo, est
inclinado por ela. Acho um timo partido. Rapaz rico, formado h pouco
em Direito. Garanto que faria inveja a muita moa -insistiu D. Cndida
fitando a filha com um misto de carinho e vaidade.
Sinh-Moa, ouvindo as palavras cheias de simplicidade da me,
enrubesceu. Teve pena das suas idias retrgradas.
Percebendo a situao incmoda que se criara, Frei Jos prosseguiu.
25
- Tudo hoje est mudado, D. Cndida! Sinh-Moa s  digna de louvores
pelo esprito filantrpico que possui. Quanto ao casamento, dever
resolver quando seu corao lhe ordenar. S assim se garante uma
felicidade conjugal.
Suspirando fundo, achando as idias do frade deveras avanadas, D.
Cndida pediu-lhe permisso para ir buscar um pouco do doce que fizera e
dos biscoitos de polvilho, fugindo dessa maneira ao assunto que tanto a
desagradara.
- Pois no, D. Cndida. Devo mesmo confessar-Ihe que ainda no almocei.
A fome est aqui, disse ele, apontando para o estmago, e me atormenta.
Aceitarei com prazer os seus quitutes.
Tirando do aparador a tigela fumegante, D. Cndida passou-a ao frade.
- Est quentinho, e com este frio lhe far muito bem. Poder esperar o
jantar, que ser tarde. Meu marido chegar l pelas seis horas...
- Se a senhora soubesse como me  fcil fazer-Ihe a vontade, minha
senhora, disse Frei Jos, sorrindo. - Mas com uma condio...
D. Cndida ficou intrigada e receosa. O que lhe seria pedido novamente?
Ele achou graa na impresso que causara a D. Cndida e, olhando com
carinho Sinh- Moa, exclamou:
- Esta menina vai tomar comigo um prato inteiro de creme. No poder
levar avante a luta deixando de alimentar-se.
26
-  isso mesmo que eu vivo dizendo a Sinh-Moa - afirmou D. Cndida.
Depois ficar fraquinha e...
No pde concluir a frase. Bastio, mal podendo respirar, pondo a alma
pela boca, entrou a correr e, sem pedir licena, ps-se a falar em voz
alta, para se fazer ouvir:
- Virge Nossa Senhora! O coroner t chegano! Apeou do animar.  perciso
qui Sinh- Moa corra pru quarto. Vosmec no acha, sinh?
Ao ver a impassibilidade do frade, que continuava a conversar, Bastio
arregalou os olhos assustado e, na esperana de que concordassem
consigo, dirigiu-se a Sinh-Moa, que j fazia meno de afastar-se:
- Sinh-Moa! Vassunc percisa se arretir...
- No! Bastio! Sinh-Moa ficar. Ela no cometeu nenhum crime! Espere,
minha filha, com naturalidade seu pai. Deve venc-lo pela bondade e pela
firmeza das suas atitudes. Continuemos a conversar. .. - props Frei
Jos.
- Seguiremos seu conselho, reverendo, disse D. Cndida. Mas, depois, as
conseqncias... Ele vai sentir-se desautorado.
- Deixe por minha conta, D. Cndida - pediu o frade.
Ante essa atitude to firme, Bastio saiu cabisbaixo para o terreiro,
dizendo:
- To com uma pena de sinhazinha! Seo Revereno ainda num conhece o
coroner!...
27
Sinh-Moa tambm estava preocupada e se no fosse o receio de desgostar
o frade, teria sado. Conhecia de sobra o gnio impulsivo do pai. E
assim, nervosamente, torcia entre os dedos rosados o lencinho de renda,
prevendo os aborrecimentos que a esperavam.
Tudo isso se passou no espao de poucos minutos e j se ouvia na
casa-grande a voz forte e autoritria do coronel chamando Virgnia, com
alarme e mau humor, para que acendesse o candeeiro da entrada.
- Tudo s escuras! - dizia ele. Eu que tenho horror s trevas! No se v
nada!
- Sans Cristo! Vosmec me perdoe, exclamou a mucama, transida de medo.
Sem olhar para a escrava que havia esquecido a obrigao, foi entrando e
gritando:
- Ora bolas! Por aqui no h mais ningum! Apesar da escurido vejo que
nem a mesa puseram a estas horas! J no sou nada nesta casa!
- Boa noite, meu velho - disse bondosamente D. Cndida. No fique to
zangado, veja quem est aqui...
Um pouco vexado, deparando com Frei Jos que permanecia mudo, falou o
fazendeiro:
- Desculpe-me. Nem o tinha visto! Quando chegou ?
- H quase uma hora, para ter bastante tempo de conversar.
- O senhor  corajoso, Frei Jos, respondeu o coronel. Abalar-se de suas
comodidades, enfrentando esta estrada que piora dia a dia...
28
- Assim faz a saudade que sentimos dos amigos - retrucou calmamente o
religioso.
- Admiro sua coragem, sua disposio - insistiu o fazendeiro, com certa
ironia.
Aparentando no ter compreendido a inteno do coronel, alegou Frei
Jos:
- A ausncia de Sinh-Moa, na parquia, estava causando estranheza.
Poderia ter adoecido...
- Ela anda  com idias censurveis. No quer mais ouvir-me. Juro-lhe
que lhe daria minha gratido eterna, meu amigo, se conseguisse tirar-lhe
da cabea as suas caraminholas...
- Mas... perdoe-me, coronel. O senhor no est sendo um tanto
precipitado no seu julgamento? Sinh-Moa, ao meu ver, foi sempre uma
pessoa de muito critrio. No posso crer que tenha mudado!
Encarando o sacerdote com surpresa, num misto de aborrecimento, quase
rancor, o fazendeiro resolveu cortar o assunto e, para vingar-se,
comeou a trat-lo com desabrida ironia.
- Como vo as coisas na parquia, Frei Jos? - indagou ele. Muitos
donativos? Muita esmola para melhorar os altares e a vida... dos frades?
Percebendo a inteno maldosa do coronel, sem se alterar, replicou o
religioso:
-  difcil responder-lhe. As pessoas que vivem pensando "materialmente"
no chegaro nunca a compreender aqueles que esto no outro plano da
vida. Sendo entes humanos, precisamos tratar-nos, alimentar-nos e
contamos com os fiis para, cientes dessas necessidades,
29
nos ajudarem. Mas isso ser falta grave, ambio desmedida! Trabalhamos
pelo bem da coletividade, salvando almas, coronel! O senhor acha pouco!
 realmente obscuro, quase sempre sem reconhecimento o nosso lavor,
servindo muitas vezes at de chacota a pessoas pobres de esprito. Que
se h de fazer! Ter confiana em Deus, pedir misericrdia para esses
homens...
Puxando um pigarro, afrouxando nervosamente um cigarro de palha,
gaguejou o fazendeiro:
- Devo ser realmente um pobre ignorante para tentar entender letrados
como vossa reverncia. Mas, quanto  minha filha, custe o que custar,
no lhe permitirei que desvie os escravos da minha fazenda. Admiro-me de
que,  atitude de Sinh-Moa, o senhor chame de criteriosa!
Sem permitir que Frei Jos o interrompesse, dirigiu-se  mulher, abalada
com tais despropsitos, e ordenou-lhe que mandasse servir o jantar.
- Com sua licena, Frei Jos - disse D. Cndida. No repare no
nervosismo de Ferreira...
- No se incomode, D. Cndida - respondeu o frade, com um bom sorriso
conciliador.
- Sinh-Moa, minha filha, ponha sobre a mesa aquela toalha de linho
bordada que veio de Portugal para as grandes cerimnias - pediu D.
Cndida, mais consolada com a atitude do frade.
- Sim, minha me - assegurou a moa, e chamou Virgnia, que num canto
assistia a tudo. Vem c, minha negra. Traze os copos de dia da festa que
esto no
30
guarda-loua e a porcelana com letras douradas. Depois, pede a Bastio
para colher umas rosas. L, perto do paiol, contou-me o Toms,  que
desabrocham as mais lindas. E, suspirando fundo, falou para si: "Pobre
Toms! Cultivava com tanto carinho as suas flores antes do maldito
feitor o cegar!"
- Vorto num instante, sinhazinha - respondeu Virgnia radiante com o
imprevisto da visita que viera trazer tanto contentamento a Sinh-Moa.
Aproveitando a ausncia das mulheres, Frei Jos, a ss com o coronel,
interrogou:
- O senhor disse-me que Sinh-Moa deseja "desviar" escravos?
Confesso-lhe que no entendi...
- Eu no soube me expressar, Frei Jos. Quis referir-me s idias que
propaga e que andam soltas por a.  s em liberdade, em direitos
recprocos que se fala nesta casa! E para mim continuam a ser fantasia
sem fundamento. Quando penso que at o filho do Fontes, assim contou-me
o pai, que  moo inteligente, formado, anda espalhando tolices e
fazendo comcios para convencer o povo! No sei aonde iremos parar com
tanta anarquia! Conceber-se essa raa sem raciocnio, despida de
sentimentos, viver em liberdade! Francamente!... Mas comigo no
contaro. Negro, Frei Jos,  para trabalhar. Ter de ser sempre cativo!
- E se eu lhe disser, coronel, que o senhor est redondamente errado?
Que  desumano, egosta, despido de sentimento elevado seu modo de
pensar? No podemos conceber um ente que tem alma, que raciocina,
31
e neste ponto o negro  superior at ao ndio no que diz respeito 
afetividade, viver escravizado. O selvagem no tem o respeito do homem
branco e chega at a desdenh-lo. Ao passo que o preto deseja imit-lo e
se afeioa a ele, mesmo quando maltratado e aguiIhoado  sua tirania...
Pode estar certo, coronel, que s haver paz e felicidade no mundo
quando o nosso direito parar onde o do outro indivduo comear. 
preciso haver fraternidade! Igualdade! Os homens precisam amar-se como
irmos - afirmou com veemncia o sacerdote. Se o senhor e muitos outros
escravocratas se compenetrassem dessa verdade, de que o homem liberto,
atendido nas suas necessidades, seria indubitavelmente um amigo. Se lhe
permitissem associar-se aos seus progressos, contariam com um cooperador
sincero e dedicado. A prosperidade, passando a ser um bem comum, meu
amigo, extermina rancores e malquerenas!
- No continue, Frei Jos. Prezo muito sua amizade e no quero
agastar-me com o senhor. O senhor sabe doutrinar, mas na vida prtica a
coisa  bem diferente - exclamou convicto o fazendeiro. E no fui eu que
inventou o cativeiro.
- Oxal que no venha a arrepender-se tarde e precise procurar-me para
concordar comigo. O senhor que tanto aprecia "luz", Deus, um dia, h de
iluminar-Ihe o esprito - profetizou agastado o religioso.
Nesse nterim, Virgnia e Bastio trouxeram o jantar. A mesa estava
encantadora. Sinh- Moa a preparara com muito gosto.
32
- Sente-se aqui, disse D. Cndida, oferecendo a cabeceira a Frei Jos.
Na outra extremidade, ficou o coronel. Sinh-Moa acomodou-se do lado
esquerdo, pondo Lus perto do pai; D. Cndida assentou-se ao lado
direito do frade.
Um silncio incomodo reinava, de vez em quando quebrado pelo pigarrear
nervoso do coronel.
D. Cndida procurava atenuar aquela situao, oferecendo a Frei Jos
esta ou aquela iguaria.
Sinh-Moa conservava-se calada. s vezes, atendia o irmo, que lhe
pedia alguma coisa.
Afinal, o caf foi servido. Bastio, na sua simplicidade, querendo
agradar ao sacerdote, disse:
- Virgnia moeu o gro agorinha mermo pru mode seo revereno acha mio o
caf...
Ouvindo-o, sorriu Frei Jos.
Depois de terminada a refeio, exclamou o religioso:
- Preciso ser incivil. Mas, como no ignoram, a estrada est pssima e
no  nada agradvel viajar tantas lguas durante a noite. Mesmo
partindo agora, s vou chegar muito tarde ao povoado. Digo-lhes que
estou desvanecido com as atenes que me dispensaram. L, ficarei sempre
para os servir.
- O senhor est invertendo os papis - assegurou D. Cndida. A honra 
que foi nossa de poder receb-lo. No  verdade, minha filha?
- No ser uma pergunta intil, minha me? - indagou Sinh-Moa sorrindo
para Frei Jos e beijando carinhosamente o rosto de D. Cndida.
33
Longe de apreciar essas efuses de amizade para com o frade, o
fazendeiro as interrompeu dizendo:
- Enquanto o senhor se despede vou mandar providenciar tudo para que
possa partir - e, sem esperar que Frei Jos lhe respondesse,
levantou-se.
- Sinto estar-lhe dando tanto trabalho - objetou o frade.
- Isto  o menos - entre dentes resmungou o fazendeiro.
- Adeus! D. Cndida, exclamou, j no alpendre, Frei Jos, procurando
acompanhar o coronel. No me queira mal pela minha franqueza! Assim
fazem os verdadeiros amigos - Sinh-Moa! - disse o frade. No se
precipite. Os acontecimentos esto a. Seu desejo, minha filha, ser uma
realidade. Ainda ter muita alegria, com as bnos dos escravos... At
 vista! E, no se esqueam. Estarei sempre pronto para as servir... E,
quase sem poder v-las, ainda falou: - O coronel contou-me que h outras
pessoas de suas relaes que esto defendendo o mesmo ideal! - E
sorriu...
- Frei Jos! gritou Sinh-Moa, sem poder conter-se. Por que diz isso?
Est querendo insinuar alguma coisa? Conhece algum entre essas almas
nobres? - indagou, curiosa, Sinh-Moa, mas em vo. O frade j ia longe,
no terreiro, no podia mais ouvi-la.
Voltando-se para a me, perguntou a moa:
- Lus no ter gostado da visita de Frei Jos! No disse nada...
Afinal, ele j est ficando um moo. Precisa tornar-se mais socivel...
Captulo 3
Os pssaros regressavam aos ninhos, para que a noite no encontrasse ss
seus filhotes, assustando-os com a escurido...
As cigarras zuniam, despedindo-se do sol que se extinguia.
As serras se cobriam de tnues nuvens azuis acinzentadas, como Madonas
em recolhimento.
No pasto os bois mugiam tristemente, aumentando com a sua melancolia a
mgoa dos escravos que caminhavam como autmatos, sem alegria, sem
esperana, para as senzalas.
Era mais um dia que se ia, sem perspectivas de outros melhores...
Bastio procurava vencer esse desnimo, assegurando que Sinh-Moa
trabalhava o esprito do pai para conseguir-lhe a alforria. As palavras
de Bastio representavam um pouco de luz onde tanta treva reinava.
Assim estavam os escravos quando o trotar de um cavalo os despertou.
Frei Jos regressava. Seu animal ia devagar, pisando as folhas secas do
caminho, assustando os sapos na sua orquestrao... Ia to entregue aos
pensamentos, meditando' nas idias do Dr. Rodolfo, que afirmava, a cada
passo: "A liberdade
35
 um direito natural e no um direito poltico.  um princpio que nunca
se perde. Quando ela  conquistada em proveito de um nico homem, traz
consigo o despotismo...  a servido de uma totalidade de indivduos em
proveito de um s! E isso no se poder mais admitir nos tempos que
correm..."
Lembrava a figura spera do fazendeiro. Ele e Sinli-Moa representavam
bem as duas faces em luta, no mundo daquele tempo. Ele, egosta,
querendo a liberdade, como bem exclusivo e pessoal, s para si. Ela,
desejando a felicidade de todos os semelhantes, o seu bem-estar moral e
material.
Ela sim, dizia Frei Jos com seus botes, fustigando o animal,  que tem
razo. Ou se renovam as leis da sociedade ou grandes catstrofes
adviro.
Passaram-se muitas horas.
Na fazenda, em seu quarto pequenino e perfumado de alfazema, tambm
Sinh-Moa pensava em Frei Jos, nas suas palavras veladas e cheias de
mistrio,  hora da partida... A quem estaria ele se referindo ? O Dr.
Rodolfo lhe teria dito alguma coisa?
Por estarmos de acordo, Frei Jos ter deduzido algo que venha a nascer
em nossos coraes? Realmente, naquele baile contei minhas idias...
Quase cheguei, no entanto, a me arrepender, porque Rodolfo me olhou to
espantado... Recordo-me, agora, de que lhe disse: "A liberdade deve ser
uma Religio... Precisa ter seus altares e seus sacrifcios..." E ele me
respondeu: "Acho que a liberdade  a Razo..."
36
Tero conversado sobre tudo isto? Estou intrigada e curiosa... Enfim,
darei tempo ao tempo. Se trocaram impresses, se esto de acordo, melhor
ser para a grande causa da liberdade dos escravos...
To alheada estava em suas divagaes que, somente com a entrada de
Virgnia, no quarto, Sinh-Moa percebeu que j era manh. Passara a
noite em claro, nem sentira!...
- Madrugo, sinhazinha - disse Virgnia, que no notara o ar fatigado da
moa. E, afastando o cortinado de tule, continuou: - Vai fica contente
hoje, com a nega!
- Por qu?
- Permero Sinh-Moa vai tum o leite todo, dispois eu conto...
- Conte-me primeiro, Virgnia! - insistiu a moa com viva curiosidade.
- Num posso... Permero percisa tum o leite...
Ela fez um muxoxo, como menina que no se conformava de ter sido
contrariada, vestiu o roupo de seda azul, alisou as madeixas douradas,
pulou da cama e, fingindo ares imperiosos que no conseguiam esconder a
bondade, queixou-se:
- Voc est  judiando de mim...  assim que me quer bem?
Sentindo porm o desaponto que se estampava na fisionomia da escrava,
arrematou:
- No a quero magoar, Virgnia! D-me essa xcara, Quero num gole tomar
todo o leite para ter o direito de saber o que h...
37
Tomando-o num sorvo, disse:
- Agora?
Virgnia foi ento, p ante p, olhar na janela. Precisava certificar-se
de que o coronel no andava por ali! Depois de tranqilizar-se, tirou do
seio uma carta, cntregando-a a Sinh-Moa:
- Peo a vassunc pru Nosso Sinh! Tome cuidado, sinhazinha! Bastio foi
na vila a mandado do seu coroner e seu reverendo entregou este paper...
Pidiu segredo... Disse qui ele num sabe... vosmee l i rasga...
sino...
Tomando com sofreguido a carta que Virgnia segurava com as mos
trmulas, adiantou-se:
- Fica tranqila. No comprometerei ningum...  espera de que
Sinh-Moa lhe falasse do assunto, a escrava permaneceu ali,
aproveitando para arrumar o quarto.
Os olhos da jovem,  medida que liam, marejavam-se de lgrimas. Eram
palavras de bondade, palavras de f e de estmulo que escrevera o
sacerdote, mas que a punham tambm a par das atrocidades que sofreram
certos cativos numa fazenda prxima da vila e falava-lhe ento da onda
de revolta que estava crescendo no corao de muita gente, inclusive de
Rodolfo, que encabeara um movimento em prol dos infelizes...
Sem lembrar da preseha de Virgnia, Sinh-Moa, empolgada pelo que
estava lendo, comeou a falar alto.
- Que extraordinrio esse moo! No teme os dios que levanta contra si!
38
 - Credo! Vosmec t falano sozinha ?
- Virgnia! As pessoas quando se exaltam precisam deixar que o corao
extravase! Se me fosse possvel, gritaria para que ouvissem, proclamando
o que penso em favor dos humildes!
- Seo reverendo, respondeu a jovem. Fala na carta, tambm... de um filho
do Dr. Fontes...
- Hum! J sei... di seo doto Rodolfo, num , sinhazinha ?.. . D. Cndida
anda cismada qui ele t gostano di vassunc...
- No, Virgnia, a carta  do Dr. Fontes. Seu filho mais velho  que...
pensa como eu... e que...
To entusiasmada estava a mucama que no deixou Sinh-Moa concluir a
frase. Exclamou:
- Gosta de vassunc...
- Que tolice! Virgnia! - murmurou Sinh-Moa corando.
- Isso vai diz quarqu dia, sinhazinha... Aqui, - disse a escrava
mostrando o corao - dentro do peito, uma coisa t falano...
- Voc no v, minha negra, que ele me conhece muito pouco? Quando
pequenina,  verdade que brincvamos juntos, mas, depois, foi para o
colgio dos Jesutas... para a Academia... S agora, naquele baile, o
ms passado,  que nos vimos, pode-se dizer, pela primeira vez... H de
desejar casar-se com moa da Capital, com hbitos aristocrticos! Eu...
devo parecer-lhe uma caipirinha apenas extravagante - ponderou ela
esboando um sorriso incrdulo.
39
- Qu, Sinh-Moa! Num h menina mais bonita no mundo! Vassunc  a fr
mais linda que Nosso Sinh escolheu pra "prefum" o corao de tudo
nis... Quando vosmec desce a ribanceira levano remdio, doce, pr nego
qui t sofreno, fais nis tudo chora di filicidade... Seo doto Bodorfo,
escoiendo sinhazinha, leva a jia mais bonita qui t escondida na
Araruna! Ah! Sinh-Moa!... - disse Virgnia, num longo suspiro. Quiria
vive... Quiria qui o seu coroner num vendesse sua Virgnia pru mode pode
sisti o casamento de vassunc...
Com lgrimas molhando o rosto de bano, a negra mina olhava sua querida
Sinh-Moa e, como se estivesse vivendo num sonho, prosseguia:
- Sinhazinha vestida de renda branca... com as fr de laranjeira
prefumano os cabelos di oro... A casa cheia di gente da cidade... da
vila, D. Cndida mandano coloca as cortinas di seda vermeia nas janela
toda... Seo coroner todo si rino... Seo revereno
satisfeito taliqu nu dia da permera comunho de vosmec. Seo doto
Kodorfo rico di filicidade. E nis tudo, Sinh-Moa, rino e chorano di
contentamento, benoando nossa sinhazinha...
Quem visse Sinh-Moa, to atenta, ouvindo Virgnia, teria a impresso
de uma menina encantada com histria de fadas. Ela chegara a esquecer as
agruras que a atormentavam...
De repente, porm, fugindo a to bonita magia, objetou  mucama:
40
-  lindo o seu sonho... Todavia, no passar nunca de uma quimera, de
uma fantasia... Quanto a voc, porm, Virgnia, posso desde j
assegurar-lhe, no ser vendida. Se for preciso o meu sacrifcio, de bom
grado o farei pela sua liberdade. Haveremos de... envelhecer juntas -
disse rindo para a mucama.
- Qu! Sinhazinha! Vosmec  muito criana...
- Mas voc no  ainda velha! E,depois h tanta gente trabalhando pelos
escravos para que a abolio venha depressa.
- Nosso Sinh escuite vosmec - exclamou a escrava, benzendo-se e saindo
do quarto, s pressas, ao lembrar-se do coronel que poderia estar
notando sua ausncia.
Captulo 4
A cidade amanhecera em festa. Era dia de So Paulo. Barraquinhas
pintadas de cores vistosas, umas com prendas valiosas oferecidas pelas
famlias abastadas, outras com doces cheirosos, envoltos em acar
cristalizado, p-de-moleque e canequinhas de quento.
A igreja resplandecia como num dia de Natal e Frei Jos, radiante, ia e
vinha ocupado com os ltimos arranjos do altar-mor, para a bno...
Comeavam a chegar os fiis. Senhoras austeras nos seus vestidos de
gorgoro preto fazendo frufu... Homens de sobrecasaca, impecveis no seu
trajar, moas casadouras ostentando "toilettes" adornadas de rendas e
bordados em tiot. Alguns rapazes vestidos pelos figurinos de Paris...
Escravos de fazendeiros liberais trajando roupas de cores fortes, e os
pees, calas de zuarte, piedosamente ajoelhavam-se para rezar...
A nave j estava apinhada de fiis. Ouviu-se o rgo com sua voz
profunda... O sacristo balouava o turbulo, impregnando de incenso o
ambiente mstico que convidava  orao.
Frei Jos, paramentado para o divino sacrifcio, aproximou-se do altar
tirando do sacrrio o ostensrio
42
onde o Santssimo estava guardado, para abenoar o povo novo, e, ao
voltar-se para o centro do templo, percebeu pelos seus passinhos
ligeiros a chegada de SinhMoa, atrasada e apressada, em companhia dos
pais, procurando um lugar para o menos possvel perturbar a missa.
No obstante esse cuidado, despertou a ateno de algumas pessoas aquela
figurinha bonita, recatadamente envolta como se fora uma Madona, no seu
vu de tule...
- Dr. Rodolfo... - disse um jovem colega do advogado - repare que moa
linda est chegando! No lhe parece uma viso?
Voltando-se, respondeu Rodolfo:
- Voc tem razo. E eu... j a conheo. Realmente ela  muito
interessante e bem diferente das outras!
- Pelo que vejo - retrucou o amigo - estou descobrindo um romance...
Hum!
- Depois conversaremos - respondeu o rapaz pedindo silncio e mostrando
Frei Jos, que se aproximava para falar.
- Inteligente desculpa para despistar um indiscreto! Mas, no me dou por
vencido - insistiu o moo. Quero tambm ser convidado para os doces,
hein?
- Por favor! No brinque! Escutemos a palavra do sacerdote!
- Far-lhe-ei a vontade, mas no esquecerei.
43
- Est bem - ponderou novamente Rodolfo, sorrindo e procurando prestar
ateno a Frei Jos, que assomava ao plpito.
O frade comeou assim:
- Meus irmos! Comemorando hoje o dia de So Paulo, o grande filsofo de
Tarso convertido para o reino de Deus, quero recordar estas maravilhosas
palavras do Evangelho, ditas por ele aos fiis, para que mediteis sobre
elas: "No acho que minha vida tenha algum valor para mim, contanto que
termine minha carreira e o Ministrio que recebi do Senhor Jesus: dar
testemunho do Evangelho da graa de Deus. E, agora, por mim sei que no
mais me vereis, vs todos entre os quais passei pregando o reino de
Deus... No cobiceis nem ouro, nem prata, nem as roupas de ningum. Vs
mesmos sabeis que estas mos proveram as minhas necessidades e as
pessoas que estavam comigo. Em tudo vos mostrei que trabalhando assim 
preciso sustentar os fracos e recordar as palavras do Senhor Jesus, que
disse, Ele prprio: "H mais ventura em dar que em receber." Desejo,
meus irmos - disse Frei Jos - que pondereis, procurando neste momento
to grave para a coletividade compreender as palavras do apstolo,
inspiradas pelo Divino Esprito Santo: "H mais ventura em dar que em
receber." No  a avareza, o egosmo, a tirania que do felicidade.  a
generosidade, a caridade e a bondade do homem para com o seu semelhante!
No  o jugo forado do senhor sobre o escravo, mas o estmulo
44
que ele leva com a sua justia que pode assegurar-lhe verdadeiro
progresso.
Com eloqncia, o frade continuava a falar. Rodolfo, de soslaio,
observava Sinh- Moa que, atenta, com o semblante inundado de
satisfao, parecia aplaudir as palavras de Frei Jos.
- A sociedade - prosseguia o sacerdote -  um desenho de Deus. Foi por
Cristo - como disse to acertadamente Bossuet - que Deus terminou esse
desenho. Mas o Cristianismo no  nenhuma rea que no se possa
distender; , ao contrrio, um crculo que se alarga  medida que a
civilizao se desenvolve... Ele no comprime, no oculta nenhuma
cincia, nenhuma forma de liberdade,.. Jesus Cristo, ao vir ao mundo,
pregou a igualdade entre os homens, A liberdade, portanto, sem escravos.
A histria da sociedade moderna comeou verdadeiramente sob o holocausto
da cruz, E a cruz, meus irmos,  o monumento da civilizao moderna.
Dos ps do lenho, falou com veemncia Frei Jos, olhando para o altar: -
De Jerusalm foi que partiram doze legisladores pobres, quase nus, com
seu basto, para ensinarem s naes a renovao dos costumes.
Precisamos, ns, carssimos irmos, a exemplo destes heris, trabalhar
tambm pela fraternidade entre os homens, seguindo o caminho de Jesus,
S quem segue a sua doutrina pode considerar-se devidamente cristo. No
basta vir  igreja!  preciso proceder de acordo com a sua lei!  em
nossos coraes que armamos o altar para elevar Jesus fazendo o bem -
Religio  verdade pura -  caridade.
- Somo tudo vendido mermo, Sinh-Moa.. Vassunc  que percisa esquece
de nis.
45
Abenoando os fiis, que num zunzum se acotovelavam para sair, Frei Jos
voltou ao altar e ajoelhou-se, rezando contritamente.
- Minha me - disse baixinho Sinh-Moa - vou  sacristia esperar Frei
Jos, para cumpriment-lo. No me demorarei.
- Pense em seu pai - respondeu D. Cndida. - Voc sabe quanto 
impaciente; no v demorar!
- Sim, mame.
Ao v-la levantar-se, Rodolfo, que ficara junto ao umbral da igreja,
despediu-se apressadamente do amigo e seguiu-a.
Sinh-Moa, esperando Frei Jos, folheava o missal distraidamente.
Sbito ouviu junto de si a voz de Rodolfo, que a fez, involuntariamente,
estremecer.
- Boa noite, "Sinh-Moa". Permita-me que a cumprimente com a minha
simpatia, a minha admirao?
- Muito obrigada lhe fico por suas amveis palavras - respondeu
Sinh-Moa, sentindo um misto de acanhamento, mas tambm de prazer, o
que, alis, a ela prpria surpreendia.
- Que surpresa! Como est enfeitado este recanto da igreja!...
Sinh-Moa, por aqui..
- Sempre generoso, Frei Jos! Vim cumpriment-lo pelo seu magnfico
sermo!
- Gostou ento? Acha que minhas palavras conseguiro calar no corao
dos escravocratas?
- No tenho dvidas - respondeu Sinh-Moa, interrogando Rodolfo com o
olhar.
46
- E o senhor? No diz nada? - indagou Frei Jos, batendo de leve no
ombro do rapaz, tirando-o do seu devaneio.
- A minha presena neste recinto no lhe diz algo? - perguntou sorrindo
Rodolfo. - No percebeu, Frei Jos, aguardava modestamente a minha vez
para saud-lo?
- Nesse caso - objetou o frade amigo - d-me agora o seu abrao. E
continuando - pelo que pude notar quando me aproximava, j eram amigos.
Esto, pois, dispensados da minha apresentao. Afirmo-lhe, Dr. Rodolfo,
 medida que for convivendo com Sinh- Moa ficar encantado! As idias
dela se coadunam com as suas. So assim, humanitrias e generosas...
- J havia percebido, Frei Jos - atalhou Rodolfo envolvendo a jovem num
afetuoso olhar. E indagou:
- A senhorita recorda-se?
- Frei Jos, sinto-me to aturdida... - queixou-se Sinh-Moa,
enrubescendo.
- No h razo. Estou apenas falando a verdade...
Mudando bruscamente de assunto, falou a moa a Frei Jos:
- No posso demorar-me mais, santo Deus! O senhor bem conhece meu pai.
Ele tem horror  cidade. Est com o trole nos esperando, para
regressarmos, agora mesmo,  fazenda. Adeus, Frei Jos.
- Deus a proteja, minha filha, - disse o capelo, abenoando-a.
47
- Boa noite, Dr. Rodolfo!
- Felicidades e boa viagem! A propsito, pode dar-me ainda um pouco de
ateno? Queria convid-la para o baile que vamos oferecer, na prxima
semana, em homenagem  mame, que festeja as bodas de prata.
Um pouco confusa diante desse convite, Sinh-Moa estendeu a mozinha
enluvada para o rapaz, num gesto quase de assentimento:
- Depois falaremos. Muito agradecida!
- Poderia ter dito que sim - retrucou Rodolfo, sem reparar que o
sacerdote o estava observando. - A sua pessoa faria o encanto da festa!
Posso assegurar-lhe que a sua presena seria para minha me a maior
alegria...
- Poderia decepcion-lo... - com um sorriso quase irnico, respondeu
Sinh-Moa, partindo.
Na porta da igreja, o fazendeiro, com a ponta da bengala, batia
nervosamente os velhos degraus, pronto a explodir de impacincia.
D. Cndida consultava medrosamente o relgio de ouro, preso pela
"chatelaine" na blusa de renda. Previa a clera do marido se Sinh-Moa
continuasse a demorar.
L fora, a noite estava escura e uma chuvinha renitente comeava a
cair... Eis que surge Sinh-Moa, correndo, como criana alegre, como
escolar em frias, perguntando a rir:
- Demorei-me muito? Frei Jos custou um pouco a chegar! No me ficava
bem partir sem cumpriment-lo ...
48
- No havia razes para isso! Retardar nossa volta com chuva, isso, sim,
no acho nada interessante. O que voc diz. Cndida? - indagou o coronel
Ferreira, olhando tamhm para a filha, como a perscrutar o que lhe ia na
alma.
- No se aflija, meu velho! No acontecer nada. Voltaremos com Deus! O
caminho ainda est seco. Agora  que comea a chover - ponderou a
senhora, pacientemente.
Sinh-Moa emudeceu. Estava entregue aos seus pensamentos e sentia
dentro do corao um calor novo que a fazia estremecer em verdadeira
festa de primavera... Despontava sem que pudesse compreender, na sua
alma, algo doce, de indito, que a fazia inteiramente venturosa. -
Amava, Sinh-Moa...
Sacudindo os ombros num gesto de aborrecimento, continuou o fazendeiro,
dirigindo-se ao escravo:
- Tomemos por esta encruzilhada. O trajeto  menos perigoso -
acrescentou maliciosamente, olhando para o cocheiro. E falando para si:
Desses bandidos pode-se esperar tudo.
Sinh-Moa, que o ouvira, replicou:
- Oh! Meu pai! Sempre pensando mal dos outros! Assim, como pode ser
feliz. Quem tem a conscincia tranqila no deve alimentar tantos
receios!
- J te proibi de estar recriminando meus atos! Ningum melhor que eu
conhece a crnica desta escria ... que, alis, pensa vencer-me! Mas,
nisto  que se engana redondamente! Serei senhor mesmo para
49
v-los estorcerem-se sob as dores dos ferros em brasa e atirados aos
corvos!...
- Como temo pelo senhor, meu pai! Se soubesse o horror que sinto
pensando que algum possa estar a ouvi-lo! Que venha a sentir dio do
senhor, que lhe queria mal - balbuciou Sinh-Moa, baixinho e
chegando-se mais para perto da me, que tremia de medo.
Na bolia do trole, o cativo de Angola, negro embrutecido pelos
sofrimentos, que recebera as ordens do coronel e o escutara no seu
desabafo, alimentava dentro do corao um sentimento de vingana.
Sinh-Moa, com os olhos marejados de lgrimas, como prevendo alguma
coisa m, dizia intimamente a Jesus:
"Do vosso" trono de estrelas, olhai por meu pai! Abrandai seu corao,
tornando-o mais humano! Fazei passar por seu olhar endurecido o
sofrimento do escravo! Daquele que morre estrebuchando na enxerga das
senzalas sem nenhuma assistncia... Lembrando-se, muita vez, dos seus
filhos pequeninos, que lhe foram arrancados dos braos para que fosse
melhor vendido!
"Fazei-o recordar da velha Ba que o nutriu, que lhe deu o seio dando-lhe
vida e hoje, ajoelhada aos seus ps, pede misericrdia pelos irmos e o
encontra impassvel...
"Passai pelos olhos de meu pai, indiferentes ao sofrimentos dos
humildes, essas levas de cativos que ele compra e que vende e que chegam
nos pores dos
50
navios, esqulidos, famintos, enlouquecendo de dor e de saudade...
"Mostrai-lhe, Senhor, o martrio dessa pobre gente de pulsos cortados
pelas correntes de ferro e que incessantemente lhe pede misericrdia!
Fazei-o enojar-se dos feitores tiranos que, rindo como dementes, como
imbecis aoitam o negro, comprazendo-se, depois, quando o vem coberto
de sangue"...
To absorta estava Sinh-Moa na sua splica que s percebeu a chegada 
fazenda pelo barulho seco da porteira, empurrada com fora pelo coronel,
que ajudava a mulher a descer e que ordenava ao cocheiro:
- Leve os animais para o pasto e prepare o trole para amanh cedo e
recolha-se imediatamente  senzala. Nada de conversa, ouviu?
Justino, assim se chamava o escravo, desafiando com o olhar frio o
fazendeiro, respondeu- lhe que sim entre dentes e se foi.
D. Cndida, que vivia intimidada com as atitudes do marido, entrou em
casa acompanhada de Sinh-Moa e foi beijar Lus. Ele dormia.
Ouvindo os passos ligeiros de Sinh-Moa Virgnia veio falar-lhe:
- Bno, sinhazinha! Por que dona Cndida foi pru quarto chorando! E a
festa de seu revereno? Vassunc gostou? Num panharam chuva? Este vestido
to fino? Tava cum arreceio qui vassunc se resfriasse... Virgnia tamem
tava afrita, pidindo pra Nosso Sinh qui fizesse vancs tudo vort
dipressa... Nunca vi quer tanto bem - asseverava na sua meia
51
lngua a preta velha, que fora tambm ama de D. Cndida.
- Foi tudo direito, Ba. Fico-lhe muito obrigada pelo interesse. Apenas
voltei um pouco cansada. A estrada no estava das melhores e creio que o
abalo me deixou com dor de cabea. Vou descansar e amanh estarei boa.
- Vassunc aceita um ch de fr di laranja?
- No, Ba, o melhor remdio  o sono - objetou a jovem, passando a mo
pela carapinha branca da escrava.
Um silncio se fez no interior da casa. L fora, porm, alguma coisa de
anormal se passava. O ar pesado, escuro, cheio de apreenses.
A chuvinha continuava a bater nas vidraas da casa-grande como gemidos
tristes de escravos algemados ...
D. Cndida no conseguia fechar os olhos. Uma angstia indizvel
assenhoreou-se do seu corao; tinha mpetos de acordar o marido, que j
dormia despreocupado. Mas, ao mesmo tempo, tinha receio de irrit-lo.
No compreenderia seus receios, seus pressentimentos ...
Sinh-Moa, pela primeira vez, depois de tantas noites em claro, dormia
feliz, sonhava com algum...
Eis que, de repente, um tiro surdo na solido da noite se fez ouvir! O
coronel saltou da cama, apanhou a garrucha e saiu para o alpendre. Ali
gritou pelo administrador, perguntando-lhe em voz alta:
- O que h? O que se passa?
52
Sua voz perdeu-se no aceiro do mato... Ningum Lhe respondeu. Assomando
ento  varanda, d. Cndida, que desejava seguir o marido, assustou-se
com a escurido daquela noite sem lua e rogou-lhe que no sasse.
- Irei com ele, declarou Sinh-Moa. Fique tranqila, minha me! E,
embrulhando-se na mantilha que Virgnia lhe trouxera, tentou seguir o
pai, que sem lhe dar ouvidos saiu gritando:
- No quero que me acompanhe! Fique com sua me! Em absoluto, no posso
admitir isto! Se esse tratante no cumpre as suas obrigaes tomando
conta da fazenda, se dorme sono solto como um... frade, irei sozinho
investigar o que se est passando!
E continuou a gritar:
- Bastio, Justino! O silncio doa.
Com a garrucha na mo, o fazendeiro, espumando de raiva, entrou nas
senzalas, encontrando com surpresa somente as mulheres e as crianas.
- Onde esto os homens? - vociferou. Emudecidas pelo medo, elas no
podiam falar.
Ante a figura enfurecida do coronel, os moleques agarrados s saias
grossas das mes, choravam baixinho, procurando esconder-se.
E ele continuava cada vez mais irritado com o silncio das escravas:
- Falem, miserveis! Se continuarem assim, mandarei amarr-las e sero
aoitadas para servirem de exemplo aos parceiros... - mas no terminou a
frase.
53
Sinh-Moa surgiu naquela escurido, onde o dio e o pavor se
associavam,e perguntou ao pai:
- O que  isso? Acalme-se... Tenha pena destas mulheres indefesas, eu
lhe peo...
- Desaparea de minha frente, maluca! - replicou fora de si o
fazendeiro. Voc  culpada de toda esta indisciplina!
- Meu pai! Escute-me... Volte comigo para a fazenda, suplico! Tenha pena
de minha me!
- No sou covarde! Se o capataz  poltro e se fecha a sete chaves com
receio de indisciplinados, sairei sozinho  procura desses cachorros!
Sinh-Moa assistia  fria paterna, sem saber como reagir.
Virgnia, mandada por D. Cndida para proteger Sinh-Moa,
implorava-lhe:
- Num deixe, sinhazinha, sa seo coroner.. .
- Que est ela dizendo? - perguntou o fazendeiro, desconfiado.
- Tava pedindo pra sinhazinha num deixa vassunc sa s pelo caminho...
Arreceio...
- Essa agora tem graa! - exclamou o fazendeiro, fitando-a duramente.
-  mermo... Vosmec t cum seo dereito... Cumpro nis tudo, mas os
negro num qu si conforma. Iscravo tamm tem corao... tem entranha...
Ama, seo coroner... tamm odeia, taliqu us branco...
Possesso, achando atrevimento demasiado de Virgnia falar-lhe assim, o
coronel bateu-lhe com o chicote no rosto, fazendo-a encostar-se num
canto.
54
Desesperada ante a crueldade do pai, Sinh-Moa, querendo proteger a
mucama da fria paterna, atirou-se sobre ela, encostando seu rosto nas
faces negras e molhadas de lgrimas da escrava. Misturando sua cabea
fulva Com a carapinha empapada de sangue.
Era um quadro comovente. Choravam as cativas e as crianas e sinhazinha,
aflita, procurava consolar a pobre Virgnia.
L fora, a chuva continuava a cair como lgrimas sentidas diante de
tanta incompreenso, diante de tanta crueldade.
Captulo 5
O Coronel Ferreira voltou a casa, um tanto preocupado. Limpou, azeitou,
escovou a garrucha, calou as botas, ps a capa e, sem dar ateno s
lgrimas de D. Cndida, que perguntava por Sinh-Moa, partiu num dos
cavalos desatrelados do trole.
Embrenhou-se pelo mato encharcado, procurando ouvir algum rudo que o
pudesse orientar. De vez em quando, fustigava o animal com mais fora,
como a querer despert-lo para que as investigaes fossem mais rpidas.
De repente, o cavalo estacou. Que ter acontecido?- perguntou ele a si
mesmo. Apeou e um horripilante quadro surgiu-lhe diante dos olhos.
O administrador, com as vestes rasgadas, os olhos fora das rbitas, as
vsceras  mostra, jazia morto.
Estatelado, o fazendeiro olhava aquela cena trgica. Calafrios
passavam-lhe pelo corpo. Imediatamente compreendeu. Tratava-se de uma
vingana dos escravos.
"Virgnia dever saber dessa conspirao. A prova  que no queria que
eu sasse... Fiz mal em t-la espantado, para poder melhor conhecer os
fatos. Enfim... no h tempo a perder. O melhor ser ir 
56
cidade, pensou ele, transido de medo, e trazer as autoridades.
Sem mais perda de tempo, partiu a galope, pela estrada afora.
Escondidos no mato, os negros espiavam seu desespero, riam-se dele.
S Sebastio e Toms pediam-lhes indulgncia, por amor  sinhazinha. Era
to boa para eles... - diziam os coitados.
- Pena? Quem tem d de ns? O que fizeram os brancos com nossas mes,
com nossos fios, com nossos irmos? Toms t i... Ele pode diz... A lua
t pareceno pra crare o caminho. Ele t veno ?... Quem foi que tirou a
vista dele?...
Si o Coroner Ferreira incontrasse nis tudo, agora, nem mandaria mata,
punha nis nu "tronco"? - falou Justino, o cocheiro negro, de alta
estatura, enrgico e rancoroso  fora dos mal tratos sofridos.
Bastio ainda tentou convenc-los, mas, olhando para o escravo
irredutvel, cujos olhos no desmentiam seus objetivos, calou-se
amedrontado por Justino, que deixava espumar a raiva da boca sensual.
Seus olhos brilhavam de indignao; lembrava-se nesse momento do irmo
mais moo, que enlouqueceu por causa dos maus tratos do fazendeiro.
Nunca mais pudera esquecer o infeliz irmo Fulgncio; o coitado, j
louco, preso num casebre, quando via passar o coronel, punha-se a
gritar:
"- Satans! No venha beber meu sangue, comer minha carne!"
57
Era uma alucinao do demente, mas a Justino parecia sempre um convite
para a vingana. E dizia ele aos companheiros:
- No h tempo a perder! Precisamos vingar-nos do que foi feito a
Fulgncio! A esta hora os capites-do-mato devem andar  nossa procura.
O melhor , Bastio, correr s senzalas trazendo as mulheres, do
contrrio serviro como refns.. .
Bastio, que era moleque submisso, numa corrida desabalada saiu para
cumprir as ordens e trazer as companheiras de infortnio.
Para surpresa sua, encontrou Sinh-Moa, quelas horas, consolando-as.
Era comovente a figura dessa jovem.
- Aqui? - indagou Sinh-Moa, dirigindo-se a Bastio. Onde deixou meu
pai?
O negro, embaraado, no sabia o que responder.
- Fale! Bastio! No mereo mais a sua confiana?
- , sinhazinha, num sei u que diz pra vassunc... Juro pru Deus Nosso
Sinh qui seo coroner foi pra vila...
- E voc? Que veio fazer? Onde deixou os companheiros? Por que fugiram?
Que esto planejando? ...
Sem deixar que Bastio lhe respondesse, as cativas continuavam a se
lamentar, conscientes da opresso que sofriam... Achavam que o coronel
no devia ter espancado Virgnia, que tinha falado a verdade...
58
Se o corpo muita vez obedecia (diziam elas), a alma, a todo instante, se
revoltava contra a tirania do senhor branco.
Elas eram tratadas como coisas sem valor, no como criaturas que pensam
e que sentem.
"Raa inferior", dissera-lhes o coronel! Ele medira por certo o crebro
do escravo, achando-o estreito para os grandes empreendimentos, feitos
apenas para obedecer.
Mas chegara o momento da desforra! Gritavam, proclamavam as mulheres,
numa alegria selvagem.
Virgnia, conciliadora, procurava acalm-las e Sinh-Moa, magoada, no
podia deixar de, no fundo, achar que as pobres tinham razo...
Bastio continuava calado, esfregando as mos calosas num ar embaraado.
- Mas, Bastio... que deseja voc? Chorando como criana, ajoelhou-se
aos ps de Sinh-Moa, pedindo-lhe:
- Fuja, sinhazinha! Vassunc num pode sofrer inocente. Os negro tudo vai
vinga nos brancos qui num tem corao, Sinh-Moa. Justino  qui mando
eu pru mode leva as mui imbora...
Uma palidez de morte ensombrou o rosto de Sinh-Moa. Ela percebeu a
desgraa que se aproximava, ficou como petrificada, sem poder falar.
- Vamo, Sinh-Moa - ponderou Virgnia, apoiando em si o corpo delicado
da jovem, que vergara como vara nova ante tanta emoo.
59
- Irei sozinha - objetou Sinh-Moa - readquirindo o sangue-frio. No
tenho receio de nenhum mal que me possam fazer. Siga as outras mulheres.
Que direito tenho eu sobre sua vida? Voltarei para perto de mame e de
Lus.
- Perfiro morre junto de vosmec du que fugi, Sinhazinha!
- Mas  impossvel, Virgnia, tanto sacrifcio! O que a espera, seno as
iras de meu pai.
- Num  sofre, fica junto di quem si qu bem...
Vendo que Virgnia no as acompanhava, as cativas foram pegando nas
trouxas, carregando os filhos e saindo uma a uma para o terreiro.
Umas, com pena de Sinh-Moa; outras, satisfeitas com a rebelio.
Pensando na sorte do pai, encaminhou-se para a casa-grande, acompanhada
da mucama. Durante o trajeto ela conjecturava: "A desdita conhecida d 
alma um ponto de apoio: sofre-se, mas no se ignora o sofrimento. Ele j
est determinando e une um profundo sentimento  pena de sua vtima ou
onde ela se agita ou se debate... Mas um infortnio que se apresente e
de que a imaginao nos traz vrias formas, provoca em nossas almas uma
dor que desnorteia e da qual no podemos precisar o grau de dureza...
Como suportar, meu Deus, esta tormenta? Encher o esprito de coragem, de
resignao, ou de energia franca para combater?" Estes pensamentos se
sucediam na cabea de Sinh-Moa, que via passarem as horas numa
lentido de cortejo fnebre.
60
Seu corao batia violentamente e tudo a fazia estremecer... O cair de
uma folha no caminho, o fosforescer de um vaga-lume, o vo de um pssaro
noturno.
Afinal, chegaram  casa. D. Cndida, debulhada em lgrimas, invocava a
proteo da Virgem. Lus, como passarinho que no conhece as agruras da
sorte, dormia tranqilamente...
Quando viu a, chegada da filha, num misto de contentamento e de
preocupao, disse D. Cndida:
- Como sou feliz, voc voltou! E seu pai?
- Tranqilize-se mame - replicou Sinh-Moa, aparentando uma calma que
estava longe de sentir. No tardar. Tudo j est resolvido.
- Deus lhe oua! Temo tanto pela sorte dele! Justino, todavia, no
perdia tempo. Como experimentado general, distribua os parceiros pelas
cercanias da fazenda, ocupando as posies estratgicas. E nessa obra de
defesa empregava tambm muitos negros que tinham fugido de outros
senhores para a eles se juntarem.
Sabiam que, se fossem apanhados, seriam trucidados como feras e, por
isso, tratavam de preparar-se para receber os brancos...
Na cidade, reinava o medo. Um grande susto contagiava todas as pessoas
que eram partidrias da escravatura. Frei Jos, apreensivo pela sorte
das famlias, rogava a Deus que as protegesse.
Quase sem poder respirar, ofegante, afinal chegou  delegacia o Coronel
Ferreira, explicando a situao ao Dr. Fontes, seu velho amigo, que se
achava naquele momento com as autoridades, providenciando para dominar o
motim.
61
Imediatamente, foram mandadas algumas escoltas para dispersar os
insurretos.
Dr. Rodolfo, que estava na sala contgua, passeando de um lado para
outro, preocupava-se com Sinh-Moa que, quela hora, deveria estar
aflita.
Pensava em partir, acontecesse o que acontecesse, para proteg-la. A
vida da jovem representava para ele toda a razo de ser de sua
existncia. Seu corao estava apaixonado. Uma febre escaldava-lhe as
entranhas. Era a angstia de imaginar um possvel martrio quela
criaturinha amada...
E dizia para consigo: No h nada mais triste do que vermos um querido
sonho de amor ensombrado por fantasmas que ameaam desfaz-lo para
sempre, como brumas ao vento... E se a matarem? Essa idia assustava-o.
Do outro lado, Sinh-Moa tambm se preocupava com Rodolfo. Que lhe
poderia suceder? Era arrojado... No temeria conseqncias e tudo faria
para defender a famlia...
A inquietao angustiava a todos os lares.
De momento a momento, ouviam-se tiros e s nas oraes certas pessoas
encontravam tranqilidade.
Rodolfo, no podendo suportar mais a inquietao que o martirizava,
props ao delegado ir tambm combater os escravos rebeldes que ameaavam
a vida dos fazendeiros. Era preciso no perder tempo.
63
Embora desgostoso com a sugesto, a autoridade, que era comodista e
afeminada, resolveu aquiescer ao pedido, sugerindo que, nesse caso, os
outros fazendeiros se pusessem tambm a caminho.
Nesse nterim, as patrulhas estavam agindo. Descargas se ouviam por toda
a parte. Em relao, todavia, ao grande nmero de escravos rebelados,
eram poucas as patrulhas para conseguirem prender os que se achavam
escondidos, atacando de emboscada, assaltando ...
O tiroteio amiudou-se. Intrpidos, os negros se atiravam contra os
capites-do-mato, de faca em punho, rasgando-lhes o ventre numa alegria
feroz. Por todos os lados, soldados caam feridos. Sem pena, os
escravos, cada vez mais enfurecidos, como selvagens, animados pelo xito
da insurreio, prosseguiam na sua vingana sem esquecerem, no entanto,
o principal objetivo de suas faanhas: os fazendeiros tiranos.
Bastio continuava a pedir piedade pelo pai de Sinh-Moa;que se
aproximava com escolta. Justino ria enfurecido, ria como demente,
enchendo a mata com suas risadas.
Sem atender s splicas do moleque, dizia:
-  ele, sim... T chegando cum seus companheiros ...
E, como felino, num salto gil, sem ouvir mais nada, atirou-se sobre o
Coronel Ferreira, arrebatando-o do cavalo e rolando com ele no cho. O
fazendeiro, colhido de surpresa, ainda quis apertar o gatilho da
garrucha que empunhava, mas o escravo, mais hbil, mais esperto,
arrancou-a de suas mos, arremessando-a para longe e cravando-lhe nas
entranhas o punhal.
Deixando-o desfalecido, Justino embrenhou-se no mato, desaparecendo.
Desorientados pela rapidez com que tudo se passara, os componentes da
escolta, embora continuassem a atirar, nada conseguiram.
Indignado diante desse assassnio, Rodolfo resolveu sozinho prender o
escravo. No obstante os avisos dos amigos, fustigou o animal e entrou
no mato.
Examinando o ferido, o Dr. Fontes, apesar de no ser mdico, verificou
ser gravssimo seu estado. Teve a impresso de que o crebro estava
contundido, tal a violncia com que o negro havia batido com a coronha
da garrucha.
Achava melhor levarem-no, quanto antes, para a cidade. Atendendo com
muito sacrifcio os companheiros, colocaram o fazendeiro no lombo do
cavalo e levaram-no a toda pressa.
Rodolfo, sem medir conseqncias, pensava apenas na sua amada, receoso
de que os escravos, num estado de exaltao, a quisessem punir pelas
faltas do pai. E saiu, no com o esprito de vingana, mas querendo
aconselhar os cativos, para que eles no prosseguissem no intento.
Eis que alguns escravos seguiram-no e o assaltaram. Uma luta corpo a
corpo se travou. Conseguiram subjug-lo, afinal, amarrando-o, em
seguida,  cauda do cavalo.
64
Depois, fustigando o animal para que se tornasse enraivecido, fizeram-no
disparar pelos caminhos afora, puxando o corpo do rapaz, que ia como um
joguete, batendo nas pedras, nas razes das rvores.
Bamboleando os corpos, numa dana macabra de vitria, os rebeldes,
cheios de esprito de vingana, porque assim os tinham preparado os
brancos, riam malucamente, assistindo ao martrio de mais uma vtima.
O tiroteio continuava de uma parte e de outra. Novo dia surgira. O sol,
muito claro, aluminando o matagal, facilitando a captura dos amotinados.
Viam-se mortos e feridos. E os poucos soldados que restavam da escolta
apenas conseguiram prender alguns escravos... A maior parte permanecia
escondida.
Na fazenda Araruna, ningum conseguia repousar.
Virgnia passara a noite friccionando os pulsos de D. Cndida, que
ficara por muitas horas desfalecida.
Sinh-Moa, angustiada, pensava no destino do pai... E, por que no
dizer?, no homem que despertara seu corao para a vida!
Onde estariam quelas horas. Ter-lhes-ia acontecido alguma coisa?
De repente, movida por uma fora estranha, correu  janela. Parecia-lhe
ter ouvido algo de anormal. Mas, se estivesse enganada? Deveria
realmente estar nervosa.
Seus olhos atentos, no entanto, viram qualquer coisa de estranho ha
entrada do terreiro. Apesar do
65
nevoeiro, que era intenso, avistara um cavalo que arrastava um fardo.
Que seria? E, gritando para Virgnia:
- Deixe mame um instante, venha comigo! Por Deus! Terei
enlouquecido?...
- Nosso Senhor seja louvado, sinhazinha... Vassunc t int ficano
duente... V descansa um pouco pr mode mior... Isso tudo  nervoso...
Sem dar ouvidos ao que lhe dizia Virgnia, Sinh-Moa saiu correndo em
direo  porteira e, a seus olhos atnitos, como se fora alucinao,
apareceu-lhe banhado em sangue, coberto de terra, Kodolfo.
- Virge Maria! - exclamou a mucama, que seguira Sinh-Moa. Uqu t
aconteceno...
- Ajude-me, Virgnia, disse Sinh-Moa, enxugando o sangue que cobria o
rosto do moo. Vamos cortar as cordas, antes que o animal o arraste
novamente ...
- V busca um faca pru mode i mai depressa!
- Traga tambm gua fresca, para umedecer-lhe os lbios - disse a jovem,
acariciando a cabea do amado. E toalha para limpar as feridas.
Sem poder esconder mais o seu amor, Sinh-Moa revelava o sentimento que
a dominava... E chorava, temendo que Rodolfo no resistisse ao
sofrimento... Achava sua respirao quase imperceptvel... Seu corao
parecia-lhe no bater, suas mos estavam glacialmente frias... Deus que
o poupasse, que no o deixasse morrer, dizia baixinho, numa voz de
prece.
66
- T tudo aqui, sinhazinha! Mas o mio, objetou tremendo a mucama,  nis
leva pra drento de casa seu doto...
- E mame - ponderou a jovem - levaria um susto horrvel vendo-o chegar.
Julgaria ser meu pai!
- Entonce, permero v espia se D. Cndida t drumino. Dispois nis
levemo, no , Sinh-Moa?
- Mas v depressa e prepare a cama do meu quarto para ele. Ficarei com
mame at Bodolfo restabelecer-se.
- Sim, sinhazinha - respondeu Virgnia triste por ver o sofrimento da
sua menina querida e certa de que Rodolfo no resistiria aos
sofrimentos.
Captulo 6
Os poucos soldados que restavam da refrega estavam rotos, machucados e
voltaram para a cidade, levando consigo os insurretos que conseguiram
aprisionar.
As autoridades os aguardavam ansiosas, para interrog-los.
No hospital, o Coronel Ferreira, que se achava em estado de choque, era
tratado com desvelo e com pena. Era uma vtima, incontestavelmente, da
sua prpria tirania.
Os outros fazendeiros, feridos uns, outros cansados da luta, recebiam o
conforto moral de suas famlias.
Em casa do Dr. Fontes havia grandes preocupaes. A mulher e o filho
mais moo, Bicardo, no tinham sossego com a demora de Rodolfo. S ele
no regressara, nem dava notcias. Que teria acontecido?
Com a voz embargada pela emoo, o Dr. Fontes dizia:
- Ele afastou-se de ns, quando foi atacado o Coronel Ferreira...
Pedimos que ficasse, mas, sem dar ouvidos, embrenhou-se no mato 
procura do criminoso ...
- Que horror!
68
- No creio, no entanto, que os escravos lhe tenham feito algum mal -
acrescentou a Senhora Fontes. Ele defende com tanto ardor a causa da
abolio!
- Mas... - retorquiu ainda Ricardo - muita vez pagam os justos pelos
pecadores... Num combate, s vezes...
- Ora, Ricardo, no percebe que insiste em assustar sua me? - perguntou
o Dr. Fontes, tentando esconder um pressentimento cruel que lhe ia na
alma.
- No se preocupe, meu velho - ponderou a senhora. So receios naturais
os de Ricardo. Confio, porm, no carter leal dos cativos.
- Prouvera a Deus que me enganasse, tanto mais que eles no ignoram ser
Rodolfo partidrio da alforria - disse novamente Ricardo, num longo
suspiro...
- Desconfio  dos capites-do-mato... Figuras nojentas, asquerosas, sem
alma... So capazes de tudo! Ele so os capangas dos senhores sem
entranhas! Os responsveis diretos pela revolta. Vivem assediando os
fazendeiros para, por alguns minguados vintns, perseguir os escravos!
Os pobres so tratados como "coisas", como diz Rodolfo, sem se cogitar
dos seus sentimentos, das suas aspiraes.  natural que se revoltem.
- Tem razo, minha mulher - dizia o Dr. Fontes, cada vez mais angustiado
com a ausncia do filho, ele que assistira ao que haviam feito com o
fazendeiro e que procurava pretexto para sair  procura de Rodolfo.
- Seu pensamento est longe, Fontes - objetou a esposa. Percebo o seu
desespero... V...
69
- Realmente, querida, preferia saber o que h, por que demora tanto
nosso filho - e, beijando a mulher, saiu.
Encontrou a cidade em pnico. Gente por todos os lados e, a respeito do
que estava acontecendo, as mais desencontradas opinies.. .
Na polcia, o delegado dava ordens enrgicas. E nas prises os escravos
que j haviam chegado eram surrados sem pena.
Uns enlouqueciam desesperados, outros ruminavam maiores vinganas.
Embora a contragosto, o Dr. Fontes foi procurar o delegado, para
pedir-lhe informaes sobre o paradeiro do filho. No suportava aquele
homem, julgando-o mordaz e astuto. Ao v-lo perguntou-lhe:
- Soube alguma coisa sobre Rodolfo?
A autoridade tomou ares superiores para responder-lhe :
- Talvez esses patifes presos l embaixo lhe possam informar.
Chamou uma sentinela e deu-lhe ordem para que acompanhasse o Dr. Fontes
s enxovias.
- Obrigado. No creio que os presos me possam dar alguma informao
sobre meu filho. E, a propsito, o senhor j destacou outras escoltas
para patrulharem os caminhos?
- Acho ociosa a sua pergunta - resmungou a autoridade que, sentindo no
ntimo a superioridade do Dr. Fontes sobre si, nutria por ele uma certa
averso.
70
- Nunca  demais lembrarmos uma boa providncia - ponderou o advogado,
seguindo a sentinela, sem esperar que o delegado lhe respondesse.
Ao aproximar-se dos crceres, Dr. Fontes sentiu uma invencvel repulsa
ante as cenas que se lhe depararam. Enfurecidos, como animais
espezinhados, alguns escravos se atiravam de encontro s grades,
completamente desvairados.
Outros choravam pelos cantos, como crianas indefesas, completamente
acovardados.
Reconhecendo o Dr. Fontes, Bastio, que estava algemado e machucado,
chamou-o num lamento:
- Tem d du negro, seu doto! Eu... num fui curpado...
- De qu? - indagou curioso o advogado.
- Juro, meu sinh!
No podendo conter a ansiedade, insistiu Dr. Fontes:
- Fale, Bastio! No aumente o meu suplcio!
- Mas... s inocente,pru Deus Nosso Sinh!
- Quem te culpou de alguma coisa?
- Seo doto delegado disse que fui eu... pru que fico calado quano do
chicotada...
- Cada vez entendo menos, Bastio!
- Perfiro morre mai num traio meo companheiro... Era Fulgncio qui
mandava no esprito dele...
- Juro que no lhe farei mal, mas preciso saber tudo que h! - exclamou
o Dr. Fontes.
71
- Seo doto, vassunc tem razo, mas num  pru causa de mim... pra que
vale a vida do cativo? Nasce s pra sofre...
Exasperando-se com a conversa do escravo, o soldado, para agradar ao Dr.
Fontes, bateu-lhe com a chibata no rosto.
Combalido por tantos maus-tratos, aoitado to brutamente, Bastio caiu
desfalecido.
- Poltro! - gritou o advogado, olhando com desprezo a sentinela. Por
atos dessa natureza  que se sucedem as terrveis vinganas! Se ele no
estivesse preso, voc lhe teria batido?
Justino, que estava num canto e fora o causador daquela cena com
Bastio, pois fora ele quem amarrara Rodolfo  cauda do cavalo,
exclamou:
- Meu sinh! Fui eu... o matado di seo fio... To mereceno a forca... Num
creditei nunca na justia dus brancos... Pensei qui tudo fosse igu...
Dentru du meo corao s escuitava meo pobre irmo louco, gritano pra
seo coroner num come suas carne, num beb seo sangue... Juro, seo doto!
O sofrimento deixou louco Fulgncio i s descansava quano tinha certeza
di que ele seria vingado!
Dr. Fontes, diante daquela revelao, ficou como petrificado, cego de
dor. Ouvia o negro sem conseguir compreender nada... depois, como
voltando de um pesadelo, recobrou o sangue-frio, interrogou o escravo:
- Tu o mataste - exclamou ele. Assassinaste meu filho, aquele que
trabalhava para libertar os cativos? No  crvel, deves tambm ter
enlouquecido!
73
Ante aquele desabafo, o escravo dobrou-se como junco... Dentro do
arcabouo de bronze existia um corao humano - Justino sentia o que
fizera num momento de desvario e queria remediar, se possvel, dando a
vida para salvar a existncia de Rodolfo.
Acabrunhado, sem poder mais ouvi-lo, o Dr. Fontes dirigiu-se  sala do
delegado, pedindo-lhe de antemo que no tomasse nenhuma providncia
antes da sua volta. Preferia, antes do mais, ir procurar o filho onde e
como estivesse.
- O senhor ainda quer ter contemplaes! Quando digo que esta raa 
inferior... - ponderou o delegado, batendo nos ombros do advogado, com
ares consoladores.
- No  a raa - afirmou o Dr. Fontes - que os faz assim, mas as
injustias de homens de sentimentos inferiores e que se dizem cultos e
com esprito de humanidade! O momento, todavia,  imprprio para
discuses e devo partir.
Vendo-o longe, falou com seus botes a autoridade: "Custa-me crer que
ainda haja tanta boa f e tanta ingenuidade no mundo!"
Completamente aturdido, sem saber que deliberao tomar, Dr. Fontes
montou a cavalo e saiu pela estrada, perguntando aqui e ali se algum
sabia algo sobre Rodolfo. As respostas eram sempre negativas, servindo
apenas para fazer os admiradores do jovem advogado desaparecido
engrossarem as fileiras da escolta que se formava para procur-lo.
Todos os esforos, no entanto, tornavam-se inteis.
A noite, envolta no seu vu estrelado, vinha chegando. Penalizados com o
sacrifcio que os companheiros faziam, em vo, pediu-lhes que voltassem.
Iria at a fazenda Araruna, quem sabe se o tinham recolhido!
A contragosto, os amigos cederam e o Dr. Fontes seguiu sozinho para l.
Tudo lhe parecia sombrio e triste, como era triste e sombria a sua alma.
Afinal, chegou  casa-grande. Bateu. Virgnia espiou pela vidraa um
tanto receosa... Quem estaria chegando quelas horas?
- Abra! - disse ele vendo a mucama assustada. Sinh-Moa, que
reconhecera a voz do Dr. Fontes, deixou Rodolfo por um instante e foi ao
seu encontro.
- Fale baixo - pediu-lhe a jovem. No precisa assustar-se. Tudo correr
bem...
Essa afirmativa de Sinh-Moa produziu-lhe um estremecimento e arriscou
esta pergunta:
- Como?
Sim, o Dr. Fontes no sabia se a moa se referia ao motim, ignorando os
fatos mais graves, ou se aludia ao pai, ou mesmo... a Rodolfo. E
insistiu na pergunta:
- Como? Explique-me, por Deus!
- Sente-se primeiro, Dr. Fontes. O senhor parece muito cansado. J lhe
falarei. E, dirigindo-se a Virgnia:Traga um caf, sim?
Compreendendo a angstia, a preocupao que iam na mente do advogado,
Sinh-Moa comeou a falar:
74
- Ele chegou sem sentidos... mas, felizmente, est bem melhor. Tenha f,
h de salvar-se!
- Mas quem! Ele est aqui? - indagou numa alegria quase infantil o pobre
pai. Rodolfo... ento no... morreu? Oh! que alvio - exclamou fora de
si, beijando as mos pequeninas de Sinh-Moa, cobrindo-as de
lgrimas... Conte-me, por Deus. Como pde ele chegar at aqui? Quem o
trouxe?
- Acalme-se, Dr. Fontes. Eu lhe contarei tudo.
- A senhora  uma santa! Bem dizia Rodolfo! Como hei de agradecer-lhe?
Nunca, nunca poderia imaginar que fosse to generoso seu corao...
- No fique assim!  preciso reagir para levantar o nimo de seu
filho... E meu pai? Aconselhou-lhe alguma coisa?
Novamente confuso, o Dr. Fontes no sabia que responder a Sinh-Moa.
No queria ferir o corao que acabava de alegr-lo.
E comeou:
- O Coronel Ferreira... Na verdade, sofreu um pequeno acidente... mas
est bem medicado e internado no hospital. Frei Jos est  sua
cabeceira. No fique nervosa, minha filha!
Sinh-Moa apoiou-se a um mvel. Empalideceu. Foi preciso que o Dr.
Fontes lhe pegasse pelas mos e a levasse docemente para o alpendre,
onde o ar fresco lhe resistiu em parte a calma.
Captulo 7
No quarto de cortina de musselina branca, no leito macio de Sinh-Moa,
cercado de travesseiros, Rodolfo estava desacordado.
Dr. Fontes, seguindo a moa, chegou-se p ante p, receoso de acord-lo.
Tomou-lhe carinhosamente o pulso e se alarmou. De sobrecenho carregado,
demonstrando viva preocupao, disse  jovem:
- Volto  cidade, imediatamente.
- Por que no espera o amanhecer, Dr. Fontes?... Vai atravessar a noite
viajando? Chegou to cansado! Depois, se  por causa de mdico, j
mandei chamar na cidade... E agora, se ele chegar? Seria prefervel o
senhor ouvi-lo.
- Rodolfo no poderia estar mais bem entregue, Sinh-Moa. Tornarei,
todavia, o mais depressa possvel, trazendo o facultativo de nossa
famlia. O mdico, minha querida, no basta mostrar grandes
conhecimentos cientficos; necessita, em primeiro lugar, sentir
interesse afetivo pelo doente... Ser amigo, antes de tudo...
- O senhor tem razo - respondeu Sinh-Moa. Pode, nesse caso, ir
tranqilo. Mas... indagou ainda baixinho: No achou satisfatrio o
estado de seu filho?
76
- No  bem isso. Para nosso sossego, o melhor  ouvirmos mais uma
opinio. Depois, devo tambm avisar minha mulher e Ricardo. Deixei-os,
como imagina, numa grande aflio.
Entregando o chapu ao Dr. Fontes, Sinh-Moa disse-lhe:
- Devo apenas desejar-lhe boa viagem.
- Obrigado e Deus a recompense por tanto trabalho!
- No considere assim poder dar um pouco de conforto a seu filho.
- Est bem -insistiu, comovido e grato, o velho advogado. E partiu.
Voltando para junto do enfermo, a jovem comeou a observ-lo melhor,
achando-o mais abatido... Assustou-se e comeou a pedir a Deus que o
salvasse...
Rodolfo, abrindo levemente os olhos e pousando-os com doura sobre
Sinh-Moa, que continuava orando, pediu-lhe:
- No se aflija tanto... O que se h de fazer! Um destino cruel quer se
opor  minha ventura... J nem posso... mais dizer... o que... sinto...
Meu corpo quer desfalecer... e minha alma fugir... Sinh-Moa...
- Oh! Rodolfo, por que fala assim? No sabe que vai ficar bom? - indagou
a jovem, escondendo entre as mos o rosto umedecido de lgrimas.
- No est falando srio - insistiu o moo j quase sem poder respirar.
77
Ouvindo as vozes, Virgnia, que estava no quarto contguo, fazendo
companhia a D. Cndida,que dormia, deixou-a p ante p e foi perto de
Sinh-Moa. Encontrou-a chorando.
- Pru que t chorano, sinhazinha ?... Vassunc num v qui doto Eodorfo
h di fica bom?
- Mas no me conformo em v-lo sofrer um mal que no merece - respondeu
a jovem, alisando os cabelos do doente.
- Qui si h de faz? - insistiu a mucama, querendo de algum modo
consolar Sinh-Moa.
No cu, a lua, como um disco vermelho, marcava sua passagem, pondo
reflexos de fogo na floresta. Despedia-se enrubescida diante do clamor
dos homens, para deixar que o sol a sucedesse.
Passaram-se assim muitas horas.
Rodolfo, que se acalmara por alguns instantes, novamente comeava a
excitar-se. Na exaltao da febre que aumentava, chamava por Sinh-Moa,
rogando-lhe que no o deixasse morrer.
- No  o anjo dos meus dias? Ou ser isto apenas uma fantasia? Est to
longe... Por que no chega... para junto de mim? Onde esto suas mos,
que curavam minhas feridas?
Depois, acalmava-se, caindo em nova prostrao.
Sinh-Moa, naquele silncio, tinha a impresso de ver fantasmas
difanos em volta de si, como pressentimentos que a rodeassem.
Interrompendo-a com seu delrio, novamente suplicava-lhe Rodolfo:
78
- Meu amor... no me deixe morrer...
- Tranqlize-se - insistia Sinh-Moa - eu lhe suplico! No fale mais,
para no piorar... Procure adormecer... Rodolfo, jamais eu o deixarei...
Ouvindo to carinhosas palavras, acalmava-se o moo. Sua respirao,
todavia, continuava difcil. O suor inundava-lhe o rosto. A todo
instante Sinh-Moa enxugava-lhe as faces.
"No poderei descansar - dizia para si Sinh-Moa - enquanto o mdico
no chegar. Ter desistido por saber que o Dr. Fontes tem outro de sua
amizade? Essa tal tica profissional, santo Deus! - pensava Sinh-Moa.
 uma verdadeira desumanidade para com os doentes..."
Pela manh, D. Cndida indagou de Virgnia como havia passado Rodolfo.
- Num miorou, no. E sinhazinha, coitada... Vassunc percisa v como
est...
Seguindo o conselho, D. Cndida encaminhou-se para o aposento da filha e
se alarmou! Sinh-Moa, enfraquecida pela viglia, estava plida, com
olheiras profundas.
Sentindo a emoo de D. Cndida, receosa de que ela magoasse Rodolfo com
suas preocupaes, a jovem pediu-lhe que no falasse, e assim,
assustada, a me de Sinh-Moa atendeu-a, indo para o alpendre
entregar-se aos seus pensamentos e s suas preocupaes.
Quando ouviu o rudo do trole que chegava, olhou o terreiro e reconheceu
Dr. Fontes, acompanhado da esposa, do filho e do mdico. Sentiu um
alvio no corao. Sinh-Moa poderia agora descansar um pouco e,
pensando assim, desceu os largos degraus da casa-grande, indo ao
encontro da famlia.
79
Atirando-se nos braos de D. Cndida, a esposa do Dr. Fontes s falava
no filho enfermo. Queria v-lo.
- Tenha pacincia! Seu filho ficar bom. No  desesperador o seu
estado. Venha comigo.
Apoiando-se nos braos de D. Cndida, ainda mais enfraquecida com tantos
abalos, a mulher de Dr. Fontes chegou at o quarto. Sinh-Moa veio
receb-la, procurando consol-la, ela que tambm tanto necessitava de
conforto.
- Muito obrigada por suas palavras, disse a me de Rodolfo, mas o
corao das mes  assim mesmo... No se pode conformar com o sofrimento
dos filhos.
- Fiquemos um pouco por aqui, atalhou Ricardo, chamando a me,
Sinh-Moa e D. Cndida, enquanto o Dr. Moreira examinava Rodolfo. E,
passeando de um lado para outro, sem poder esconder a inquietao que se
havia apossado dele, achou que o tempo caminhava devagar.
Afinal, saiu do quarto o mdico acompanhado do Dr. Fontes, dizendo que
podiam visitar o doente.
Era penoso ver a senhora Fontes beijar o filho querido, que a olhava com
ternura, sem poder falar-lhe. E ela dizia:
- Meu querido Rodolfo! Sua mezinha est aqui! No sofrer mais...
Ficarei ao seu lado at ficar bom! - e fitando Sinh-Moa e D.
Cndida,que se mantinham caladas: Estou certa de que as boas amigas no
se oporo a mais este incmodo que lhes vamos dar...
80
- Nem pense nisso. A casa  sua - responderam juntas Sinh-Moa e D.
Cndida. No far cerimnias. O que desejamos  o restabelecimento de
seu filho.
- So realmente encantadoras e generosas - afirmou Ricardo, que
acompanhava a conversa.
Na sala, dizia o mdico ao pai de Rodolfo:
- O caso  bastante grave, Prefiro no ocultar-Ihe a verdade... O
traumatismo sofrido, como o senhor no ignora, foi enorme... No sei,
mesmo, como pde reagir! Para lhe falar com franqueza, a nica esperana
que tenho  no ter havido hemorragia interna e ele ser to forte!
- Ah! - replicou respirando melhor o pai. - Quer dizer que ainda h
esperanas! Acha que Rodolfo poder reagir?
-  o que espero - afirmou o Dr. Moreira. Vamos, porm, deix-lo numa
imobilidade absoluta. Ningum o deve incomodar. Acompanharemos com muita
ateno a marcha do seu estado, e qualquer anormalidade que seja
observada, devero chamar-me.
- Conto com o senhor - respondeu o pai, abraando o mdico. - Espero que
Deus o ajude a salvar meu filho.
- Trabalharei para isso, meu amigo! Uma vida cheia de tanto idealismo
ter de ser poupada. E, encaminhando-se mais uma vez para o rapaz, quis
novamente.
81
Depois, estendendo a mo para as senhoras e para Ricardo, partiu.
D. Cndida seguiu o mdico. Aproveitando-se dessa oportunidade, o Dr.
Fontes falou-lhe:
- A senhora sabe que  bem delicado o estado de Rodolfo? Infelizmente,
no poder se locomover to cedo... Por essa razo, teremos de deix-lo
um pouco mais aqui... Quanto  minha famlia...
- Dr. Fontes - disse a me de Sinh-Moa - o senhor no pode estar
preocupado! A casa  sua, ficaro conosco quanto tempo for preciso. O
que desejamos  o restabelecimento de seu filho!
- Espero algum dia lhe poder ser til, retribuindo a sua bondade
excessiva e a de sua filha - respondeu comovido e sensibilizado.
- No deve mais falar nisso - interveio Sinh-Moa chegando. Virgnia j
preparou os quartos para ficarem.
Tranqilo, Dr. Fontes foi visitar Rodolfo. Deveria na manh seguinte
tornar ao povoado a fim de providenciar os medicamentos necessrios para
o enfermo. Queria fazer companhia ao filho.
Sabedora da sua ida  cidade, D. Cndida, um pouco constrangida,
pediu-lhe que a deixasse acompanh-lo. No conseguiu ter sossego,
pensando no marido que estava no hospital e, por certo, estranhando a
sua falta.
- Sinh-Moa far aqui as minhas vezes - dizia ela.
82
- A senhora no deve pedir - disse Dr. Fontes - deve ordenar. Terei
muito prazer em ser-lhe til. Partiremos pela manh.
A noite toda, D. Cndida tomou as providncias para que tudo na fazenda
ficasse em ordem. Muito cedo j estava pronta.
Captulo 8
DEPOIS de uma viagem comprida, fastidiosa, em que Dr. Fontes e D.
Cndida mal podiam falar, chegaram  cidade.
D. Cndida seguiu para o hospital, Dr. Fontes para a polcia. Queria
encontrar o delegado ainda no seu posto.
Subiu os degraus do sobrado, com agilidade de um moo de vinte anos. Ao
v-lo ali, quela hora, a autoridade mostrou-se curiosa e correu ao seu
encontro, pedindo-lhe informaes sobre o que acontecera a Rodolfo.
- Com grande pesar, devo informar-lhe que meu filho est passando mal. -
E acrescentou: Isso  a conseqncia da luta suscitada entre o negro e o
branco. O desentendimento entre as duas raas trar grandes problemas
para o futuro...  o que j se est delineando na Amrica do Norte...
- Sem querer interromp-lo, respondeu o delegado, apesar de o senhor ter
pedido que nenhuma providncia fosse tomada contra os rebeldes, devo
informar-lhe, embora a contragosto, que o processo j foi encaminhado
aos juizes... Como deve compreender, nem todos esto dispostos a
perdoar.  indispensvel que sejam punidos os participantes da revolta,
ao menos para exemplo, pois sem isso que seria da nossa tranqilidade?
84
Valendo-se do silncio do advogado, na esperana de convenc-lo,
continuou com nfase:
- Todo brasileiro digno deste nome ter de concordar comigo. O Brasil,
meu caro amigo, no est em absoluto preparado para uma brusca
emancipao, como aspiram certos espritos abolicionistas, ou melhor,
fantasistas... A vida do escravo ter de, por toda a existncia,
resumir-se em quatro perodos: nascer, trabalhar, viver e morrer... Eis
tudo o que lhe tinha a dizer.
- O momento  imprprio para falarmos nestes assuntos... Nossas opinies
divergem muito - respondeu com uma pontinha de ironia Dr. Fontes. - Vim
aqui apenas reiterar meu pedido de clemncia para Justino... Por que me
olha assim? Parece-lhe coisa do outro mundo? Pois  irrevogvel. No
desejo que seja torturado. Quanto aos demais, julgo-os irresponsveis
... No agiram tambm como criminosos, mas, na prpria defesa, pela sua
liberdade de entes humanos, dignos desse nome, senhor delegado!
- Este assunto, infelizmente, como no ignora, no est somente na minha
alada... Ser entregue s outras autoridades... Ter, portanto, seu
andamento natural, e a pena, Dr. Fontes, dificilmente ser reduzida.
- Ainda bem que o processo ter de passar por outras mos!... Confio
sinceramente no esprito de justia dos-juizes!
- Espero que seja bem sucedido, Dr. Fontes!
85
- Obrigado! - respondeu o advogado, saindo furioso com a concepo e com
o esprito zombeteiro da autoridade. Dirigiu-se ao hospital para visitar
o Coronel Ferreira.
Sabia que o seu estado no era nada lisonjeiro e estava ansioso por
v-lo. Prometera mandar notcias a Sinh-Moa. Ao chegar  Santa Casa,
encontrou desolada D. Cndida. Frei Jos procurava consol-la, mas
qual...
- Precisa ter pacincia, minha senhora, dizia o sacerdote...
- , arrematou Dr. Fontes... ningum pode conhecer os desgnios de
Deus...
- Ele no  mau, reverendo! Tem suas opinies... suas obstinaes, mas
no fundo  bom... - soluava D. Cndida...
- Eu compreendo - afirmava o advogado - so espritos reacionrios que
despertam dios e vinganas. .. Se encontram uns que sabem tolerar,
podem encontrar outros que no perdoam, minha senhora!
- Dizia sempre - insistiu a me de Sinh-Moa - que s os poetas, a
poder de imaginao, podem pintar o escravo sabendo amar, perdoar...
- O Coronel Ferreira sempre esteve errado - afirmou Dr. Fontes. - Frei
Jos que o diga. No conversemos, todavia, sobre o assunto. 
inoportuno.
- Bem, objetou o sacerdote, D. Cndida est em boa companhia. Preciso ir
at s prises. Voltarei para passar o resto da noite com seu marido,
minha senhora! 
86
- V sossegado, frade. Fico inteiramente s ordens de D. Cndida.
- No h como os bons e verdadeiros amigos - disse a senhora. O que
seria de mim neste momento? E, lembrando-se de Rodolfo, disse: Teve
notcias de seu filho, Dr. Fontes!
- H pouco, veio um portador da fazenda com um bilhete de minha mulher.
Felizmente, melhora pouco a pouco. O mdico est cheio de esperana. Sua
filha tem sido incansvel!
- Sinto-me feliz de ver como Sinh-Moa  dedicada e boa,Dr. Fontes.
- E tem razes de sobra para pensar assim. Se o Coronel Ferreira a
seguisse... Quanta vez procurei demov-lo das suas atitudes para com os
cativos... Fiz-lhe ver a realidade... Convidei-o a ser abolicionista,
mas ele se rebelava contra as minhas idias e contra as da... prpria
filha!
- E, apesar do que aconteceu, o senhor ainda continua a acreditar nas
qualidades do negro?
- Ainda, D. Cndida. Mesmo depois do que aconteceu ao meu filho,
injustamente...
Ao proferir essas palavras, Dr. Fontes e D. Cndida perceberam que o
fazendeiro, fitando-os, fazia esforo para falar, mas era intil. Seu
estado no permitia.
- Compreendo o sacrifcio do amigo! - exclamou Dr. Fontes. Quer pedir
notcias de Rodolfo. Eu sei. Tambm arranjou uma enfermeira to boa! No
 verdade? - indagou o advogado, olhando maliciosamente para D. Cndida
e depois para o Coronel Ferreira.
87
- Dr. Fontes est gracejando com respeito  nossa filha - disse a
senhora afagando o rosto macilento do marido. Mas, por ora, no devemos
conversar... Dr. Fontes vir mais vezes e.haver tempo para isso.
Esboando um plido sorriso de satisfao e parecendo ter compreendido a
inteno do advogado, o Coronel Ferreira fechou os olhos, aparentando
uma tranqilidade sem par...
Dentro dalma, todavia, o remorso de tudo que fizera lhe queimava o
corao. No podia ter sossego. Recordava-se de Torn surpreendido na
mata iluminada pelo claro da lua, numa madrugada de vero... Revia os
capites-do-mato apontando a espingarda para o negro velho, gritando:
"Rende-te ou morres!" E ele, mau, a rir-se diante da figura assustada,
acovardada e submissa do escravo cortado de chicote e cego nessa faanha
horrvel...
Revia os outros cativos, apanhados de surpresa... sem poderem resistir,
entregando as mos s algemas ... Seguindo sem reao aparente, como
fantasmas governados pelo infortnio da vida...
Nesses momentos, torcia-se na cama.
-  a febre - explicava ingenuamente D. Cndida. E chamava as
enfermeiras para o socorrerem.
Numa verdadeira alucinao, como demente, ele continuava, alarmando todo
o hospital. O remorso no o deixava. Na sua mente, as cenas monstruosas
das crueldades que havia praticado se reproduziam sem cessar.
88
- Toquem o sino, acordem os negros infames! Acendam o fogo para comear
o castigo! Vamos! E olhava para as pessoas que o cercavam e que se
mantinham estateladas, hirtas, diante dele. No me ouvem? Ento? Por que
essa atitude de indiferena!
- Ferreira! - implorava D. Cndida - no pense em coisas que o podem
afligir!
Com os olhos saltados, quase fora das rbitas, os lbios secos, ele
prosseguia no desatino:
- Andem! Formem filas! Por que baixam os olhos? Tremem-lhe agora os
peitos... hein? Canalhas sem corao... Cortem-lhes a chibata, estou
ordenando. Ningum obedece?
No horror dessa exaltao, ele sentia descer o relho sobre o corpo
indefeso do cativo... E via o sangue correr...
De vez em quando o gemido de algum moribundo, num quarto vizinho,
representava-lhe a recriminao sentida dos muitos escravos que ele
martirizava.
O prprio aconchego da coberta macia dava-lhe impresso horrorosa de
carne esfacelada e mole do negro junto de si, para esfriar-lhe mais
depressa as mos geladas de quase agonizante.
Ningum ousava falar. O prprio Dr. Fontes, homem afeito a emoes
fortes em virtude da profisso, estava tambm abalado.
89
As Irms de Caridade, enfim, todo o hospital se horrorizava.
D. Cndida, sucumbida de dor ante aquele espetculo, rogando a Deus que
se condoesse do marido. Achava-o irremediavelmente perdido e, prevendo o
desenlace, pedia que trouxessem Frei Jos.
Ao cair da tarde, apareceu o bom sacerdote, que adivinhou tudo que se
passava e, para serenar o moribundo, foi logo dizendo:
- O que  isto, meu amigo? Por que fala tanto? Est querendo mostrar 
humanidade que ela no deve ser escravocrata? Descanse por hoje.
Procure, primeiro, restabelecer-se.
A presena de Frei Jos foi um alvio para o doente. Acalmou-se aos
poucos e teve momentos de lucidez. Chegou mesmo a falar, a dizer-lhe:
- Este sofrimento... Frei Jos... veio fazer-me pensar e me
arrepender... dos meus... desvarios... como o se...nhor... sabe... Eu
gosto de luz - afirmou o fazendeiro, esforando-se para fazer o frade
recordar-se dos velhos tempos da fazenda, quando o frade foi
visit-lo... Pediu: Ilumine o meu caminho para a... eternidade... Estou
aqui, penitenciando-me de tudo que fiz...
- Deus j lhe perdoou... Estou certo - asseverou Frei Jos, penalizado.
- No creio - tornou o coronel, novamente desvairado. -  horrvel o que
vejo! O delrio do escravo no podia ser pior que o meu. Fascam ante
mim os olhos de Toms, fora das rbitas! Veja, Frei Jos... ele no me
quer perdoar...
90
- No se moleste tanto, coronel! Pense no sofrimento de sua mulher! O
senhor ainda ter vida para fazer bem aos humildes, para resgatar seus
antigos atos...
- Deus h de ouvi-lo - dizia D. Cndida, ajeitando o travesseiro do
enfermo e suplicando ao frade que no se fosse.
- Ficarei ao seu lado. E o senhor, coronel... Se aceitasse a visita de
Jesus!
- Confesso-lhe, meu amigo - exclamou Dr. Fontes - que  o melhor
lenitivo para as almas inquietas.
- Dr. Fontes tem razo - disse Frei Jos. - Melhor que os remdios do
corpo so os do esprito ... Do tranqilidade e paz interior...
- Resolva, meu velho - insistiu D. Cndida, beijando as mos, que
pareciam esfriar, do fazendeiro.
Querendo furtar-se a to amarga cena, Dr. Fontes pretextou ter de tornar
 fazenda ainda aquela madrugada e, despedindo-se de todos, saiu.
- Seria bom avisar Sinh-Moa, Dr. Fontes - disse o frade em tom
confidencial.
- Era o que justamente pensava - respondeu o advogado. Farei o possvel
para traze-la ainda em tempo...
- Oxal que ainda o encontre com vida! - suspirou o frade.
- Prouvera Deus que sim - objetou D. Cndida, que os ouvia.
91
Era uma rdua tarefa, pensava Dr. Fontes. Precisava preparar o esprito
da moa. Mas ele, justamente ele, que s queria dar-lhe alegrias! Que
contrariedade!
D. Cndida no se conformava vendo o marido piorar cada vez mais... Ele
estava sufocado, sem poder respirar, o pulso falhando, a temperatura em
bruscas oscilaes... Apenas os olhos denotavam lampejos de vida...
Captulo 9
A aurora comeava a avermelhar o cu. Viajando a galope, com a ligeireza
de um moo, Dr. Fontes chegou a Araruna.
Ouvindo tropel de animal, Sinh-Moa, que estava acordada, foi ao
alpendre e viu o advogado apear no terreiro.
- O senhor  madrugador! No acreditou que eu pudesse estar tratando bem
de seu filho, no!
- Bem sabe que no se trata disso - respondeu Dr. Fontes, acabrunhado.
- Peo-lhe que me desculpe. Percebo que algo de grave deve estar
acontecendo...
- Que hei de responder-lhe? - perguntou o advogado. - As palavras me
fogem...
- Adivinho o motivo que o entristece e que o traz aqui a estas horas...
Meu pai,porm, no  verdade?
- Infelizmente, Sinh-Moa.  por esse motivo que estou chegando... Deve
preparar-se e seguir comigo. Rodolfo ficar com a me e Ricardo. Creio
que sua presena levar melhoras ao coronel...
Sem poder falar, sem coragem de indagar da prpria me, com o peito
arfando e as lgrimas molhando-lhe o rosto, a moa chamou Virgnia,
pedindo-lhe que a ajudasse nos preparativos.
93
Precisava partir incontinenti, disse ela.
- Pobre de sinhasinha! Num tem mais sussego! - exclamou a mucama.
Deixando Sinh-Moa, Dr. Fontes seguiu para o quarto da mulher. Sua
chegada assustou a esposa:
- To cedo e assim abatido!
- No  para menos! Se voc pudesse ver o sofrimento horrvel do
coronel! Se todos os culpados imaginassem que o verdadeiro inferno est
na conscincia do prprio indivduo e que o remorso mais cedo ou mais
tarde no os perdoar!
- Estou penalizada - respondeu ela, fazendo o marido sentar-se. - Avalio
o estado de D. Cndida, pobre! E Sinh-Moa, voc j a informou?
- Falei-lhe por alto... No quero alarm-la... Nem sei se ainda
encontrar o pai com vida!
- Mas, ento  grave o estado do coronel? - indagou novamente a senhora.
- Desesperador - respondeu ele. O Dr. Moreira constatou perfurao do
intestino. Ontem  noite, adveio septicemia e o mdico no tem mais
esperanas. Quando vim, deixei Frei Jos procurando convenc-lo a
receber os sacramentos...
- Triste fim! - exclamou a Senhora Fontes. Preciso ocultar isso de
Rodolfo. Vai ser difcil! Ele sentir a falta de Sinh-Moa e
desconfiar... Parece que nosso filho est apaixonado...
94
- As mulheres - exclamou Dr. Fontes, tocando carinhosamente com as mos
nos olhos da mulher - esto sempre imaginando coisas! E, dirigindo-se
para a cama do filho, que dormia tranqilamente:
- Acho-o bem melhor...
- Com licena! - disse Sinh-Moa, batendo de leve na porta do aposento.
- Como no, minha filha - atendeu a me de Rodolfo, indo ao encontro de
Sinh-Moa, sem saber que dizer.
- J... Estou pronta para seguir, Dr. Fontes. A senhora, fique 
vontade. Disponha de tudo como bem lhe aprouver.
- Obrigada. Deus a acompanhe e d melhoras a seu pai. Recomende-me a D.
Cndida e a Frei Jos.
- Sim... Fico-lhe muito agradecida - redarguiu Sinh-Moa com a voz
entrecortada de soluos.
Durante o trajeto, que lhe pareceu uma eternidade, no pde conversar.
O Dr. Fontes, tambm abalado com tantas emoes, conservou-se calado.
De quando em quando, o barulho da gua da corrente, o galho seco
quebrado pelas patas dos cavalos ou o pipilo de alguma ave desfaziam a
monotonia da viagem.
Sinh-Moa ia entregue a desencontrados pensamentos. Imaginava a vida do
pai, que lhe parecia to frgil... Receava pela sua alma... No o
julgava propriamente um indivduo mau. Herdara a tirania dos senhores de
escravos... Era defeito do regime em que vivia. Mas, incontestavelmente,
tinha sido sempre um homem de bem; deveria, portanto, ter uma
conscincia, e ela era o inferno que o fazia tremer, dificultando talvez
a passagem dele desta existncia para a eternidade...
95
Sim, a conscincia dos homens - pensava Sinh-Moa. - Se eles
refletissem!  ela o verdadeiro inferno!  ela que dita a tranqilidade
ou a intranqilidade dos espritos!
To alheada s coisas exteriores estava Sinh-Moa que venceu sem sentir
os quilmetros que medeavam entre a fazenda e a cidade.
Sentia-se exausta. O cansao moral era maior que o fsico. Dr. Fontes,
diretamente, levou-a ao hospital.
A primeira enfermeira que apareceu, Sinh-Moa foi logo perguntando:
- Como est passando o Coronel Ferreira?
- Mais sossegado, minha filha... Frei Jos administrou-lhe os
sacramentos. Mostra-se calmo - respondeu a freira, percebendo tratar-se
de Sinh-Moa.
- Vamos entrar - convidou Dr. Fontes, dando o brao  jovem.
- Por aqui - ensinou a Irm de Caridade, acompanhando-os.
Como autmato, ela os seguiu. Ao v-la, D. Cndida atirou-se em seus
braos, exclamando:
- Quase no o via mais, minha filha!
96
- No diga isto mame! A senhora esta nervosa. Fique um pouquinho
sentada, deixe-me ir visit-lo e pedir-lhe a bno.
Entrou no quarto.
- Meu pai! disse Sinh-Moa - aproximando-se do enfermo e beijando-o
afetuosamente.
Ao ouvir aquela voz doce, to sua conhecida, o fazendeiro abriu
desmedidamente os olhos j embaciados pela agonia e os fixou na moa,
fazendo esforos para falar-lhe:
- Per.. .doa-.. .me fi...lha... voc  que ti... nh razo... O escravo
como ser humano... tem... sentinen .. .to tem...
- No prossiga, meu pai! Eu lhe suplico! Deus j o perdoou...
- Mas... voc, Sinh-Moa... voc sofreu muito...
- J me esqueci de tudo! - dizia a jovem, afagando o rosto do pai e
fechando-lhe os olhos para adormecer o sono final.
Cessara de sofrer. Sua alma evolara-se.
- Descansou, minha me! - anunciou Sinh-Moa, abraando D. Cndida, que
procurava refgio no corao da filha.
-  verdade, D. Cndida - asseverou Dr. Fontes. A senhora precisa ter
pacincia, ir repousar um pouco em companhia de Sinh-Moa, que se
fatigou demasiadamente com a viagem. Eu e Frei Jos prepararemos tudo.
97
Assentindo, afastou-se a senhora em companhia da filha.
Dr. Fontes tratou dos funerais.
No dia seguinte, saiu o enterro, com escasso acompanhamento.
Na cidade, fervilhavam opinies as mais desencontradas possveis. Uns
pensavam ser castigo merecido o que havia acontecido e serviria de lio
a muita gente de corao duro. Outros penalizavam-se, lamentando o
ocorrido.
Na comarca, o juiz, entalado num dilema, no sabia como encarar a
situao dos cativos.
Apesar de saber das desgraas ocorridas em conseqncia do motim, no se
sentia suficientemente informado pelo processo para proferir julgamento.
Nos corredores do foro travavam-se animados debates, O juiz aproveitava
a oportunidade para lembrar estas palavras de Condorcet:
"Os animais sentem apenas as chicotadas e os maus-tratos, o homem sente
a injustia e o ultraje; os animais s tm necessidades, ao homem bastam
as privaes para torn-lo desgraado o cavalo sofre apenas a dor que
sente, ao homem revolta tambm a injustia de quem o castiga; os animais
s so desgraados no momento presente, a desgraa, porm, do homem, em
um instante qualquer, abraa sua vida inteira; finalmente, o senhor tem
mais indisposio contra seus escravos do que contra seus cavalos
relativamente aos quais tem menos que resolver, no entanto, que com os
escravos, irritam-lhe a firmeza do porte -
98
para ele insolncia - as razes que opem aos seus caprichos e a prpria
coragem com que sofrem seus castigos e torturas. Demais, os escravos
podem ser seus rivais, e naturalmente preferidos." E ajuntava:
- A maioria dos homens limita-se a lamentar os males que v no prximo,
ou aqueles de que ouve falar, e procura atur-los com certa
indulgncia... As pessoas que se lembram dos infelizes escravos para
defend-los do jugo dos tiranos que os oprimem, esses so poucos,
poderia mesmo dizer muito poucos...
A humanidade quer impor o domnio do egosmo. Quer que o seu bem pessoal
subjugue qualquer outro... Dentro de seu corao no h mais lugar para
a generosidade, a justia, o esprito de fraternidade...
Eu, todavia, me levanto contra tanto comodismo! Contra tanta ignomnia!
Asseguro que o homem que se acomoda a situaes criminosas s para no
atrair sobre si antipatias de maiores, ou por qualquer outro motivo
inferior, no deve ter esse nome!
- Mas Vossa Excelncia procura desvirtuar os fatos, permita que lhe diga
- objetou o delegado com nfase e receoso de perder seus apologistas...
O escravo no sofre mais que um cidado livre que, de um dia para outro,
v-se na misria ou com suas esperanas malogradas... Se ele  honesto,
aceita sem revolta as condies impostas pelo seu nascimento... Vossa
Excelncia no h de convencer-me de que o cativo possa, por exemplo,
ter alguma esperana malograda ou misrias para tortur-lo?... No sei
se se recorda
99
da concepo do Coronel Ferreira, vtima desses facnoras, que Deus o
tenha. Na vida do escravo se sucedem quatro etapas: nascer, trabalhar,
viver e morrer... E eu acrescento mais uma: vingar.
-  isso mesmo! - exclamaram vrios admiradores do delegado de polcia.
Estamos de pleno acordo!
Com ares paternais, airigiu-se ao magistrado:
- Desejaria que Vossa Excelncia julgasse o caso com iseno de nimo,
no se influenciando pelas teorias do Dr. Fontes - insistiu ele,
sacudindo a gola do casaco para livrar-se das caspas.
O escravo brasileiro  conseqncia de um crime gerado pela instituio.
Nasce cativo como ns nascemos livres. Sem saber por qu... Os
abolicionistas no passam de uns visionrios. So verdadeiros poetas,
perturbando as idias embrutecidas do negro!
- Considero insolncia falar-me assim! - E, agastado, replicou: A
despeito de suas teorias, continuo a considerar indigno o que desejam
fazer.  um ato anticristo pedir o enforcamento de Justino! Nele falava
o esprito de revolta pelo que os homens brancos fizeram a Fulgncio.
Agira em legtima defesa...
Procure refletir com seus adeptos no que representa para o cativo a
figura hostil e desumana, por exemplo, do capito-do-mato, ou para
melhor me expressar: do caador de escravos! Para esses, meus senhores,
 que deveria existir a forca! Quero contar-Ihes, em poucas palavras, ao
que assisti na minha terra natal, em Pernambuco:
100
Pequenino ainda, ouvia os capites-do-mato gritarem para dentro do
engenho de meu pai:
"Tem escravos fugidos pra procura? Pra surra?"
Eu estremecia de horror!
Essas figuras grotescas, arrogantes para com os humildes e submissas
ante o mais forte, cheias de crimes legalizados nos ombros, enchiam-me
de pavor, de nojo, de asco.
Desejaria que avaliassem com seus companheiros o crime que podem
praticar exigindo o enforcamento dos insurretos ou mesmo de Justino. De
hoje at o dia do jri, desejo que Deus os inspire no julgamento que
sero chamados a proferir...
Captulo 10
DEPOIS do enterro do Coronel Ferreira, a viva e a filha regressaram 
fazenda. As duas iam entregues aos mais diversos pensamentos.
Sinh-Moa, apesar de tudo, no ntimo do corao, alimentava uma
esperana: o amor de Rodolfo. D. Cndida, porm, que j tinha
surpreendido esse delicado sentimento da filha, dali por diante s
contaria com a dedicao do pequeno Lus. Essa senhora era uma alma
sensvel e, embora a indiferena do esposo no lhe tivesse permitido
conhecer as maiores satisfaes da vida, aprendera a quer-lo como seu
protetor, com amizade submissa e tranqila. Sentia agora a sua falta.
Durante o trajeto, D. Cndida perguntou:
- Que faro com o Bastio? Para mim, ele  o menos culpado de todos.
- Eu tambm temo pela sorte dele - respondeu Sinh-Moa, que vivia
aflita com o que pudesse acontecer aos escravos.
- Quanto aos outros, minha filha... foram to ingratos! Ao menos por
voc! - suspirou a me com os olhos marejados de lgrimas.
- Eram muito espezinhados, minha me... Quando me lembro de Fulgncio...
irmo de Justino... a sua figura  sempre assustadora para mim... as
cadeias, posso assegurar-lhe, esto cheias de condenados inocentes. Os
crimes hediondos praticados a todo momento contra essa pobre gente so
incontveis. E, espezinhados, os escravos se tornam ferozes!
102
- Sinh-Moa! - disse D. Cndida, fitando a jovem com estranheza. Voc
quer atenuar a pena daqueles que assassinaram seu pai? No acha que
merecem a forca?
- No alimentemos no esprito a vingana, minha me! Faamos uma vida
mais til, mais digna de ns mesmos... Justino poder ser punido sem que
lhe seja imposta pena de morte... Quanto aos demais...
- Sempre temi esse negro! Desde que Fulgncio enlouqueceu, comecei a
ach-lo esquisito!
- Bem, minha me, estamos chegando! disse a moa, que vinha ela mesma
guiando o trole. Que tal sou eu como cocheiro?
- No pode haver melhor - respondeu sorrindo D. Cndida.
Rodolfo, que fora avisado por Dr. Fontes da chegada de Sinh-Moa,
estava impaciente, no alpendre, apoiado pelo Ricardo e pela me.
Esperava-a.
- Quanto prazer eu sinto em v-la! - disse ele, admirando a sua coragem.
E a senhora, D. Cndida ? - indagou, beijando-lhe a mo.
- Para ns  uma alegria rev-lo to bem disposto, quase a caminhar
sozinho. Dentro em breve, pelo que vemos, Ricardo estar dispensado...
103
Virgnia apareceu  porta, trazendo pela mo o pequeno Lus. Estava
plido e triste como sempre. Sinh-Moa correu para ele.
- Meu irmozinho! Sofremos to grande perda! Abraou-o, a chorar. Lus
continuava abstrato.
Olhava a me e a irm, cheio de dor, mas como ignorante de tudo o que se
passava.
- Abrace sua me! - aconselhou Bodolfo, aborrecido por aquela situao.
- Quar, gente... - interveio Virgnia. - Ele  assim mermo. Nunca
brincou, nunca si riu. Sinhzinho s qu mermo  o Fier...
- Virgnia tem razo - aprovou D. Cndida,
aproximando-se do filho. Nunca o conseguimos alegrar.
- Ele vai gostar  de papai... - interveio Ricardo, chamando-o para si.
Meu pai tem loucura pelas crianas. Conversa com elas horas inteiras.
O rapazinho esboou um sorriso e chegou-se a Ricardo, como para
agradecer-lhe as suas palavras.
A conversa prolongava-se nesse tom. Foi preciso a Senhora Fontes
intervir:
- Tudo est muito bem - disse ela - mas, como dona da casa, ainda hoje,
convido todos a deixarem D. Cndida e Sinh-Moa subirem para seus
aposentos, a fim de descansarem. Viajar por essas estradas no 
brincadeira.
- Mas - pediu Rodolfo - custo tanto a locomover-me ... Sinh-Moa no
poderia ficar mais um pouco, para conversar comigo?
Sinh-Moa corou. D. Cndida disse:
104
- Creio que sua companhia a far esquecer os seus sofrimentos, no ,
minha filha?
- Antonce vou busca um poo di leite quentinho pra vassunc, lembrou
Virgnia, arranjando um pretexto para deix-los ss.
- Felizardo! - exclamou Bicardo, seguindo .D Cndida e a me, que
entraram na varanda.
Recostado na cadeira, Rodolfo olhava docemente Sinh-Moa que, tmida,
no ousada fit-lo, receosa, quem sabe, de mostrar o sentimento novo que
nascia em seu corao.
Uma aleluia de amor cirandava nas suas almas enamoradas.
Para quebrar aquele silncio, disse orapaz, procurando alcanar as mos
de Sinh-Moa, que no teve foras para retir-las:
- Ainda se lembrava de mim?
- Por que me faz essa pergunta? J no lhe dei provas de o querer bem?
- Bealmente, Sinh-Moa, mas no me refiro a um "querer bem" comum...
No parece fugir s minhas perguntas... O momento no comporta qualquer
subterfgio... Sabe bem que a amo, e quando indaguei se se lembrava de
mim foi para ter a certeza de que tambm pensava no nosso amor...
Precisamos conversar... No pensa assim? Desde que a vi, nasceu no meu
corao um grande amor... Senti que havia entre nossas almas uma unio
perfeita, inquebrantvel. .. Penso, Sinh-Moa, que nos procurvamos
atravs das referncias que fazia Frei Jos a nosso respeito. E, tanto 
assim, que na festa de So Paulo, ao encontr-la na igreja, senti-me to
seu... To ligado estava j  sua pessoa, Sinh-Moa, que achei
impossvel nos separarmos mais... Por que no fala? Estas mos
escondidas entre as minhas como duas pombas trmulas no dizem o
suficiente!
105
- No sei, Rodolfo... Na verdade, sempre o admirei. Hoje, quero-lhe no
mago do corao, mas isto ser amor? A doura que a sua lembrana me
traz? Ser mesmo, Rodolfo?
- Sinh-Moa! Ainda duvida? - insistiu ternamente Rodolfo, procurando
afagar a cabeleira solta da mulher que amava, que tinha os olhos
ardentes e que deixava transparecer, em todo ser, um misto de candura e
de volpia.
- Deixe-me, Rodolfo! - pedia a moa, querendo fugir daquela situao.
- No fique zangada, Sinh-Moa! Deixe-me acarici-la; quero que esta
noite seja a testemunha do meu amor... Casar-nos-emos logo...
- Sim, querido...
Virgnia apareceu entre os dois. - A nega demorou,num  verdade? Tava
esperano pra traz um leite mais fresquinho...
- No achei - replicou Rodolfo.
- Ele perdeu a noo do tempo - observou sorrindo Sinh-Moa.
- E o jantar, Virgnia, no ser servido dentro de pouco tempo? -
perguntou Rodolfo, aflito, para que a mucama se fosse novamente.
106
- Vassunc perfere?
- Talvez - arrematou Sinh-Moa, aproveitando-se do pretexto para pedir
 escrava que a ajudasse a levar Rodolfo para o quarto.
- Vai cansar-se, Sinh-Moa!- disse o rapaz, apoiando-se nos braos da
jovem, escondendo o aborrecimento de interromper o colquio.
- Eu s! - exclamou Sinh-Moa, olhando com bondade para Rodolfo. E
Virgnia no serve para nada?
- Ainda sou forte, seo doto, falou a mucama, ajudando o rapaz a subir os
degraus.
Durante o jantar, ningum ousava falar. Todos respeitavam a mgoa de D.
Cndida, que deixava transparecer, na fisionomia abatida, a lembrana, a
saudade do coronel.
Terminada a refeio, ela levantou-se e foi deitar-se, para fazer
companhia a Lus, que ficara tantos dias sem seu carinho.
Ricardo conversou um pouco com a me sobre os acontecimentos do dia e
Rodolfo, tendo ficado s com Sinh-Moa, falou-lhe novamente em
casamento.
Depois, a Senhora Fontes deu sinal de se recolherem. Cada um foi para
seu quarto, mas Rodolfo no conseguiu conciliar o sono. Achava que no
podia esperar que terminasse o luto: eram, ao seu ver, meras
formalidades.
Tinha certeza, todavia, de que o pai ia opor dificuldades. O processo
estava iniciado... Tornar-se-ia um escndalo! E D. Cndida? Por certo,
Dr. Fontes acharia um desrespeito  sua dor... Havia de querer que o
rapaz guardasse as convenincias.
107
Muito cedo, Rodolfo j estava de p, obrigando Ricardo a vesti-lo.
- Nem dormir se pode mais! Alm de ter a sorte de ser amado pela menina
mais bonita de Piratininga, ainda se acha no direito de tirar o sono a
um pobre mortal! - exclamou o irmo, rindo.
- No pude dormir, disse Rodolfo a Ricardo, seu melhor amigo e
confidente. Estou seriamente apaixonado ...
- Pensava ento que eu j no tinha percebido?
- Tanto melhor! Mas, no  isto. Escuta-me. Quero pedir Sinh-Moa em
casamento...
- Mas... quem o impede?
- Talvez no fique bem... Queria que o casamento se realizasse breve...
D. Cndida poder interpretar mal esta minha pressa, como falta da
solidariedade com seu sofrimento...
- No se aflija, rapaz! Mame se incumbir de acertar tudo. Depois, como
diz o ditado: o corao tem razes que a razo desconhece... Nesse caso,
ser melhor consultar papai.
-  o que penso fazer, Ricardo!
A voz de Virgnia veio interromp-los:
- Vassunc so madrugado! Vim traz um cafezinho !
- Sinh-Moa tambm j est acordada? - perguntou Rodolfo.
- Qui pergunta! Espie, seo doto...
108
- Ah! Sinh-Moa! - exclamou o moo enamorado. - Muito bom dia! To cedo
por aqui!
- Era to travesso o sol que no me deixou dormir!
- Ainda bem - retorquiu a me de Rodolfo, que tomava caf com D. Cndida
num canto do alpendre. - Assim, todos ns assistiremos  chegada de meu
marido. Ele no deve tardar. Vem conversar com os filhos, matar
saudades...
- Da minha encantadora me - arrematou Ricardo, beijando-a na nuca.
- To calada - disse D. Cndida, olhando para a filha e julgando-a
doente.
- Estou apenas cansada de descansar... Dormi muito! Procuro, enquanto
conversam, aspirar o cheiro desta bonita manh. No mereo este prazer?
- Que pergunta! - exclamou Rodolfo, acercando-se de Sinh-Moa, trazido
pelo irmo. - A natureza inteira se pe a seus ps... e j bem perto da
moa: - E eu posso merecer um pouco tambm da sua ateno? Poder dizer
que me ama?
- Um dia - respondeu Sinh-Moa, baixinho. Uma azfama por toda casa. D.
Cndida desejava que Dr. Fontes encontrasse tudo em ordem e preparado
para o receber.
Ricardo desceu para receber o pai, Rodolfo ficou novamente a ss com
Sinh-Moa.
- Hoje, querida - disse ele -ter de dizer que me ama. No posso mais
ficar nesta indeciso. E, roando seus lbios ardentes nas mos de
Sinh-Moa, implorava-lhe que falasse. - Repare um pouco - insistia - a
distncia que nos separa. V? No comporta mais uma recusa! Por Deus,
Sinh-Moa, lhe peo. Diga que me ama. No queira prolongar a minha
agonia... Pense, se eu morresse seria mais feliz?
109
- Nunca imagine tolices, ouviu? - respondeu a moa, sentindo um
estremecimento de prazer. - No costumo brincar com o meu corao.
Deixe-me, porm. Tem muito tempo - afirmava Sinh-Moa sem querer,
deixando-se levar pela embriaguez da paixo que tambm a contagiava.
- Amamo-nos, querida! Eu leio na sua fisionomia que no sabe mentir.
Desejava apenas seu assentimento franco, para pedi-la  sua me. Que
importam preconceitos sociais? Casar-nos-emos sob a bno de Frei Jos,
na capelinha da fazenda. Depois, pediremos aos amigos, como presente de
npcias, a revogao do castigo de todos os escravos, inclusive de
Justino.
- Como voc  bom, Rodolfo! Sua generosidade para com os cativos me
sensibiliza - asseverou Sinh-Moa, chegando-se mais para junto de
Rodolfo, acariciando-lhe as mos. Depois, falando para si, abstraindo a
presena do noivo:
"Ser como imaginava Virgnia? Eu vestida de rendas brancas. Com flores
de laranjeira enfeitando-me a cabea... Papai no querendo mal aos
escravos... E eles, felizes, perdoando meu pai, na eternidade... E
abenoando a nossa felicidade..."
110
- Parece to longe! - exclamou Rodolfo, cingindo Sinh-Moa
amorosamente, sem poder mais conter-se.
- As suas palavras - disse ela - vieram rememorar uma profecia de
Virgnia...
- Favorvel a mim? - apressou-se Rodolfo a perguntar.
- Inteiramente.
-  indiscrio pedir-lhe que me conte?
- Devo dizer-lhe que no posso, infelizmente, satisfazer sua
curiosidade.
- Castigando-me, hein? - disse o moo, brincando com os aneizinhos
dourados dos cabelos da amada.
- Sans Cristo! Seo doto Fonte t chegano. O armoo t na mesa. E
vassunc ainda to a...
- Obrigada, Virgnia, vamos num segundo. - E contente, como colegial em
frias, dando o brao a Rodolfo, que se esforava por andar melhor,
dispensando quase o auxlio da namorada, entraram na sala.
- Ora viva! Voc nem parece ter estado doente, meu filho!
- Tambm, com a enfermeira que lhe arranjou! disse Ricardo.
- Realmente - insistiu Dr. Fontes, beijando os dedos de Sinh-Moa.
- No canso de dizer, meu pai! Rodolfo  o mais feliz dos mortais -
acentuou Ricardo.
111
- Com inveja? - objetou rindo a me de Rodolfo, afagando os cabelos
luzidios do filho mais moo.
- E no deixava de ter razo... - respondeu Rodolfo, envolvendo
Sinh-Moa num olhar acariciante.
- Enquanto conversam - disse D. Cndida um tanto vexada pelas
demonstraes de afeto dirigidas a Sinh-Moa - vou ver os meus
assados... Virgnia, com certeza esqueceu-se deles...
- Num  perciso, nhanh. Vassunc num oiou pra cima do etagere? Us
franguinhos to l encima, coradinhos, pronto pra sirvi dipois da
salada...
- Ah! Meus Deus! L esto eles, mesmo! Eu estava to distrada!
Depois, dirigindo-se aos presentes:
- Vamo-nos sentar  mesa?
E deu o exemplo. Rodolfo, durante a refeio, fazia sinais  me para
que abordasse o assunto. Queria aproveitar aquele momento em que todos
estavam reunidos para pedir a mo de Sinh-Moa. A Senhora Fontes,
porm, fazia-se de desentendida. Isso inquietava-o, a tal ponto que ele,
a certa altura, no esperou mais e se dirigiu a D. Cndida:
- A senhora no desconhece a afeio que me liga  sua filha. Pois bem,
aproveito esta ocasio para pedi-la em casamento. Sei que a sua dor 
recente, mas os meus intuitos so to sinceros e elevados que chego a
sobrep-los a tudo. Tenho a certeza de que seremos felizes. Estou
convicto de que a contagiaremos com a nossa ventura, fazendo esquecer,
em parte, o seu sofrimento.
112
Colhido de surpresa, ouvindo as palavras do filho, o Dr. Fontes ficou
perplexo. Notando a admirao do pai, Rodolfo acrescentou:
- Meu pai est vexado por ver-me pedir a mo de Sinh-Moa neste
momento? No vejo razes para isso? Apenas por questo de formalidades?
No  de seu gosto a nossa unio? No tem certeza de que seremos
felizes?
- No julgaria de outro modo, Rodolfo, e estou convencido de que sua me
est de acordo comigo. Apenas censuro o seu modo brusco, a
inconvenincia da hora... Eis tudo o que precisava dizer-lhe.
D. Cndida, de olhos baixos, tentava dobrar o guardanapo, dissimulando o
constrangimento. Seria a premncia de ter de resolver um caso to
delicado, ela que nunca soubera deliberar sozinha sobre qualquer
assunto.
Lus, que observava atentamente a conversa, com surpresa para todos,
saindo-se dos seus cuidados, exclamou:
- Diga logo que sim, mame! Gosto tanto de Rodolfo, do pai e de Ricardo.
Quando estou perto deles me sinto um homem. Eles do ateno  minha
pessoa. Quero-os muito e sei que Rodolfo far Sinh-Moa feliz.
D. Cndida, vencida pela insistncia e a loquacidade do filho, pediu um
prazo para resolver...
Captulo 11
O sol poente, coando a sua luz acobreada atravs das nuvens, avermelha o
casario branco da fazenda e a verdura dos campos e das matas.
Os passarinhos passam em bandos gritadores, rumo dos seus pousos
preferidos. E os bois, mugindo, seguem para os currais.
Nessas tardes de inverno, o crepsculo  breve, a noite chega depressa e
inunda de melancolia os coraes. As Ave-Marias so tristes, ensombram
as almas de saudades.
A voz dos sinos enche de mgoa a velha Virgnia que, sentindo os olhos
midos, recorda a ptria selvagem que ela mal conheceu.
De mos postas, contrita, olhando o cu, canta baixinho, numa lngua que
s os pretos conhecem, a cantiga que evoca a frica de seus pais e que
ela, pobre, jamais ver...
Lembra o deserto queimado pelo sol, as florestas escuras, os rios largos
onde os jacars dormem nos barrancos, os caminhos de areia branca e, nas
compridas noites africanas, o claro das fogueiras e o tam-tam
infindvel dos instrumentos rituais.
E, de pensamento em pensamento, chega ao drama dos seus companheiros de
infortnio. Eles esto nas enxovias da cidade. Expiam um crime que foram
levados a praticar pela fora do desespero. E, na sua tristeza, parece
ouvi-los dizer: -  terra querida! Por que no tens pena de ns, que
somos os mais infelizes de teus filhos! Ns que regamos com nosso suor e
nosso sangue o teu seio, para que ele se abra em todas as riquezas!
Precisamos descansar. D-nos a morte. Queremos esconder-nos no teu solo,
que nos deve um tributo de gratido. Precisamos fugir  sanha do homem
branco. Estamos cansados de sofrer...
114
Mas a mucama apenas sentia, no fundo do corao, essas palavras. Ela no
poderia dize-las, porque era uma pobrezinha de Deus. E, por no pod-las
dizer, limitou-se a chorar. Sinh-Moa, que sentira falta dela, foi
procur-la e encontrou-a assim. Falou-Ihe com voz carinhosa:
- Que  isso, Virgnia? Voc pensa que eu no lhe quero mais, que estou
de mal com voc? No seja bobinha...
- Quar! Vassunc t longe de magin o que sua nega t lembrano... Num 
nada cum vosmiceis...
- Nesse caso, fico mais tranqila. Mas, por que tanta tristeza? Algum a
ofendeu? Agora que o sonho de voc vai ser uma realidade...
E passou a mo carinhosamente pela cabea da escrava.
- Ah! sinhazinha! O sonho t custano pra fica compreto! Vassunc j se
lembrou do sofrimento dos meos parcero na cidade? Ih... Seo doto
delegado  hornme que no tem corao! Ele s sabi perdoa us rico...
115
- Eles sero perdoados... - respondeu Sinh-Moa, com os olhos midos de
emoo. Voc no sabe que o Dr. Fontes est trabalhando junto  bondade
do juiz? Foi Rodolfo quem me contou isso. Contou-me tambm que eles
voltaro forros para as fazendas. A senzala, o eito, dentro de pouco
sero uma infeliz lembrana do passado.
Os olhos tristes de Virgnia recobraram nova luz. Seus lbios tremeram,
tentando balbuciar alguma coisa, suas mos calosas procuraram as de
Sinh-Moa para cobri-las de beijos.
- Sinhazinha - afirmava Virgnia - eu no enganei a Vassunc... Eu
sempre repetia: Sinh-Moa  o anjo bom de nis tudo! S mesmo Vassunc
podia arranja a alforria dos escravos...
- No, Virgnia.  a Justia. Ela est atenta e vela pelos que sofrem.
Mas a mucama sacudiu a cabea, incrdula:
- A Justia! Ch! To veia ansim e ela nunca me pareceu...
Dando pela falta da filha, D. Cndida convidou a me de Rodolfo a descer
ao terreiro. Esperava encontrar Sinh-Moa. Devia estar, como sempre, a
namorar a natureza. Desde pequena, tinha o hbito de admirar, sozinha, a
beleza das manhs e das tardes. Aceitando o convite, a Senhora Fontes
deixou o marido, que se entretinha com o estudo de alguns documentos, e
seguiu, com prazer, a dona da casa.
116
Ao avistar Sinh-Moa a conversar com a escrava, D. Cndida foi-lhe
dizendo:
- Sempre a mesma criana, hein? No deixou ainda de gostar das histrias
da sua me preta...
Sinh-Moa sorriu e respondeu:
- Vim dar uma boa notcia a Virgnia. Mas ela tem sofrido tanto que j
no acredita em boas notcias. ..
- Num  isso, sinhazinha.  que...
A mucama no pde concluir a frase. Sinh-Moa, vendo que Rodolfo se
aproximava, foi ao seu encontro.
- Diga voc,Rodolfo, para que Virgnia acredite!
- Estou s suas ordens - comeou o rapaz, intrigado com a agitao da
noiva, procurando dar novo caminho  conversa. Mas... querida! Por que
fica no terreiro,  boca da noite? No v que est fazendo frio, que j
est serenando? V ao menos botar um agasalho...
- No estou preocupada comigo, Rodolfo. No momento estou preocupada 
com o sofrimento de Virgnia, que lamenta a sorte de seus infelizes
parceiros.
- Pois eu - respondeu o rapaz, chegando-se mais para Sinh-Moa - vim
para junto de voc, aquec-la com o meu corao...
- No brinque - atalhou a jovem, fingindo-se amuada.
- Ora, voc  o sol de minha vida...
- Lisonjeiro. Falemos sobre o que mais interessa. Quero que assegure a
Virgnia que os rebeldes foram absolvidos. Eu estava contando a ela que
seu pai nos trouxe hoje essa notcia, que nos encheu de alegria.
117
- Quar... Isso  bondade de sinhazinha. Ela tem bom corao e pensa que
todo o mundo  assim. Mas os outros... Credo Deus Padre!
- Voc, Virgnia, no acredita nas palavras de Sinh-Moa? - perguntou
Rodolfo, fitando a preta.
-  seo doto... Acho que Sinh Moa o qui qu  me consola...
- Pois no pense mais assim. Justia comea a ser feita. Todos os seres
humanos tm direitos iguais. Livres os negros, nossa terra florescer.
Mas isso  uma coisa que voc custar a entender... No entanto, todo
mundo sabe que a tirania do senhor  ,que leva o escravo ao desespero e
ao crime...
- , seu doto... Quando Sinh-Moa me encontro chorano no terrero, eu
tava pensano isso mermo. Vassunc t falano verdade, mais num  tudo
mundo que refrete ansim...
- A conversa est muito animada por aqui... - comentou o Dr. Fontes,
descendo os quatro degraus de pedra que comunicavam o alpendre com o
terreiro.
Ele acabara de ler os documentos que lhe haviam Sido confiados. Depois,
procurara ouvir at o fim uma histria comprida que Lus lhe contara
sobre as maravilhas de seu cachorro Fiel. Acabara por vir conversar com
as demais pessoas da casa.
- Que  que vocs esto discutindo? Aposto em como Rodolfo veio para
aqui a fim de exercitar os seus dons oratrios...
118
Rodolfo abraou-o, dizendo:
- Embora haja um pouco de exagero nas suas palavras, o senhor meu pai
no deixa de ter razo. Eu e Sinh-Moa estvamos procurando convencer a
Virgnia da possibilidade de serem libertos os escravos e, tambm, de
serem perdoados os insurretos...
- , pelo menos, o que ns desejamos. Confiamos em Deus. Ele, que  a
prpria Justia, na sua expresso mais pura, no poder consentir que os
grandes continuem a esmagar criminosamente os pequenos. Neste momento,
lia uma deciso do juiz, que  um homem ntegro.
Dizendo isso, viu que Lus estava diante dele, de olhos arregalados, a
fit-lo, a admir-lo. Chamou-o ternamente para si. O menino se ps a
rir, para disfarar a comoo.
Sinh-Moa dirigiu-se a D. Cndida:
- A senhora ainda no percebeu que j so sete horas? Lembre-se de que
Rodolfo tem ordem do mdico para deitar-se cedo. E ainda no se fez
nenhuma referncia ao jantar... Virgnia! V pr a mesa, que o jantar,
segundo parece, ser muito bem recebido ...
Rodolfo achou motivo para rir:
- Esto vendo como Sinh-Moa  autoritria? Imagino o que me espera no
futuro...
- Pois deve ir cortando as suas asinhas...  no comeo que a gente deve
procurar entender-se... - observou Ricardo.
119
- Pelo que vejo, no precisarei mais ter cuidados com meu filho... -
acrescentou a Senhora Fontes, no mesmo tom chocarreiro da conversa.
- Isso, porm, s se refere a Rodolfo. Quanto a mim, tenho necessidade
de continuar a ser alvo de suas atenes... No , mame? - gracejou
Ricardo.
- Que diz a senhora, D. Cndida? - perguntou Rodolfo.
- Eu, por mim, acho que todos tm razo...
O Dr. Fontes soprou alguma coisa no ouvido de Lus. O menino repetiu
vexado as palavras do seu esprito santo de orelhas:
- Papai e a senhora quando casaram no eram tambm assim?
Todos riram. Sinh-Moa ficou aborrecida com aquilo.
- No insista, Lus. Voc no sabe o que est dizendo...
Mas pensou l consigo: sim, o Coronel Ferreira e D. Cndida, com
certeza, eram exatamente assim... Depois, voltando-se para o pai de
Rodolfo:
- Dr. Fontes, o senhor acata muito as sugestes de sua senhora?
- Por certo, menina. Se assim no fosse, onde estaria a felicidade? Os
direitos so recprocos...
- Eu sempre imaginei isso... - suspirou D. Cndida.
E, para tir-la das melanclicas lembranas, Rodolfo falou-lhe:
120
- Seria indiscrio perguntar-lhe se eu poderia valer-me desta hora, sob
a bno das estrelas que comeam a aparecer no cu, para pedir-lhe a
resposta que prometeu? A senhora no gostaria de considerar-me de hoje
em diante como seu filho?
- Rodolfo, eu j o tinha no meu corao. Estou certa de que o senhor
far a felicidade de minha filha. Se morresse agora, iria tranqila,
entregando-a ao senhor...
- Tambm eu quero ter essa alegria! - exclamou o velho advogado, seguido
por Lus e Ricardo, que se puseram a abraar malucamente os noivos.
- Querida! J posso dizer "querida" em voz alta! No  verdade,
Sinh-Moa?
Virgnia chegou para avisar que o jantar estava na mesa. Vendo aquela
cena, ps-se a chorar e a rir d contentamento. Dirigiu-se a Sinh-Moa,
quis dizer-Ihe alguma coisa mas no pde, tinha um n na garganta.
Atendendo ao noivo, Sinh-Moa, comovida, estendeu-lhe as mos e pousou
na me os olhos agradecidos.
Dali foram para dentro. A noite estava fresca, as trepadeiras do
alpendre pareciam dissolver-se em discretos odores.
No meio do jantar, ouviu-se l fora um tropel de animais.
- A estas horas? Esto ouvindo? - perguntou D. Cndida, olhando
aflitamente para a porta que dava para o alpendre. Virgnia! V ver quem
est chegando ao terreiro!
121
- Acalmem-se, por favor, eu mesmo vou ver quem  que est a! - disse o
Dr. Fontes, e saiu em companhia de Ricardo.
Dois homens embrulhados nos seus palas estavam ao p da escada de pedra.
Ao v-lo, um deles disse:
-  o Dr. Fontes?
- Para servi-los.
- Necessitamos falar-lhe. Trazemos uma mensagem  do Sr. Juiz.
- Entrem. Estou s suas ordens.
Os trs sentaram-se nos bancos do alpendre.
- Ricardo, v buscar um clice de aguardente para estes homens, que
devem estar cansados.
- A mensagem  esta... - e um dos homens entregou uma carta ao Dr.
Fontes.
O advogado ps o pince-nez e calmamente abriu o envelope.
Nesse nterim, voltou Ricardo, servindo a bebida aos viajantes.
- Boas notcias, papai?
- Mais ou menos. O juiz mostra-se disposto a absolver a todos os
insurretos, menos Justino, que...
O Dr. Fontes interrompeu o que ia dizer, olhou para os dois homens,
agradeceu-lhes o servio que eles haviam prestado e, s depois de
estudar se devia ou no dizer tudo, acrescentou... "que ser condenado a
dez anos de priso"...
Os dois homens montaram nos seus cavalos, disseram adeus e partiram.
122
- Enfim,  melhor do que a forca... - comentou Ricardo.
O Dr. Fontes pensou em voz alta:
- A benignidade desta sentena explica-se, naturalmente, pela escassez
de provas apresentadas pelos acusadores no que toca  autoria do
crime... Quanto a Justino, contra quem havia indcios mais fortes, pois
ele mesmo, no seu arrependimento, chegara a confessar a vrias pessoas
que o procuraram na cadeia... valeu-lhe uma punio de dez anos.
- Embora isso j seja a absolvio dos escravos, ns devemos trabalhar
para que o perdo seja absoluto. E se recorrssemos ao Presidente da
Provncia? - perguntou Ricardo.
- J pensei nisso.
- Imagino o contentamento de Sinh-Moa quando lhe dermos a notcia!
Agora, precisamos agir quanto antes para a comutao da pena de Justino!
- Voc tem razo. Voltarei amanh  cidade. Voc e Rodolfo iro comigo.
Trabalharemos juntos para alcanar o que desejamos.
Estranhando a demora do pai e do irmo, Rodolfo veio procur-los no
alpendre. Mas, ao v-los em to boa disposio, limitou-se a gracejar:
- Que esto a tramando contra mim?... D. Cndida, mame e Sinh-Moa
sentem-se preocupadas. Que h de novo?
Sem falar, o Dr. Fontes entregou ao filho a mensagem que havia recebido.
123
Rodolfo leu-a.  medida que lia, seu rosto se iluminava,
- Belo presente de npcias! - exclamou. Pena  que no seja completo!
-  isso que estvamos comentando... - disse Ricardo.
- Mas ser completo, com a graa de Deus - afirmou o Dr. Fontes. A
propsito: voc quer ir conosco para a cidade?
- Quando?
- Amanh, muito cedo.
- Est claro que vou. No obstante a pena de ter de afastar-me de
Sinh-Moa, irei. Eu poderia atenuar a culpa de Justino...
- Se fosse possvel conciliar as coisas... - suspirou Ricardo, com pena
do irmo.
- Obrigado pela sua solidariedade - respondeu Rodolfo - mas a minha
ausncia no ser por muito tempo. E to depressa ganhemos a causa, eu e
Sinh-Moa nos casaremos.
Captulo 12
QUANDO Rodolfo voltou  sala de jantar, tudo estava em silncio.
Virgnia andava de um lado para outro, tirando os pratos, os talheres e
a toalha. D. Cndida foi para dentro, ver se Lus j se havia acomodado
e se no lhe faltava alguma coisa. A Senhora Fontes recolheu-se ao seu
quarto. Sinh-Moa ficou terminando um gobelim  luz do lampio belga
que pendia do teto. Seus dedos geis moviam-se automaticamente... Seu
pensamento andava muito longe quando Rodolfo sorrateiramente entrou
tapando-lhe os olhos e indagando :
- To sozinha? Trabalhando com to pouca luz, a mortificar os lindos
olhos? No permito! Eles no foram feitos para isso, meu amor!
Sinh-Moa fingiu no o ter visto junto de si. Continuou silenciosa,
absorvida no trabalho. O rapaz insistiu:
- Est zangada? Bem sei que cometi uma descortesia afastando-me de si
tanto tempo... Mas um motivo justo, justssimo, me reteve junto de meu
pai e meu irmo. Se quiser saber do que se trata, estou certo de que me
perdoar.
Curiosa, Sinh-Moa levantou para ele os olhos, numa indagao.
125
- Sim - continuou o noivo - veja se adivinha!
- Mas por que motivo esse mistrio? Fale logo! sabe... Talvez eu no
merea conhec-los...
- No  isso! - respondeu o moo enamorado. Minha querida, antes de tudo
voc precisa saber que eu lhe quero com verdadeira paixo. No h mais
segredos entre ns... No duvide de mim, meu amor!
- Mas Rodolfo...
- Voc  uma menina tolinha. Eu estava pondo  prova a sua curiosidade.
Infelizmente, porm, voc ficou triste e eu agora estou com remorsos.
- Fiquei preocupada por voc - respondeu Sinh-Moa. Imaginei que alguma
coisa o pudesse molestar. Meu desejo seria partilhar sempre as suas
alegrias e as suas mgoas.
- Conversemos, ento. Primeiro quero que leia esta carta.
Com uma pontinha de susto, Sinh-Moa tomou o papel que Rodolfo estendia
e,  medida que tomava conhecimento do teor, seus olhos se enchiam de
lgrimas.
- , como sou feliz no meio da minha tristeza! Meu pai, que nos ltimos
momentos de vida se arrependera de todo o mal que fizera aos escravos,
sentir-se-ia feliz ao saber da absolvio deles. Mesmo quanto a Justino,
ele compreendeu que foi seu amor por Fugncio que o levou a pegar em
armas contra ns..
126
- Vamos recorrer ao Tribunal para conseguir o livramento desse escravo -
respondeu Rodolfo, enxugando os olhos molhados da noiva. E, mudando de
tom: - Agora, j podemos marcar nossos...
- Que  isso, Rodolfo? Mal ficamos noivos!
- Voc no me deixou concluir a frase - queixou-se o rapaz, mostrando-se
sentido, mas aproveitando a oportunidade para beijar Sinh-Moa, que
enrubescera com o gesto de Rodolfo.
- Quis poup-lo. J adivinhava o seu pensamento ... - e tratou de fugir,
graciosamente, desvencilhando-se dos braos do noivo.
- Afinal, no pude falar-lhe como desejava... - insistiu Rodolfo, vendo
que Sinh-Moa correra para o quarto.
Sentindo-se s, ele tambm resolveu ir deitar-se. No conseguiu, no
entanto, conciliar o sono. Seu corao enamorado estava inquieto. E as
preocupaes se sucediam no seu esprito. Como deixar naquela casa
velha, naquela fazenda, Sinh-Moa, sua me e Lus? E virava-se a todo
instante na cama, acordando Ricardo, que vociferava:
- Francamente, Rodolfo! As pulgas do mundo inteiro devem estar nesses
lenis para pic-lo! Voc no sossega um minuto!
- Preocupa-me a necessidade de partir para a cidade, deixando Sinh-Moa
neste ermo! D. Cndida h de querer um noivado muito comprido para
prepar-la... E eu l longe...
127
- Ora, meu irmo, amanh voc ter tempo para resolver todos os
problemas. Durma, pois temos de levantar muito cedo, para viajar... -
resmungou Ricardo, virando para o outro lado.
No dia seguinte, ao clarear da manh, Rodolfo levantou-se e foi acordar
a me, para que ela conven-
1
cesse D. Cndida de que deviam casar logo, sem grandes preparativos.
- No terei sossego sabendo-a aqui, nesta solido. .. Sujeita a tantas
coisas... Sei l...
- Estou de pleno acordo com voc, meu filho. Serei sua advogada junto 
me de Sinh-Moa.
- Feliz de quem tem uma mezinha como eu! - exclamou o rapaz,
beijando-a.
D. Cndida entrou, trazendo uma xcara de caf para a Senhora Fontes.
- Ah! Como os aprecio nesse doce colquio!...
- Fao isso para que ela sempre se lembre de mim!
- Como?! - perguntou D. Cndida. A Senhora Fontes explicou melhor:
- Eles resolveram ontem  noite e daqui a pouco partem para a cidade.
No h remdio. O processo dos escravos est caminhando
satisfatoriamente, mas meu marido acha indispensvel a presena de
Rodolfo.
D. Cndida ficou pensativa. Aproveitando-se disso, a Senhora Fontes
perguntou-lhe:
- Por que no apressarmos o casamento de nossos filhos? Voc no acha? -
voltou-se sorrindo para Lus, que muito curioso escutava a conversa.
128
Lus levou a srio a pergunta que lhe faziam e respondeu: -  sim...
Rodolfo e Sinh-Moa so da mesma opinio...
- Indiscreto! - censurou-o Sinh-Moa, que estava parada na porta da
sala.
- Eu no o julgo indiscreto - disse Rodolfo. Ele, por acaso, no tem o
direito de dizer a verdade? Hoje mesmo, quando chegar  cidade, tratarei
de nossos papis, conversarei com Frei Jos.
- A senhora lhe d essa autorizao? - perguntou a Senhora Fontes a D.
Cndida.
- Se  da vontade deles... Que fazer?... Sei que ser comentado... Faz
to pouco tempo que faleceu o Ferreira... No devo, porm, contrariar
Sinh-Moa. O que ela quiser ser feito.
L fora, no terreiro, Virgnia ajudava o Dr. Fontes, que madrugara, nos
preparativos da viagem. Lus, grudado  sua sobrecasaca, pedia-lhe que
no se fosse embora. E ele, sor rindo, tranqilizava-o:
- Vou, mas logo voltarei. Deixo voc, como um homem, tomando conta das
mulheres da casa. Depois, ir passar uns tempos conosco, l na cidade.
No fique triste.
Sinh-Moa interveio:
-Esse menino  igual a carrapicho. Encontrando quem o afague, gruda.
Papai o queria muito bem, mas no lhe dava ateno... Seu nico amigo
era o Fiel...
- Pois agora eu e Lus somos muito amigos. Jamais nos separaremos.
129
A Senhora Fontes, contristada, abenoava o marido e os filhos,
fazendo-lhes muitas recomendaes. Sinh-Moa, de mos dadas com
Rodolfo, eternizava as suas despedidas, com promessas e juras.
- Vamos! Vamos! - ordenou o Dr. Fontes. Adeus, minha velha! Mande que
esses pombinhos se separem.  preciso aproveitar a frescura da manh,
antes que a soalheira queime nas estradas.
Virgnia abriu a porteira: o trole partiu.
- At a vista, Sinh Moa! - gritou pela ltima vez Rodolfo.
- Boa viagem pra vassunceis! - disse Virgnia amparando a cabea de sua
sinhazinha, que estava para desfalecer. E perguntava-lhe: Pra que se
foram eles tudo!
-  preciso, respondeu a moa. Eles vo fazer o possvel para que seja
comutada a pena de Justino.
- Pru que num falou, sinhazinha?
-  que eu desejava fazer-lhe uma surpresa no dia do casamento... No
seria mais interessante ?... Pense no seu sonho, Virgnia... Ainda se
lembra? Naquele dia em que Frei Jos mandou-me uma carta por voc... e
voc fez uma certa profecia...
- Ora se me alembro! Agora j to quasi feliz, v vir passarinho que
foge de gaiola... Nosso Sinh benoe quem tem misericrdia dos negros...
E to alegre ficou que foi perguntar a D. Cndida se aquilo era mesmo
verdade. A sinh velha respondeu :
130
- U! Ento no havia de ser verdade? Com essas coisas no se brinca.
Essa  a preocupao de todos ns. Frei Jos vir visitar-nos e,
certamente, nos contar alguma novidade.
Sinh-Moa, encostada na porteira, olhava os viajantes que se perdiam
numa nuvem de p vermelho.
- L vo eles! L vo eles!
E ali ficou por algum tempo, cheia de saudades.
- Minha filha, voc ainda em jejum! Venha para dentro!
Atendendo ao convite de D. Cndida, Sinh-Moa subiu a escada de pedra
do alpendre e dirigiu-se  mesa da varanda. Enquanto esperava que
Virgnia a servisse, entreteve-se a fazer castelos. Era preciso dar
incio ao enxoval. No seria melhor escrever para a Bahia? O Coronel
Ferreira tinha amigos l e eles poderiam auxili-la na compra de rendas
e bordados. Nas suas lojas deviam encontrar-se muitas novidades, no s
da Provncia como tambm da Frana...
A me, ouvida a respeito, aconselhou-a:
- Conversaremos com Frei Jos. Se ele achar conveniente, nos ajudar
nesse trabalho. O religioso deve ter muitos amigos na Bahia.
Na estrada poeirenta, j ento batida a chapa pelo sol, o trole seguia
aos pinotes. Antes de chegarem s primeiras casas, os viajantes
comearam a ouvir o espocar de rojes. Era a populao que se preparava
para receber festivamente ao Dr. Fontes e seus filhos.
Nas ruas, os amigos fizeram parar o trole, diversas vezes, para
saud-los. Os trs se sentiram comovidos.  E se apressaram em chegar 
sua residncia, para preparar-se. Estavam cobertos de p. Depois do
banho e de envergarem traje conveniente, seguiram para o edifcio do
frum, a fim de cumprimentarem o juiz e louvar-lhe a deciso em favor
dos cativos.
131
Na sala das audincias, encontraram Frei Jos que, sabendo de sua
visita, os fora esperar.
- Meus parabns, Rodolfo! Como estou satisfeito em v-lo restabelecido e
pronto para trabalhar! Onde esto sua me e Sinh-Moa?
- Quanto  nossa me - atalhou Ricardo -  ltima hora resolveu ficar.
No quis deixar D. Cndida sozinha, com suas preocupaes. A outra
pergunta ser respondida pelo mano, aqui presente. E no consinta no seu
silncio, Frei Jos.
O Dr. Fontes acrescentou:
- Breve Frei Jos ter de abenoar a um par de noivos!
Ouvindo aquilo, o frade caminhou para Rodolfo:
- D-me um abrao, assim... Estou radiante. Sempre desejei v-lo ao lado
de Sinh-Moa, para a vida e para a morte. Vocs, pelas suas qualidades,
parecem feitos um para o outro.
- Obrigado, Frei Jos!
- E que nos diz sobre a absolvio dos escravos? - perguntou o Dr.
Fontes ao religioso.
- Foi, incontestavelmente, um gesto admirvel dos jurados, uma deciso
ntegra do senhor juiz.
- Mas - insistiu o Dr. Fontes - qual  a sua opinio a respeito de
Justino?
132
- Confesso-lhe no ser muito favorvel. Esperemos, todavia, pela
misericrdia de Deus.
Voltou-se para Rodolfo e ficou a admir-lo:
- Est muito bem disposto. A convalescena prolongada no o deixou
abatido! No entanto, era voz corrente que no se salvaria... Pensei
muitas vezes em ir visit-lo, mas os trabalhos eram tantos! Precisava
incutir no esprito de minhas ovelhas o horror pelas contnuas
crueldades praticadas contra os pobres cativos. Depois, as notcias a
seu respeito tornaram-se freqentes, melhoraram de dia para dia, at que
ultimamente...
-  verdade, Frei Jos. No fora a dedicao de uma encantadora
enfermeira...  a ela que devo estar hoje aqui, sentindo este grande
prazer de conversar com o senhor...
- No fale por metforas, meu caro rapaz. Conte- -me com detalhes o que
h... - disse o frade, a rir do acanhamento de Rodolfo.
- Mas Ricardo j lhe disse e eu acabei de deixar transparecer -
respondeu o moo visivelmente atrapalhado. O senhor no quer mesmo
adivinhar, Frei Jos!
- Com licena... disse o Dr. Fontes, afastando-se da roda e seguindo o
cavalheiro que lhe viera convidar para entrar no salo a pedido do juiz.
Apenas foi-se o Dr. Fontes, o religioso ps as mos sobre os ombros de
Rodolfo e encarou-o de frente:
- Diga-me com franqueza: ama sinceramente Sinh-Moa ?
- Quem poder duvidar? - interveio Ricardo, autorizado pela simplicidade
habitual de Frei Jos. Eles esto noivos e desejam casar-se o mais breve
possvel, sem formalidades...
- Muito bem.
- E, para isso, conto com o senhor, Frei Jos. Vou tratar imediatamente
de nossos papis.
O religioso sorria ouvindo aquelas palavras.
- Agora, sim - disse ele. J ps de lado a cerimnia que procurava
manter diante de um velho amigo! Estou s suas ordens! E acrescentou:
Todo mal traz consigo algum bem. Agora, diga-me: Como D. Cndida recebeu
a grande nova!  verdade que, para ela, tudo est sempre bem. E de fato
estar muito bem casando Sinh-Moa com Rodolfo. Isso, com segurana, a
deixar tranqila e feliz.
- O senhor fala como amigo, Frei Jos. No entanto, sinto-me contente com
a confiana que deposita em mim.
- O mano ficou muito envaidecido com suas palavras, Frei Jos.
- Eu no o quis lisonjear. Procuro s dizer a verdade.
- Agradeo-lhe o conceito em que me tem. E agora lhe peo desculpas por
ter de partir. Sei que espera meu pai e assim o deixo  vontade.
- Ainda nos veremos. S depois de amanh irei  fazenda, visitar D.
Cndida. Se quiser alguma coisa para sua me e para Sinh-Moa...
- Obrigado, Frei Jos. Procur-lo-ei.
134
- E eu aguardarei a visita de ambos.
O jovem advogado e o irmo saram do edifcio do frum, desembocando na
cidade pacata que quela hora se mostrava cheia de jbilo. Pelas
estreitas ruas notaram movimento desusado, pareceu-lhes que estavam em
dia de festa. Notaram tambm na fisionomia dos transeuntes as mais
desencontradas expresses. Umas lhes pareciam contentes, falando com
entusiasmo da absolvio dos escravos. Outras, no entanto, manifestavam
certa reserva. Eram as pessoas intransigentes, achavam que a benignidade
do jri traria, fatalmente, novas e graves conseqncias.
Numa esquina, entre fazendeiros hostis, lobrigaram a figura do delegado.
O homenzinho, em voz alta, declarou que no tinha nenhuma
responsabilidade por aquele desmando da justia. Por ele, os criminosos
teriam ficado nas enxovias, ou seriam chicoteados no "tronco". E
acrescentava:
- Esse juiz o que quer  granjear simpatias de certos abolicionistas.
Vem com histrias de humanidade e consegue que os jurados irrefletidos,
de boa f, absolvam essa escria que anda por a.
Rodolfo, ao passar por ele, disse-lhe com ar zombeteiro :
- O senhor delegado est hoje muito eloqente, hein?
O palrador engoliu em seco. Depois falou:
-  verdade, Dr. Rodolfo. Estou satisfeito por v-lo ressuscitado.
135
- Agradeo o seu interesse pela minha pessoa. Se no fosse o receio de
incorrer em pecado de bisbilhotice, eu lhe perguntaria: que h a
respeito da absolvio daqueles a quem o senhor chama de "celerados"?
- Nem a propsito... Era esse precisamente o motivo da nossa animada
conversa. Mas, confesso-lhe, no acredito que o senhor esteja alheio a
uma causa que to diretamente lhe interessa. No foi por acaso o senhor
uma das vtimas desses criminosos que, ao contrrio do que manda o bom
senso, sero postos em liberdade?
- Se insiste - respondeu Rodolfo - devo dizer-Ihe que no se trata, na
minha opinio, de "criminosos" aqueles que lutam em defesa prpria. Em
segundo lugar, uma lei injusta  um delito praticado por quem a
decretou. E aqueles que apoiam - nos olhos do advogado havia um desafio,
talvez uma ameaa - no passam de seus cmplices.
Ricardo botou a colher torta na discusso:
- No  crime menor aceitar-se uma sentena injusta quando se sabe que
h recursos legais para reform-la. Portanto...
- Eefere-se, Sr. Ricardo, ao nosso modo de opinar? - perguntou, vermelho
de raiva, o delegado. Vejo que no nos entendemos.
E, convidando os amigos para que o acompanhassem, afastou-se gaguejando
uma escusa.
- Percebo que o senhor delegado est com pressa. No quero ret-lo aqui
por mais tempo. Asseguro-lhe, no entanto, que um dia ainda poder
arrepender-se do seu modo desumano de desempenhar o seu cargo.
136
- Oxal que a sua profecia no se realize consigo mesmo! - respondeu-lhe
o delegado, que no considerava o cativo como gente, como ser racional,
mas como uma "cousa". E, falando, procurava ler na fisionomia dos que o
rodeavam o efeito das suas irnicas palavras.
Rodolfo esmagou-o com um olhar de superioridade e continuou no seu
caminho.
-  um homenzinho trfego! - comentou Ricardo.
- Ainda sofrer as conseqncias dos seus atos - acrescentou o irmo.
E ambos tomaram a direo do edifcio da cadeia.
Quando chegaram, sentiram-se mal. O que l se passava era de cortar o
corao. Sabedores da absolvio, os cativos choravam e riam ao mesmo
tempo. Uns, quase nus, cobertos de feridas que sangravam ou que vertiam
pus, eram atacados por nuvens de insetos que ainda mais os mortificavam.
Outros amontoavam-se pelos cantos, sozinhos ou em grupos, sem ganas de
mover-se, tal o estado de fraqueza em que se encontravam.
Bastio estava ajoelhado, as mos postas, um desvairamento de loucura
nos olhos esgazeados. Repetia palavras que aprendera dos parceiros
africanos. Ningum entendia o que ele estava dizendo, mas a sua prece
devia ser assim:
-  sol! Com o teu calor benfico vem secar meu pranto! Deus Nosso
Senhor, no permitas que
137
esta agonia se prolongue at amanh! Alumia o corao do delegado, para
que ele tenha pena de ns! Peo-te a graa de poder arrastar-me at a
fazenda de Sinh-Moa, para entrar naqueles cafezais que plantei e
misturar o sangue destas chagas s frutas que devem estar amadurecendo!
E quando ela os fosse visitar, dizer-lhe que sou inocente! Peo-te a
graa da liberdade para contar  sinhazinha tudo o que se passou, para
que ela no faa nunca mau juzo de mim! Ento, eu poderia morrer!
E Bastio, enlouquecido, falava, falava palavras incompreensveis...
Em outra enxovia, Justino delirava. Ele mais parecia uma pobre criana
abandonada. No seu desespero, parecia dizer:
- Nunca mais serei livre. Adeus mato bravo, adeus cheiro do sol batendo
no campo. Juro que no sou criminoso. Cumpri meu dever de irmo. Era
Fulgncio quem me dava ordem, pedindo justia!
Dizendo talvez essas coisas, ele tinha mpetos de levantar-se e correr,
mas caa de novo, com os pulsos dilacerados pelas algemas que afundavam
ainda mais sempre que levantava os braos. Os ferros entravam-Ihe na
carne escura, roda pelos vermes.
Rodolfo e Ricardo, diante dessas cenas, ficaram fora de si. Nem
perceberam a chegada dos guardas, dos carcereiros, acompanhados de
autoridades e de fazendeiros que, num grupo silencioso, assistiram 
soltura dos cativos.
138
Justino, vendo aquele movimento, fez meno de forar o pesado porto do
seu cubculo, no que foi impedido a coronhadas pelo guarda mais prximo.
Diante dessa cena brutal, -os dois rapazes no puderam conter-se:
- Estpido! Voc no v que eles so de carne e osso como ns?... Voc e
os seus chefes  que deviam estar no lugar deles!
O prprio Bastio, que tinha sido mandado em paz e se despedia dos seus
parceiros, disse baixinho:
-  uma impiedade que fazem contra o pobre!
- At nunca mais! - respondeu Justino caindo quase desfalecido, como uma
rvore cujo tronco foi atorado pelos machados. E, rolando no cho,
ps-se a falar lngua africana, talvez para dizer:
- Olha por mim, senhor Deus de todos os homens! Sou um teu filho que
paga o crime de ter nascido negro! Abranda, meu Senhor, o corao dos
homens brancos!
Depois, ficou imvel, silencioso. Talvez estivesse dormindo, talvez
estivesse sonhando. E nesse sonho estaria vendo um anjo resplandecente
descer do cu para dizer-lhe:
- Eu sou a Liberdade. Vim enxugar tuas lgrimas, ungir tuas feridas.
Quero restituir-te  vida. Vem comigo, Justino. Dentro de pouco no
haver mais desigualdade entre as raas; vir a grande redeno...
Captulo 13
NO posso! No estou disposto a continuar nesta Comarca, nesta terra que
se diz civilizada... - exasperava-se o juiz, em seu gabinete, ouvindo o
Dr. Fontes, Rodolfo e outros abolicionistas.
- O recurso  apelarmos para o Presidente da Provncia. Acho
indispensvel expormos a Sua Exa. o que aqui est se passando. Este
delegado tem a alma vil de um capito-do-mato!
- Se no for ainda pior! - comentou Ricardo.
- Um homem que fez estudos, que se formou e alimenta sentimentos to
baixos!
- Francamente, s mesmo enforcando-se... - pilheriou Rodolfo,
lembrando-se das coisas inominveis que vira na cadeia.
Dr. Fontes foi mais claro, mais direto:
- Vossa Excelncia precisa ver como ele trata os escravos nas enxovias.
Esto apodrecendo em vida, os infelizes!
Um dos visitantes ajuntou:
- Eealmente.  de arrepiar os cabelos! E o juiz:
- Graas a Deus, pelo que se v por a, os maus esto cedendo lugar aos
bons. Basta lembrar a quantidade de escravos que se tornaram forros, nos
ltimos tempos. Agora, se me do licena...
140
A visita estava terminada. Os homens se levantaram, inclinaram-se diante
do magistrado. Dr. Fontes falou:
- Compreendemos, sua vida  de grande responsabilidade; vamos deix-lo,
embora com pena...
No corredor, Ricardo disse ao pai:
- Considero a causa quase ganha... - esfregou as mos, de contente.
Saram. Rodolfo ainda tinha de comprar algumas coisas para mandar a
Sinh-Moa, por intermdio de Frei Jos, que devia seguir para a
fazenda. Os homens se despediram  porta e o Dr. Fontes acompanhou os
filhos.
Na fazenda de Araruna, os preparativos para o casamento iam adiantados.
Os cativos que tinham sado da priso e voltado  casa-grande
trabalhavam felizes por amor de sua sinhazinha. Naquela tarde, chegando
 fazenda, Frei Jos observou a mudana e isso ainda lhe deu maiores
foras para trabalhar em prol da abolio. Ao v-lo, Sinh-Moa correu,
radiante, ao seu encontro, perguntando-lhe logo pelos papis,
pedindo-lhe que escrevesse aos seus amigos da Bahia.
- No se preocupe, Sinh-Moa - respondeu o frade. Tudo chegar a tempo.
E riu das suas inquietaes.
O religioso e a moa ainda estavam nessa conversa quando a me de
Rodolfo e D. Cndida desceram a escada do alpendre, contentes com a
visita.
- Meu caro amigo! Que est confabulando com ela?
- Segredos...
- Hum... At a gente fica curiosa...
- Assuntos muito importantes...
- O que Frei Jos est querendo  deix-la com a pulga atrs da
orelha... - riu Sinh-Moa. Depois, lembrando-se de alguma coisa: - Frei
Jos, quando volta  cidade?
- Amanh. Preciso amansar o esprito de alguns escravocratas... Quero
contribuir para que a profecia de Virgnia se torne uma realidade...
- Quer me levar com o senhor? - perguntou a Senhora Fontes. Estou
preocupada com os filhos e com... o marido.
- Se  assim, ns a deixaremos regressar a sua casa - disse D. Cndida,
com o assentimento da filha.
- Pois eu estou s suas ordens - curvou-se Frei Jos. Partiremos amanh,
muito cedo.
- O senhor  quem resolve...
As compras, chegadas da cidade, estavam sobre a mesa. Virgnia, sem
descansar, passava s lindas peas de cambraia, abrindo rendas,
estufando bordados. Bastio, ainda fraco, fazia grande esforo para
ajudar D. Cndida a remover as cortinas das muitas janelas da
casa-grande.
Afinal, nesse mesmo dia, chegou o vestido para os esponsais. Era de gaze
toda trabalhada, com uma roda de muitos, muitos metros, tudo forrado de
tafet. O vu, de rendas de Bruxelas, era um presente da me de Rodolfo.
Fora seu. Parecia um sonho de rendas. Uma trama de filigranas, prpria
para princesas encantadas ...
142
Ao ver a "toilette" nupcial, o prprio Frei Jos se deslumbrou. Como
Sinh-Moa ficaria linda no grande dia! E estava assim quando a sua
fisionomia se anuviou... Era a lembrana de Justino... Essa lembrana
no o deixava nunca...
Foi Sinh-Moa quem falou primeiro:
- Se for preciso, disporei das minhas jias para a libertao de
Justino. No poderei sentir-me inteiramente feliz sabendo-o numa
enxovia, condenado a tantos anos de priso!
- Vassunc t pensando na sorte do nego, sinhazinha?
- A liberdade de Justino  para mim, Virgnia, uma verdadeira obsesso.
No terei foras para sentir-me feliz sabendo-o desgraado. Que fazer?
Nasci assim, com este sentimento...
- E  por isso que no ter paz enquanto no conseguir o seu nobre
objetivo - sentenciou Frei Jos.
A tarde e a noite se passaram sem outras novidades. Um misto de
contentamento e de mgoa reinava naquela tranqila fazenda.
De um lado, a perspectiva da festa do casamento de Sinh-Moa; de outro,
o receio de que o pobre preto no fosse indultado.
Ao chegar de manh, Frei Jos e a Senhora Fontes partiram, como estava
combinado. Ambos prometeram  enviar notcias dirias sobre o caso. Frei
Jos foi mais claro:
143
- Assim que chegar comearei as minhas pregaes para ver se consigo
tornar os coraes mais altos, mais sensveis ao perdo. Isso dar
foras ao Presidente da Provncia para que aceda.
- Deus o inspire - disse D. Cndida.
- A ns todos.
Durante o trajeto Frei Jos, como se estivesse viajando s, ps-se a
pensar no que deveria dizer. Meditou o tempo inteiro, quase no falou. A
Senhora Fontes compreendeu a sua preocupao, deixou-o  vontade.
Assim chegaram  cidade. A me de Rodolfo ficou em sua casa e Frei Jos
seguiu para a capela, que por aquela altura j estava cheia de fiis.
Mal teve tempo de mudar a roupa, de paramentar-se.
Depois de oficiar, ele subiu ao plpito e falou:
- Meus irmos! A bondade ampara a todos os homens. Em uns atuando
objetivamente, em outros atuando subjetivamente. Ela tem crescido muito
no corao humano. No entanto, hoje  mais complexa do que ontem, chega
mesmo a dar a muitos a impresso de que no existe. Mas eu peo a todos
que a sigam. Amando-a, procurando compreend-la, seremos bons. E ser bom
 sentir a necessidade de praticar o bem. Por mais que certas pessoas,
despidas de sentimentos de humanidade, procurem diminu-la, ela, a
excelsa bondade, ter que se desenvolver sem peias, sem tropeos, como
base do progresso moral e da salvao dos homens!
144
Ao dizer essas palavras, Frei Jos, calculadamente, fixou seus olhos na
figura esgrouviada do delegado que, com um sorriso de piedade, escutava
o seu sermo ...
Continuou:
- Semeai,pois, a bondade entre os infelizes! O momento  prprio para
isso. Pensai nas coisas que nos cercam. No permiti que atrs das grades
de um calabouo um ser semelhante a ns venha a apodrecer e a morrer
como animal ferido e abandonado s porque, sendo ignorante e tratado
como coisa, agiu ao impulso de suas paixes, num gesto sincero, ditado
pelo corao, procurando esmagar os que cerceavam a sua liberdade moral
e fsica. Nesse desatino, ele eliminou o homem que, tempos antes, havia
causado a morte de seu irmo.
As palavras ardentes do religioso abolicionista calavam fundo no
esprito dos fiis que o ouviam. Tendo compreendido a aluso clara de
Frei Jos  sua pessoa, o delegado aproximou-se da porta da igreja e,
sem que ningum percebesse, muscou-se...
Quando a missa terminou, os amigos procuraram-no para pedir-lhe a sua
opinio, mas o homenzinho j estava bem longe dali.
E mais aborrecido, com certeza, ele ficou no dia seguinte, ao saber que
o juiz incumbira Ricardo de ir a So Paulo, levando os autos do processo
e o pedido de clemncia ao Presidente da Provncia, assinado pelas
pessoas mais representativas da cidade. Diante disso, sentiu-se
diminudo e no quis mais externar a sua opinio sobre os
acontecimentos.
145
Na cidade reinava uma ansiosa expectativa pela resoluo que tomaria o
Presidente da Provncia. Na fazenda de Araruna, onde se faziam
preparativos para o casamento de Rodolfo e Sinh-Moa, todos se sentiam
alegres; ningum j duvidava de que a sentena seria favorvel a
Justino.
Afinal, foi marcado o dia para os esponsais.
Na estrada da fazenda, comearam a aparecer as primeiras aranhas
conduzindo famlias da sociedade paulista que iam assistir  grande
festa.
A capela da fazenda era vasta e at certo ponto rica, com um altar todo
enfeitado de obras de talha. Ao centro, erguia se um belo crucifixo,
todo emoldurado de rosas. A seus divinos ps, ardiam sempre as luzes
votivas de muitas velas. Nos nichos laterais da capela havia santos
entalhados em madeira, obra de reputados imaginrios da Corte.
Mas Frei Jos, na igreja da cidade, andando de um lado para outro da
vasta sacristia, entre bancos destinados s crianas do catecismo, arcas
com pregarias de ouro onde se guardavam os paramentos e altos andores
que ali s saam nas procisses, mostrava-se preocupado. Caminhava de um
lado para outro, s mos nas costas, os olhos fitos nas pontas das
sandlias. De quando em quando estacava, fitava o teto de tbuas
estreitas, unidas, e perguntava a si mesmo:
146
- E se o indulto no vier? Faltam apenas dois dias para o casamento!
Em Araruna, pouco a pouco, foram tomando corpo as mesmas preocupaes.
Dr. Fontes, conhecedor da promessa feita por Sinh-Moa, no fazia
aluso s suas inquietaes. Chegava mesmo a dizer que Frei Jos era por
demais impressionvel. Mas a verdade  que a noiva condicionara a
realizao do casamento ao perdo de Justino...
Pensava ele:
- Eis a uma bota difcil de descalar!
Virgnia mostrava-se alegre. Numa roda de escravas, ela orientava o
servio e por nada deste mundo punha em dvida que a justia seria
feita. Da cozinha, todos os dias, saam bandejas de bom-bocados, de fios
de ovos, de beijos de noiva...
Bastio observava as ordens de Ricardo atendendo de um lado e de outro
os convidados que chegavam.
A Senhora Fontes veio na vspera do casamento, e tambm ela estava
preocupada, pensando em voz alta:
- O casamento est marcado para amanh e nenhuma novidade de So Paulo!
D. Cndida ouviu aquilo, sorriu enigmaticamente, sem deixar transparecer
o que lhe ia pela alma.
De quando em quando, era interrogada por Sinh-Moa que, inconsolvel,
indagava:
- Ser, minha me, que eu no merea essa graa do cu?
147
- No desespere, minha filha - respondia-lhe ela. Talvez chegue mesmo na
hora da bno, como um presente do alto!
Afinal a manh esperada surgiu tocada de poesia, trescalante de flores
de laranjeira. Fazia um grande sol. As andorinhas trissavam no azul,
sobre o terreiro.
Frei Jos, paramentado com as roupas de seda e brocados, estava
ajoelhado na capelinha da fazenda. Rezava pela felicidade de Sinh-Moa,
o anjo bom dos escravos.
Virgnia, muito carinhosa, colocava os sapatinhos de pelica bordados de
prata, acolchoados de seda, sobre o banquinho do quarto.
Sobre a cama, o vestido de gaze exalava delicados perfumes.
Rodolfo, impecvel no seu traje de cerimnia, pedia a Ricardo que lhe
ajeitasse o "plastron". Estava diante do espelho e no conseguia
acert-lo convenientemente. Lus, de calas curtas e botinhas cor de
laranja pelo meio das canelas, andava de um lado para outro, sentindo-se
quase homem. Falava e ria, mostrando-se bem disposto, o que era uma
novidade...
No terreiro, nas senzalas, por todos os cantos da fazenda de Araruna s
se ouviam os escravos a abenoarem Sinh-Moa.
Aproximou-se a hora marcada para o casamento. No era possvel
retard-la. As pessoas de fora tinham o seu tempo marcado. No podiam
esperar. Muitas haviam deixado seus negcios na Capital para irem
assistir ao casamento de Sinh-Moa e Rodolfo.
148
A noiva, auxiliada por D. Cndida, pela me de Rodolfo e pela mucama
Virgnia, comeou a preparar-se. De to delicada e mimosa mais parecia
uma figurinha de Sevres.
Puseram-lhe sobre os cabelos cor de ouro a grinalda de flores de
laranja. O vu de renda, envolvendo-a, era como uma imensa promessa de
felicidade.
No entanto, seu corao era como uma rola assustada. Estremecia,
pensando no sonho de Virgnia. No meio daquela alegria, a moa pensava
no sofrimento de Justino. Por isso, no podia ser inteiramente feliz.
Cor que motivo Rodolfo, que se dizia to seu amigo, escondera a verdade
at  ltima hora? Por que a fizera crer que o escravo seria posto em
liberdade antes do casamento? Quem sabe se o pobre Rodolfo estava
sofrendo a sua decepo1?
Sbito estremeceu.  que,  porta do quarto, Ricardo se ps a tamborilar
com os dedos.
- Minha visita parecer descortesia, mas eu afirmo  mais linda noiva de
Piratininga que lhe trago uma tima notcia.
- Que  isso, meu filho? Que indiscrio  essa? - perguntou a Senhora
Fontes.
- No me julgue antes de ouvir-me... Estou certo de que todos vo ficar
contentes. Venho trazer alegria!
149
Sinh-Moa correu a abrir a porta. Ao v-la, Ricardo deu um passo para
trs e levou a mo aos olhos, para significar, galantemente, que estava
deslumbrado. E, l com os seus botes, concordava em que nunca a vira
to bonita. As palavras que trazia nos lbios prontos para repeti-las
fugiram como por encanto. Tinha perdido o dom da palavra.
- Que deseja voc! - perguntou a noiva, percebendo com uma pontinha de
vaidade o deslumbramento que causara.
- Vim contar-lhe que... que o Dr. Juiz de Direito acaba de chegar...
Deve ter trazido boas notcias, pois entrou com ar prazenteiro e pediu
para chamar imediatamente meu pai...
- Obrigada, Ricardo... - e lhe estendeu a mo fina e branca, coruscante
de jias, para que ele a beijasse.
Ele no desejava outra coisa. Por isso, aps ter osculado a mo da noiva
correu para o alpendre. Vendo aquilo, Virgnia se ps a rir, mostrando
os dentes alvos e perfeitos.
- Vassunc t bunita, sinhazinha! Despois que Doto Ricardo falo, duas
rosa enfeitaro com tanta boniteza o rosto de vassunc!
- Voc est inspirada! - gracejou Sinh-Moa. No percebeu que so os
seus olhos que me querem bem?
- Pois eu no penso assim - disse a Senhora Pontes, pedindo a D. Cndida
que confirmasse.
150
- Pelo que vejo, querem me deixar vaidosa...
- No acredito, minha filha. Dificilmente a beleza verdadeira da alma
permite que algum se envaidea pela formosura efmera do corpo...
- Minha me, suas palavras so uma forma velada que a senhora encontrou
para elogiar-me. No pensa assim, Senhora Fontes?
- Ela est dizendo apenas uma verdade.
L dentro, no salo de visitas, o Dr. Fontes recebia nesse momento o
Juiz de Direito. Os dois homens encontravam-se com visvel agrado. O
advogado pediu ao magistrado que se sentasse e, acomodando-se muito
prximo dele, ps-se  sua disposio.
- Venho pedir-lhe - disse o juiz - que oferea a Sinh-Moa a carta
rgia assinada pelo Sr. Presidente da Provncia, perdoando a Justino.
O Dr. Fontes, ao ouvir tais palavras, ficou de p, e transbordando de
alegria explicou ao magistrado:
- Mas isso  a felicidade para Sinh-Moa. Sem este pormenor, no creio
que a sua ventura fosse completa. Se me permite, vou busc-la em seu
quarto. Ela est se vestindo. Um momento...
Afastou-se depressa, sem ouvir as palavras do juiz. Seguiu pelo corredor
e chegando ao quarto de Sinh-Moa foi entrando pela porta adentro...
- Que  isso, meu velho? Aonde  que voc vai? - perguntou-lhe a esposa,
alarmada com a sua indiscrio. Mas ele estava fora de si.
- Vejam! Leiam!
151
A Senhora Fontes, D. Cndida e Sinh-Moa acercaram-se dele e depois de
consultarem o papel puseram-se a repetir:
- Justino foi perdoado! Justino foi perdoado! Sinh-Moa lembrou-se da
mucama:
- Virgnia!
A preta entrou quase correndo pela porta do quarto:
- To aqui, to aqui mermo... Que ser que conteceu?...
Sua sinhazinha abraou-a, de olhos midos:
- Justino... Justino foi perdoado!
- Bendito seja Nosso Sinh!  milagre, sinhazinha! Milagre de Nosso
Sinh eis pru mode primi a santinha dos escravos! Agora sim posso morre
feliz...
Ajoelhou-se e, chorando, beijou as mos de Sinh-Moa.
Esta, porm, j estava pensando no noivo. Disse:
-  preciso contar a Rodolfo. Onde estar ele? - e, arrepanhando a saia
rodada, para no arrast-la pelo cho, mostrou os pezinhos minsculos,
lindamente calados, correu para a porta, no af de ir procur-lo. Mas a
mucama interveio:
- Depois, sinhazinha. Num presta noivo v a noiva antes da cerimnia...
- Est vendo, doutor? Que remdio tenho eu se no ouvir o conselho de
Virgnia? - perguntou Sinh-Moa, a rir das supersties da escrava.
152
Dr. Fontes por essa altura j havia dominado os seus sentimentos. Estava
de p junto  mesa coberta de flores e fitas e perguntava, mais a si
mesmo que s mulheres que o rodeavam:
- Que adiantou a malvadez do delegado? Que adiantaram as suas
perseguies contra o pobre Justino? Apenas isto: desmoralizou-se.
- Neste momento ele est doente, de cama... - ajuntou sua esposa,
ajeitando o vu de Sinh-Moa.
- Como a senhora soube disso? - perguntou D. Cndida.
- Pela esposa do Dr. Moreira. E ela me adiantou muito por alto que no 
nada bom o seu estado... Acho que desta ele vai...
Dr. Fontes, ouvindo aquilo, comeou a rir.
- Qual, minha velha! Vaso ruim no quebra. S se ele quiser ser uma
exceo...
Frei Jos tinha parado  porta do quarto, curioso diante daquele animado
falatrio. Informado do que se tratava, externou a sua opinio:
- Hum... As doenas morais, muitas vezes, se refletem no corpo. Vo ver
que o delegado, ferido no seu orgulho, acabou por sentir-se ferido
igualmente num rgo vital... As grandes paixes so geralmente sinais
de fraqueza. Elas abatem o indivduo nas suas reservas mais ntimas, que
esto no esprito. Os sentimentos brandos, suaves, alegram a existncia.
Excitam sem cansar, aquecem sem qreimar, suas chamas, ardendo no
corao, no devoram - mas iluminam. So elas, meus amigos, o indcio da
verdadeira fora.
153
Um corao cheio de dio, de paixes criminosas, no assiste a uma
derrota sem baquear.  isso que, com certeza, est-se dando com o
delegado. Em fim, ele, apesar de tudo,  merecedor da nossa comiserao.
- Sempre perdoando, Frei Jos! - exclamou Sinh-Moa.
- Mas, minha filha, que nos cabe fazer nesta vida seno perdoar?
A Senhora Fontes consultou o relgio do marido.
- Vocs no percebem que a hora se aproxima? Muitas das visitas querem
regressar hoje mesmo s suas fazendas. E a noiva tambm viajar...
- Pois conduzamo-la para a capela - condescendeu o Dr. Fontes. Frei
Jos, com certeza, ainda ter alguns assuntos para tratar com D.
Cndida. Mas, depois disso, eles l nos encontraro..
Dizendo isso, o Dr. Fontes deu o brao a Sinh-Moa e, orgulhosamente,
levou-a para apresent-la aos amigos que se encontravam reunidos no
alpendre, onde Ricardo e Lus faziam as honras da casa.
Rodolfo estava conversando com o Juiz de Direito. Ao ver a noiva, de
longe, pediu licena ao magistrado e correu a cumpriment-la.
- Maravilhosa! Como est linda a minha futura esposa!
Assim dizendo, conduziu Sinh-Moa  presena do Juiz de Direito,
dizendo-lhe:
- Sr. Juiz! Tenho a honra de apresentar-lhe a mais formosa jovem de
minha terra!
154
O magistrado levantou. Depois, curvou-se reverentemente diante da noiva
de Rodolfo.
Sinh-Moa estendeu a mozinha enluvada, mas quase no pde falar, tal a
emoo que a dominava. Assim mesmo, procurou agradecer ao magistrado o
que ele fizera pelo perdo de Justino, sem o que a sua felicidade no
seria completa. Sob o corpete de pelcia branca, percebia-se que o seu
coraozinho estava pulsando forte.
Para tir-la da situao incmoda, o Juiz cumprimentou o noivo:
- Dr. Rodolfo, desejo dar-lhe os parabns.
E, beijando as mos de Sinh-Moa, caladas de "mitaines" de renda:
- E  senhora, quero dar-lhe a certeza da minha amizade, da minha muita
admirao. Sei o quanto se interessa pela abolio da escravatura, pela
emancipao dos homens de cor.
- Sou o mais feliz dos homens em t-la por esposa! - exclamou Rodolfo.
Sinh-Moa, sorrindo, num cumprimento gracioso, afastou-se do noivo e do
magistrado, para dirigir-se aos demais convidados.
A seguir, formou-se o cortejo. Meninas vestidas de tafet, com seus
trajes muito armados, com tufos de gaze e "crinolines", lembrando
marquesinhas do tempo de Lus XIV, seguiam-na, atirando ptalas de rosas
sobre a sua cabea coroada de flores de laranjeira.
Foi quando se ergueu aquela msica luminosa e profunda que parecia vir
do cu. Era o rgo da fazenda, que, depois de dormir tantos anos num
canto da capela, acordara de repente, para se fazer ouvir numa
dulcssima "Ave-maria".
155
O pequeno templo familiar estava  cunha. Fora, estavam os escravos,
assistindo  realizao do sonho de Virgnia, numa alegria profunda e
sincera. Lus entrou com dificuldade. Estava solene, compenetrado,
sentindo a importncia da sua misso: ia levar as alianas para Frei
Jos abeno-las.
D. Cndida, consternada, pensava no seu infeliz marido; ele bem poderia
estar ao seu lado, compartilhando a ventura da filha.
E a cerimnia prosseguiu.
Depois de uni-los perante Deus, Frei Jos, como  costume em tais casos,
proferiu algumas palavras:
- Aqui est a Bondade - disse ele mostrando Sinh-Moa que, ouvindo
essas palavras, enrubesceu.  a bondade que Deus quis premiar. Esta moa
to simples, que eu conheci pequenina, que tive a felicidade de preparar
para a primeira comunho, que acompanhei ao longo da adolescncia e que
hoje tenho a graa de unir ao homem digno e probo que  o Dr. Rodolfo
Fontes, com a realizao de seu casamento assiste ela mesma  recompensa
dos benefcios que tem espalhado entre os humildes. Nunca fez distino
entre grandes e pequenos, entre pobres de esprito  homens de
inteligncia. A todos estende a sua mo protetora, desanuviando os
semblantes, alegrando os coraes...
Sua bondade  como o po do Evangelho, mitigou a fome de muitos, aliviou
enormes sofrimentos. Agora, recebe a justa recompensa. Deus lhe d para
marido um homem que bem a merece. E os escravos - disse Frei Jos,
olhando com ternura os pretos agrupados  porta da capela - os escravos
que ela libertou da priso com a sua bondade agora lhe oferecem a sua
gratido, o seu amor.
156
A fisionomia dos presentes, alumiada de ternura, era uma confirmao das
palavras do religioso.
Virgnia, comovida, de mos postas, agradecia a Deus a realizao de sua
profecia. No perdia de vista a sinhazinha querida que, aos olhos dos
cativos, era uma santa descida do cu para proteg-los.
Terminada a solenidade do casamento, Rodolfo beijou ternamente
Sinh-Moa. Esta correu a agradecer a Frei Jos a bondade de suas
palavras. D. Cndida, enxugando os olhos, abenoou-a. Dr. Fontes, sua
esposa e Ricardo tambm se acercaram da moa para abra-la. E o mesmo
fizeram todos os convidados.
Lus estava num dos seus bons dias. Correu para a irm:
- Sinh-Moa! Como voc est bonita!
E, procurando descalar-lhe as "mitaines", quis ver como tinha ficado,
em seu anular cor-de-rosa, a aliana pouco antes abenoada pelo frade.
Viu, gostou e s pde dizer:
- Estou to contente! Sinh-Moa perguntou:
- Por qu? E ele:
157
- Ora! Por que havia de ser? Porque voc est contente!
A irm inclinou-se e beijou-o.
Pouco a pouco foi-se desfazendo o ajuntamento da capela. O rgo
calou-se no seu canto. A "Ave-maria" dissolveu-se no silncio.
Dali a pouco, Sinh-Moa e Rodolfo estavam ss, no alpendre. Desceram a
escada de pedra, entraram no terreiro, viraram  esquerda e transpuseram
a cancela do jardim. Sobre eles havia uma janela. O vento agitava a
cortina de gaze, erguendo-a e abaixando-a num adeus. L dentro
erguiam-se vozes. Brindes, risos lacres, trinclidos de taas. Era a
mesa de doces. Sinh-Moa perguntou a Rodolfo:
- Que idia foi essa de visitar o jardim antes de nossa partida?
- Quero que as roseiras, os jasmineiros e os heliotropos fiquem com
inveja de mim. Eu vou levar comigo a mais linda flor que eles possuam!
Onde esto os passarinhos que voavam nestas rvores? Onde esto os
pombos que arrulhavam neste velho telhado?
Sinh-Moa no sabia como responder quelas palavras loucas.
Ele continuou:
158
- Sim, minha esposa, antes de partirmos, quero que todos os recantos
desta fazenda recebam nossa visita e participem da nossa felicidade!
Repare como tudo o que nos cerca parece estar contente! Como se tornou
mais suave, mais harmonioso o murmrio das guas do regato! Como as
borboletas insistem em aprisionar-se nas volutas do seu vu de noiva!
Querem conhecer, por certo, os segredos do seu corao! Veja as plantas
rasteiras... Elas se matizam de flores para que seus sapatinhos as
beijem... Veja os velhos limoeiros como se cobriram de estrelinhas
alvas... Veja as parasitas que enfeitam os troncos apodrecidos... Veja
como os enxames de abelhas silvestres voam e revoam sobre a sua cabea,
na suposio amvel de que voc seja um grande lrio branco a passear
pela terra...
Trocaram, ento, o seu primeiro beijo.
- Querido - murmurou Sinh-Moa, afastando-o de si com meiguice. O que
no diro de ns os convidados. J pensou nisso? Voltemos para casa.
Teremos muito tempo para falar de nosso amor...
Ela ainda no tinha acabado de dizer essas palavras, muitas cabeas
apareceram na janela que lhes ficava prxima.
- L esto eles!
- Os fujes!
Mas Ricardo dominou os demais, com o seu vozeiro :
- Depressa, Sinh-Moa! Venha cortar o bolo! Ns todos estamos aqui 
sua espera!
Depois, foi a Senhora Fontes a aparecer na janela:
- Que esto fazendo a?
- Viemos trazer nossas despedidas s flores, que eram muito nossas
amigas!
Deram a volta e entraram no salo, onde havia muita gente e um falatrio
ensurdecedor.
159
- Viva Sinh-Moa! - brindou Ricardo.
- Voc  amvel - respondeu a cunhada, oferecendo-lhe um pedao de bolo.
Em-seguida, serviu aos demais que lhe estendiam o prato. E aos escravos
tambm. Eles vinham, beijavam uma pontinha do seu vu, recebiam uma
talhada de bolo e partiam para o terreiro, sentando-se nos degraus da
escada, nos bancos de madeira ou nas pedras grandes que ficavam junto
aos alicerces da casa.
Na cocheira, Bastio ajudava Dr. Fontes a preparar o trole em que o
jovem casal deveria partir dentro de pouco para So Paulo. Sinh-Moa e
Rodolfo passariam a lua-de-mel na chcara dos Oliveira Franco, velhos
amigos da famlia e gente tradicional de "araras".
MINHA amada - segredava Rodolfo nos ouvidos de Sinh-Moa. Trs horas da
tarde. Meu pai j me fez sinal de que devemos partir. Despea-se apenas
dos nossos, de Virgnia e fujamos, como pssaros livres. V se preparar.
Guardarei eternamente na retina sua imagem neste vestido de renda...
Quero t-lo como relquia. Na nossa velhice, recordar este dia solene
em que me oferece sua mo de esposa!
- Esto novamente arruinando - disse Ricardo interrompendo-os, pena 
que os venha despertar. Papai assegura que, se no partirem
imediatamente, Sinh-Moa no suportar uma noite de frio pela estrada,
o que no  nada agradvel.
- Justamente, eu pedia a Sinh-Moa para se preparar.
- Tome conta dele por um momento - pediu a jovem a Ricardo - enquanto
troco de vestido. Num instante estarei de volta.
- Dispenso a proteo de meu irmo, prefiro a honra de acompanh-la.
- No! - respondeu Sinh-Moa, esboando um sorriso que suavizava a
recusa.
161
- Que se pode fazer contra a tirania de uma linda senhora? - exclamou
Rodolfo. No encontro remdio seno o de aturar Ricardo.
- O casamento deixou-o convencido - asseverou o irmo, dando-lhe
pancadinhas nos ombros.
- E poder afirmar que no tenho razoes?
- Se estivesse no seu caso... confesso que me sentiria importante.
- Era isto que eu desejava ouvir.
- Mas, falemos a srio, meu caro. Pretendem demorar-se em So Paulo?
Quais os planos para o futuro? Um advogado como voc, com seu talentoe
nisto no vai nenhuma lisonja - dever fixar-se em Araras? Na verdade,
com a morte do marido, D. Cndida precisa estar sempre perto da filha.
Voc acha razovel deix-la na fazenda? No ser imprudncia? Se tivesse
um capataz de confiana para dirigir... Mas, mesmo assim, ela que no
tem a mnima energia...
- J refleti sobre tudo isto, Ricardo. No quero, por hora, levar
preocupaes ao esprito de Sinh-Moa. Ao regressarmos, acertaremos da
melhor maneira possvel a situao. Agradeo o seu interesse.
- No me deve nenhum agradecimento. Seu bemestar  o meu tambm. E, a
propsito, j ouviu os boatos que correm a respeito do delegado? Dizem
que ficou inteiramente desmoralizado com o perdo concedido a Justino.
Em conseqncia, teve uma crise neuro-psquica, ficando com suas
atividades bem comprometidas.
162
- Hum! - retorquiou Rodolfo. Voc est falando difcil, parece-me um
esculpio.
- No gracejo. Repito apenas os termos comumente aplicados  doena e
usados pelo Dr. Moreira.
- Gostaria de conhecer os pormenores...
- Tambm os desconheo. Ouvi a histria por alto, quando recebia os
convidados.
- Sei que essa enfermidade alquebra o indivduo - informou penalizado
Rodolfo. Vem acompanhada de crises nervosas, com alternativas de clera
e de prostrao. Afinal, que ficasse desacreditado, ridicularizado, era
de se esperar, mas que adoecesse de modo to trgico!
- So as conseqncias das paixes mrbidas. Frei Jos diz muito bem
que, quando so violentas, colricas, uma vez contrariadas ou vencidas,
tm que abater o corpo fsico.
- Como esto entretidos. Aposto que nem sentiram a minha falta! Se lhes
perguntasse que assunto os empolga, julgar-me-iam indiscreta?
- Em primeiro lugar vai deixar-me admir-la - disse Rodolfo.
E dirigindo-se a Ricardo:
- No lhe parece um modelo de Paris! Voc est linda, minha mulher!
Quanta elegncia nesta simplicidade! Como o "tailleur" lhe molda bem as
formas! Que lindo verde! Lembra esmeraldas irisadas de sol e parece ter
roubado a cor de seus olhos to belos... E este chapu tricrnico, que
brinca com seus cabelos! Onde o descobriu, to de acordo com a sua
fisionomia! Agora, antevejo uns pezinhos travessos, escondidos nestes
borzeguins de pelica...  um sonho esta minha esposa. No acha, Ricardo
?
163
- Rodolfo, no me faa corar - admoestou Sinh-Moa. Que poder Ricardo
responder?
- Devo confessar que o mano tem toda a razo. E que voc  um encanto!
- Com estas lisonjas, o que desejam  fugir  minha curiosidade. Como
toda mulher, entretanto, no transigirei. Continuo ansiosa por saber o
que conversavam...
- Desejvamos poup-la, Sinh Moa - advertiu Rodolfo. O assunto 
desinteressante e assaz triste...
- Veja se adivinha - exclamou Ricardo. Falamos sobre certa pessoa que se
julgou o senhor prepotente de todos os infelizes...
- Ah! J sei! - respondeu Sinh-Moa, tornando-se sria.
- Vassunceis ainda to ansim! Cunversano? As famia to tudo esperano,
pru mode adispidi... As moa na cozinha, int parece bando di vespa,
arremexendo nas saca di arrois pra joga in vassunceis... Seo doto t
dizeno: A viage  cumprida. O frio pra quelas banda, quando vai chegano
a noite, num  de brincadeira !...
- Querendo-nos ver pelas costas, hein, Virgnia? E eu que pensava
deix-la triste, com saudade de mim - disse Sinh-Moa, fingindo-se
decepcionada.
- Antonce, sinhazinha, duvida da preta veia?
164
- Brincava com voc, para seu desapontamento.
- Quar! Vassunc num sabe judia da gente, Sinh-Moa - falou Virgnia
com os olhos cheios de lgrimas.
- Terminemos com este colquio - disse rindo Rodolfo. Vamos, Sinh-Moa.
E, abraando Ricardo, saiu apressado, levando sua amada. Ainda gritou:
- At breve, Senhor Esculpio!
- No entendi a insinuao de meu marido - objetivou Sinh-Moa. Que foi
que lhe quis dizer, Ricardo?
- Ainda no conhece Rodolfo! Estava a me fazer crticas. Zombando de mim
porque usei certos termos ao falar da enfermidade do delegado.
- Todas estas brincadeiras o faro ter saudades de voc, Ricardo.
- No h dvida - afirmou Rodolfo, insistindo com Sinh-Moa para o
seguir, e mais uma vez despedindo-se do irmo.
- Muito me alegra esta afirmao - retrucou Ricardo um tanto comovido.
Irei lev-los. Quero ter a certeza de que este meu amigo "urso" se foi e
me deixou, por algum tempo, livre das suas impertinncias.
Ao entrarem na grande sala, toda enfeitada de flores, cheia de gente,
numa tagarelice de papagaios, como enxames de abelhas, moas e rapazes
se puseram a atirar arroz em profuso sobre o casal de noivos.
Beijando os pais e percebendo no-rosto de D. Cndida certa apreenso,
asseverou Rodolfo:
165
- No tenha cuidados. Trat-la-ei como uma princesa!
- Confio em voc, meu filho - respondeu a senhora com os olhos anuviados
de pranto. Mas... as saudades...
Querendo cortar a conversa para evitar tanta emoo, Rodolfo indagou do
pai:
- Tudo pronto? D-me ento a bno, e at muito breve!
- Quanta pressa! - gritaram os amigos.
- Seguimos para longe - exclamou Rodolfo, arrebatando sua adorvel
mulherzinha e fazendo-a sentar-se na almofada de seda feita por sua me.
- Suns Cristo! - disse Virgnia numa voz entrecortada de soluos e
acenando com o grande leno vermelho de ramagens brancas. Nosso Sinh
cumpanhe vassunceis... Agora, como vai s a vida na fazenda sem
sinhazinha?
- Deus os faa sempre felizes - disseram juntas as duas mes.
- Felicidades! - gritou impetuosamente Ricardo, ouvindo o eco da prpria
voz perder-se na densa mata onde desaparecia, numa corrida desabalada, o
trole que levava o novel casal.
Dentro de pouco no se via mais o lencinho branco de Sinh-Moa, que se
agitava no ar, numa despedida cheia de saudades...
L se iam, muito longe, quase a perder de vista, venturosos, no seu
sonho de amor.
166
Cortando estradas, daqui, dali, em busca de melhores caminhos,
repousando de quando em vez  beira de um regato amvel que lhes falava
em cadncia macia, no murmrio suave das guas mansas, melodias feitas
para namorados...
Descansando s vezes numa hospedaria mais convidativa, sempre encantados
com a sua paixo e com a poesia simples e despretensiosa da paisagem que
revelava em seus graciosos contornos, a minscula Piratininga que
comeava a crescer, eles se iam, cada vez mais enamorados...
De quando em quando, Rodolfo indagava:
- No est fatigada? E se descansssemos um pouco? No devemos ter
pressa! O frio da noite no a deve atemorizar. Aquec-la-ei com o meu
amor... A relva macia, alcatifada de flores silvestres, como um lindo
tapete se oferece tambm para a receber - insistia o moo beijando os
lbios, o rosto, os cabelos fulvos de sua mulher.
- Perto de quem se ama, pode algum sentir cansao?
- Sempre amvel - replicava Bodolfo.
E prosseguiam por lguas, sem sentir o tempo que passava e que para eles
representava minutos.
Confundiam seu amor, sua paixo, com o amor e a paixo que as falenas
nos vergis, os pssaros nas ramadas, as cigarras enlouquecidas de
prazer, celebravam em meio  natureza virgem, despida de preconceitos e
de maldade. Enleados, nesse sagrado ambiente, realizavam, eles tambm,
seus mais ardentes anelos...
167
E assim, depois de vrios dias, numa troca mtua de desejos e promessas,
venceram a jornada.
A terra que Anchieta modelara estava enfeitada de sol... Cantava a
passarada numa alacridade to viva como a querer que os noivos
percebessem que os estavam saudando...
Os Oliveira Franco, avisados por um carreiro que os encontrara na
estrada, estavam a postos, ansiosos para receb-los.
Eram dois velhinhos solteires. Amigos do tempo de estudante do Dr.
Fontes, tinham feito questo de hospedar o jovem casal em sua chcara.
Ao avistarem o trole que se aproximava do grande porto senhorial,
cercaram-no dando as boas-vindas. Numa afoiteza quase infantil, faziam
mil perguntas a respeito do casamento, da famlia, da viagem.
Apresentando Sinh-Moa, Rodolfo os satisfazia com pacincia de frade.
E os velhos, num estribilho, olhando a figura bonita de Sinh-Moa:
- Vocs so homens de gosto!
- Seu pai, Rodolfo - disse o Dr. Joaquim Oliveira Franco - que se
parecia muito com voc, era um rapaz extremamente simptico, de
cabeleira negra, ondulada, talvez um pouco mais baixo, quando se
apaixonou por sua me, que tambm era linda. Chamava a ateno nas
festas da Corte. Era uma escultura...
- No sei se o mano est lembrando - indagou o Dr. Antnio. Quando
ficaram noivos, houve at certa vez uma cena de cimes.
168
- Como no! Pois comentou-se tanto! Mas o Fontes tinha razo... Aquele
poeta pensava que todas as mulheres bonitas deveriam ser suas musas...
- E, se as quisesse... apenas platonicamente, num sentimento todo
espiritual - admoestou Dr. Antnio com uma pontinha de malcia.
Achando graa nos comentrios dos Oliveira Franco, que de to entretidos
se haviam esquecido de convidar Sinh-Moa a entrar, Rodolfo,
carregando-a como fardo precioso, a deps no porto da chcara.
Desapontados, disseram eles:
- Como nos devem julgar descorteses! Rememorando velhos tempos,
esquecemo-nos de que devem estar exaustos e necessitam repousar.
Perdoe-nos, Sinh-Moa. Vamos entrar. A casa  sua.
A viva fora queriam eles modificar a impresso que julgavam ter
causado.
- Fiquem  vontade - insistiram. No pudemos assistir s bodas, conforme
escrevemos ao Fontes, porque o reumatismo hostil a todo instante nos
gritava que j no somos moos! Por isso, insistimos em que nos dessem o
prazer de os receber como filhos.
- No se incomodem - retrucou Sinh-Moa, esboando um sorriso que
deixava entrever dentes perfeitos. Desejamos, para ficar  vontade, que
no tenham trabalho conosco. No , Rodolfo?
- Estou de pleno acordo.
- Estes pombos desejam  nos pr de lado - afirmou Dr. Antnio, piscando
para Dr. Joaquim.
169
- E esto no seu direito. Em lua-de-mel, se ficssemos em volta deles,
s poderamos ser considerados indesejveis.
- No nos compreenderam - retrucou Sinh-Moa, vermelha como uma rom.
- Mas tm razo - objetivou Dr. Joaquim. No devem ficar vexados.
- Que sabe disso, meu irmo? - indagou Dr. Antnio em tom irnico. Nunca
passou de um celibatrio !
- No reparem. Vivemos sempre assim. Questionando e sempre nos querendo
bem.
- Quem quer falar! E dirigindo-se ao casal;
- No sabem - observou Dr. Antnio - que os extremos se tocam? Que os
velhos e as crianas se confundem nas suas rusgas e folguedos?
Olhando-os com simpatia, objetou Rodolfo:
- Esto longe de ser considerados velhos... No vem meu pai? Garanto
que no est de acordo com suas idias.
Se deixasse, percebeu Rodolfo, a palestra no teria fim. Os Oliveira
Franco eram deveras palradores. Pensou em Sinh-Moa que, mesmo a
contragosto, demonstrava grande abatimento.
Aproveitou-se ento do gesto de uma mucama abrindo a porta de um quarto
para dizer:
- No quero parecer indiscreto. Mas aquele quarto bonito, que vejo de
portas abertas, cheio de flores, no ser o reservado para ns?
- Rodolfo! - exclamou Sinh-Moa confusa.
170
- Ele  de casa - disseram os Oliveira Franco. E, depois, um aposento de
noivos  sempre inconfundvel. .. Mandamos prepar-lo para os receber.
As flores - e Dr. Antnio apontou para o irmo - foram cultivadas por
ele. Assim que o Fontes nos escreveu sobre o noivado de vocs, nunca
mais se descuidou do jardim. Queremos que o vejam.
Acompanhados de Sinh-Moa e Rodolfo, entraram no quarto.
- Reparem nos lrios. Parecem de pelcia tecida para princesas...
-  a sua predileo! - indagou Sinh-Moa, dirigindo-se ao Dr. Joaquim.
- Sim.  ele o artista. Vive cultivando e plantando. Diz que as plantas
so mais gratas do que os homens, que a todo momento nos decepcionam...
- E o Senhor, Dr. Antnio? - indagou a moa repousando a cabea no peito
do marido.
- Gosto um pouco de poltica. Acompanho principalmente a atuao dos
meus amigos, e particularmente dos Fontes e dos Bueno de Camargo. Ainda
agora, incomodou-me sobremaneira o caso da rebelio de escravos na sua
fazenda. Fiquei aqui, numa verdadeira torcida para que dessem ganho de
causa aos Fontes.
- Pelo que diz, percebo que tambm  abolicionista - disse Sinh-Moa
com os olhos marejados de pranto.
E as palavras de Dr. Antnio lhe recordaram fatos passados que a
entristeciam.
171
- Se a amizade que dedica  famlia de Rodolfo j era suficiente para eu
o querer bem, sabendo-o agora adepto da abolio, dou-lhe minha amizade
incondicional.
- E... os que semeiam lrios, os que cultivam flores para a mais
encantadora noiva de So Paulo, nada merecem? Estou ficando com
cimes...
- Querendo me confundir? - indagou rindo Sinh-Moa.
- Mais tarde conversaremos - disse Rodolfo, que estava muito cansado.
Creiam que Sinh-Moa os ter sempre no mago do corao. No fossem os
senhores velhos amigos de meu pai... E olhem que digo velhos mas no no
sentido do almanaque...
- Irnico como o pai - disseram os Oliveira Franco, deixando-os.
Captulo 15
A partida de Sinh-Moa deixou um grande vazio na fazenda. Dr. Fontes
tinha voltado para a vila com a mulher e o filho. Sozinha com Lus e
Virgnia, D. Cndida sentia-se triste naquela solido.
O casario branco, as senzalas traziam-lhe penosas recordaes.
Lembrava-se constantemente das cenas de tirania ali passadas com os
escravos. Via a residncia do feitor assassinado... Rememorava a noite
trgica em que o tiro na mata os havia acordado em sobressalto. E lhe
parecia ouvir ainda o marido a gritar para fora:
"- Que h? Que se passa?"
Depois, sair afoitamente em perseguio aos rebeldes e nunca mais
voltar.
Lembrava ainda a terrvel agonia, seu desejo de viver, suas alucinaes
e seus arrependimentos. Essas imagens lhe provocavam calafrios. No
encontrava sossego. Uma grande tenso nervosa minava-lhe o organismo.
Tudo a assustava. O cair de uma folha seca, o rudo das patas de um
animal sobre um galho, o choro de uma criana, o cantar nostlgico de um
galo...
173
Virgnia, que no perdia a ama de vista, alarmava-se vendo-a definhar e
procurava, por todos os meios, distra-la.
Negra inteligente, de raa mais acessvel, rica de imaginao e de
crendices, inventava histrias da sua terra, contava lendas que
aprendera pequenina, dos seus maiores.
Seu objetivo era alegrar, custasse o que custasse, o corao de sua ama.
Num patu muito seu, comeava a narrar as fantasias cheias de encanto.
D. Cndida as ia traduzindo, frase por frase:
- Nas noites quentes - dizia ela a D. Cndida -quando a areia como brasa
queimava nossos ps, a Me Velha dizia: - Vocs devem ir para o Brasil.
L, - contam os senhores de escravos - tudo  bonito. At o pobre, o
negro,  feliz.- Me Preta se enganava - prosseguia Virgnia. S estava
certa quanto s belezas da terra. Contava que aqui plantavam algodo.
Que a terra, sentindo-se fecundada, estremecida de volpia, deixava
surgir o broto exuberante que logo se transformava num pequeno arbusto,
verde como a esperana. Com o tempo, cobria-se de flores macias, de um
amarelo claro como o sol fraquinho de inverno e miolo vermelho como o
poente. Mas - comentava Virgnia - eu acho mais parecido  cum as
quemada...
Depois, contava o capricho dessas flores que se fechavam para fazer
surpresa ao cu e, mais tarde, surgiam como novelos de l branquinha que
iam levados pela brisa pelo firmamento afora, namorar as nuvens...
Lembravam tambm carapinhas de negras velhas ou rios encachoeirados...
174
- Como  bonita a sua histria! - dizia Lus de olhinhos arregalados.
D. Cndida, porm, estava como ausente. Seu pensamento andava
distante... Eecordava a vida triste que tivera e que agora ficara ainda
mais enfadonha com a partida de Sinh-Moa.
A filha lhe fazia muita falta. Era ela quem lhe dava foras e lhe erguia
o nimo abatido. Mesmo que Sinh-Moa voltasse - pensava D. Cndida em
sua descrena - estava condenada a uma vida sem alegrias. Como era
natural, Rodolfo se transformara na razo de ser de sua filha. Jamais o
poderia deixar.
Talvez o melhor fosse conceder alforria a todos os escravos e seguir
para o povoado com Virgnia e Lus. Ao menos, estaria perto da filha e
de Frei Jos, que lhe traria consolo, fazendo-a ter foras para carregar
sua cruz.
Depois mandaria Lus para o Colgio dos Jesutas, onde se tornaria um
homem s direitas, faria seus estudos, ou, quem sabe?... seria um
sacerdote... Mas, logo depois, argumentava: no mereo to grande graa.
D. Cndida no confiava na realizao dos seus desejos, e nesses
devaneios passava os dias iguais que se sucediam.
Alguns dos escravos, ciosos dos seus deveres, trabalhavam de sol a sol,
para que no murchassem as plantaes, para que o gado no morresse e
Sinh-Moa no se aborrecesse com eles.
175
Outros, porm, fugiam para as serras, irmanando-se nos quilombos.
Numa apatia mrbida, doentia, a pobre senhora assistia a tudo, sem nimo
para reagir. Aguardava a chegada de Sinh-Moa como nufrago que espera
algum para o salvar.
De outro lado, embora informado sobre a situao da fazenda e o estado
de nimo de D. Cndida, Dr. Fontes no se considerava no direito de
tomar deliberaes. S Rodolfo e Sinh-Moa - dizia ele - podem opinar e
resolver de acordo com a me.
Ricardo, muita vez falava. Sugeria que mandassem um feitor. Homem srio,
com foras suficientes para reorganizar a fazenda. Mas o velho advogado
no concordava. Sinh-Moa e Rodolfo no deveriam demorar. Eles que
resolvessem.
- Dois meses j se foram - murmurava a Senhora Fontes.
- O tempo passa depressa - comentava Ricardo. E na expectativa da
chegada deles, todos esperavam.
Justino, liberto, no quis voltar s bandas de Araruna. Horrorizava-o
recordar o que se passara. Pediu a Frei Jos que o tomasse ao seu
servio. E o bom religioso o aceitou.
176
Aborrecido com a presena de Justino na terra e com o apoio que lhe dava
o frade, o delegado via nisso uma verdadeira provocao, um ultraje 
sua pessoa e  sua autoridade. Sua sade ressentiu-se. Comeou a piorar.
Tinha longos perodos de desvario e assustava a mulher e o filho, que j
no tinham sossego. Muitas vezes, ele que fora to orgulhoso era
encontrado em pranto. Depois, caa em letargia que a todos
impressionava.
Seu estado de depresso fazia-o crer que todos conspiravam contra ele.
As noites, geralmente as passava em claro. Suores frios inundavam-lhe os
cabelos, o corpo, e o enfraqueciam cada vez mais.
Justino no se cansava de dizer:
- Podem cridit. S delegado t cum demnio nu corpo... Ningum sabe
direito o qui ele tem... A mui int j pediu pra Pai Tomais i l pru
mode benze, mais quar! Nosso Sinh t  purgano a arma dele, permero, in
vida...
- Deixe de tolices - dizia o pai de Ricardo, que gostava de conversar
com o escravo e que, no ntimo, achava certa verdade nas palavras dele.
Uma tarde, ao sair do escritrio, Dr. Fontes recebeu emissrios de So
Paulo trazendo a notcia de que Rodolfo e Sinh-Moa j estavam de volta
e que deviam chegar dentro de alguns dias.
A alvissareira notcia trouxe grande alegria  famlia Fontes.
- Devemos avisar D. Cndida - disse a me de Rodolfo. Antecipar, dessa
forma, os momentos de felicidade que vai ter com o regresso da filha.
- J mandei, minha mulher. Creio que o portador deve estar chegando em
Araruna.
Ao ser informada do regresso do jovem casal, D. Cndida sentiu
verdadeira metamorfose em seu corao.  Novo nimo a empolgou e deu
incio aos preparativos para receber Sinh-Moa.
177
Ordenou a Virgnia que preparasse o quarto grande de casal e que pusesse
sobre a cama a colcha de damasco azul. Viera da Itlia para as grandes
solenidades e estava carinhosamente guardada, entre razes cheirosas de
sndalo, na arca revestida de couro, com iniciais em botes dourados,
feitas ainda para o seu enxoval...
- T cherosa, D. Cndida. - Parece int que as raiz ainda to nova,
perfumano esta coberta de seda.
- Sim, Virgnia. E no esquea tambm dos pelegos brancos em volta da
cama.
- Prontei tudo. Agora, v perpar uns quitute, pru mode quano Sinh-Moa
chega fica sastifeita.
Na fazenda, em volta da casa, Bastio tambm se esforava para oue tudo
ficasse em ordem. Estava contente como sabi solto. Limpava tudo,
estacando as flores...
Na cidade, a mesma ventura. A me de Rodolfo preparava com todo o
carinho a casa que comprara para o filho. A moblia austraca foi toda
envernizada de novo. No espaldar das cadeiras e sofs foram colocadas
cobertas trabalhadas em ls de vrias cores.
178
Candelabros com mangas de cristal da Bomia e pingentes luzidios como
diamantes escondendo artsticos pedestais de bronze foram postos nos
aparadores. As vitrinas mandadas fazer na Bahia com jacarand de lei
ornamentavam-se de bibels franceses de - biscuis - representando
marqueses e marquesinhas a danar o minueto ou em ternos idlios ouvindo
madrigais...
Louas e porcelanas de Sevres enchiam o guardalouas. Nas cmodas e nos
armrios foram arrumadas pilhas de roupas de linho abertas em delicados
crivos.
Enfim, o ninho do jovem casal ficou um verdadeiro encanto.
O Dr. Fontes, que tamhm queria dar sua contribuio, no se cansava de
examinar os lampies belgas, colocando-os por toda a casa para que
ficasse bem iluminada.
- Assim - disse Ricardo, que acompanhava curioso toda aquela arrumao -
tambm vou tratar de arranjar uma noiva. Estou ficando com cimes.
Rodolfo julgar-se- um prncipe, neste palcio. Quanto a mim...
pobrezinho!...
- No o quero invejoso - retrucou a me fingindo-se zangada. Meu filho,
voc  sempre uma criana.
- No v que o perde com os seus mimos? - exclamou o Dr. Fontes olhando
o filho.
- Responda com franqueza, meu pai. O senhor mesmo no est com inveja?
Repare que luxo! Olhe tudo isto! S mesmo para Sinh-Moa... do
contrrio ...
- Era preciso que eu no o conhecesse, meu filho - objetou a me
alisando-lhe ternamente os cabelos. Voc que tanto deseja a felicidade
de seu irmo!
179
- A senhora teve dvidas de que eu no estivesse gracejando? Pois eu
tambm vou fazer o meu presente. Arranjei um lindo canrio-do-reino.
Cantador sem rivais. Despertar Sinh-Moa todas as manhs com sua
melodiosa voz. Mandei Nh Chico, aquele que recebe tantas encomendas da
corte, fazer uma gaiola de taquara que vai ficar uma renda. O velho  um
artista nesse gnero de trabalho!
- Pelo que vejo, meu filho, no quer ficar em segundo plano - disse Dr.
Fontes rindo-se para a mulher.
- Naturalmente! Tanto mais que tenho minhas pretenses... Desejo
candidatar-me ao ttulo de padrinho do primeiro rebento...
- Interesseiro - caoou a me.
Nessas interminveis e encantadoras discusses as horas se iam passando.
Numa tarde clarinha, quando a lua se punha toda faceira enfeitando o
cu, Sinh-Moa e Rodolfo chegaram numa alegria de colegiais.
Ricardo, que todas as tardes os esperava  janela, gritou ao avist-los.
Mas logo se calou vendo os sinais dos recm-chegados que queriam
surpreender os de casa.
Era tarde, no entanto. Dr Fontes e a esposa, que tomavam ch antes de se
recolher, saram  porta e deram de encontro com os noivos que entravam.
- Isto se faz, senhores fujes? Querendo-nos apanhar distrados, hein? -
exclamou Dr. Fontes acompanhado pela mulher, que insistia:
180
- Isto se faz? E se no houvssemos providenciado tudo para os receber?
- A senhora, minha me, esquecer-se de ns - disse Rodolfo apertando a
Senhora Fontes nos braos e beijando o pai.
- E... eu, fico de lado, esquecido, abandonado... Simulando mgoa,
Bicardo atirou-se nos braos do irmo, estreitando-o fortemente.
- Como esto bem-dispostos, meus filhos - exclamou a Senhora Fontes.
Estes meses na Capital lhes fizeram muito bem. Nem parece que foi to
longa a viagem!
- E os Oliveira Franco? - indagou Dr. Fontes.
- So formidveis! Apesar de idosos, tm esprito de moos. Fizemos
timas excurses juntos. Creio que a nossa partida os deixou bem
tristes...
- Quem no sentiria falta de SinhMoa? - disse Ricardo.
- Voc  sempre o mesmo, meu caro cunhado - respondeu-lhe a moa.
- Mas, se  a expresso da verdade...
- Ora, Ricardo! Quanta lisonja! Mas, falemos de minha me. Estou ansiosa
para v-la. Imagino como deve estar sentindo minha ausncia.
- Diariamente - interrompeu Dr. Fontes - mando um portador  fazenda
pedir notcias. E j tratei de avis-la da sua chegada.
- Poderamos seguir amanh para Araruna, Rodolfo? - pediu Sinh-Moa,no
conseguindo conter as lgrimas e envolvendo o marido num olhar quase de
splica.
181
- Descansar um dia, primeiro, querida. No quero que D. Cndida pense
que a tratei indevidamente. Promete no ficar zangada comigo?
- Sabe que no - retrucou Sinh-Moa.
- Tomemos uma chvena de ch. Foi feito agora. Est quentinho e lhe far
bem - insistiu a Senhora Fontes.
- Aposto que esto aflitos para reconhecer o lindo ninho que mame
preparou - disse Ricardo.
- Voc sempre indiscreto, meu filho.
- Perdoe-me, minha me! Mas... quem sai aos seus no degenera...
E, voltando-se para o pai:
- No  verdade que me pareo com o senhor!
- Engraado! Por que me envolve nas suas questes, Ricardo?
- No percebe, meu velho, que ele quer arranjar uma desculpa que o
justifique?
- Todavia, minha me - disse Rodolfo - agora estamos realmente desejosos
de esquecer o ch e correr para nossa casa... Eis o que fez Ricardo!
Vendo que Rodolfo buscava um pretexto para se ir e que quela hora seria
difcil acender fogo e preparar a ceia, Dr. Fontes objetou em tom
imperioso:
- Sinh-Moa deve estar fatigada. O melhor  tomarem conosco algum
alimento. Depois ns os acompanharemos ...
182
- Fao o que desejarem - respondeu a jovem.
- Ora, Bodolfo !-disse Ricardo em tom hospitaleiro. Um bom chazinho, um
pouco de po-de-l, so coisas tentadoras...
- Seja feita a sua vontade, meu pai.
E afastando-se com elegncia da cadeira, Rodolfo fez Sinh-Moa
sentar-se.
- Garanto que Rodolfo ignora as novidades - disse a Senhora Fontes.
- Que h! - indagou o moo, sentando-se tambm. Como vai o delegado? J
se conformou? - insistiu ele enquanto levava pedacinhos de bolo aos
lbios da esposa.
- Conformar-se, um esprito inferior? Ricardo que o diga. Era preciso
que tivesse outra formao moral, meu caro - respondeu Dr. Fontes.
- Chegou a adoecer - informou o irmo. Alis, quando vocs foram para
Piratininga ele j no estava passando muito bem...
- Justino diz - atalhou a Senhora Fontes - que ele est pagando os
pecados.
- Justino? espantou-se Sinh-Moa, descansando a xcara. Mas ele est
aqui?
- Sim, minha filha. Desde que foi posto em liberdade, ficou trabalhando
com Frei Jos. Era esse o desejo do velho escravo e o bom religioso fez
questo de o atender. Justino  submisso, trabalhador e amigo.
Interessa-se tambm por toda nossa famlia. Pergunta sempre por voc e
por seu marido.
183
- Gostaria de v-lo - disse Sinh-Moa.
- Amanh, minha mulher, iremos visitar Frei Jos e veremos Justino.
Notando que o casal j terminara o ch, Ricardo lembrou:
- Creio que agora podemos deix-los sair...
- Parece-me - disse o pai - que voc tem mais pressa do que eles mesmos.
- Vamo-nos valer da iniciativa de Ricardo - falou Rodolfo, envolvendo
Sinh-Moa na capa de drap cinzento com refolhos de tafet fraise e
despedindo-se dos pais e do mano.
- Que podemos fazer seno concordar? suspirou a me. No devemos ser
egostas...
- Amanh nos veremos - replicou Rodolfo - saindo com Sinh-Moa.
- A noite est fria, cuidado com Sinh-Moa - avisou a Senhora Fontes.
- No h perigo. Iremos depressa.
Afinal chegaram. Rodolfo abriu a porta e carregou Sinh-Moa.
- Lev-la-ei como uma princesa, minha querida! Quero faz-la entrar em
nossa casa nos meus braos. Que o seu corao bata perto do meu corao,
marcando com tique-taque festivo estas doces emoes. Assim,
sentir-me-ei o homem mais ditoso do mundo!
- Rodolfo! - disse Sinh-Moa, sentindo um certo langor. Como  bom ser
amada, ter algum que nos faa estremecer de amor.
184
- Como tudo est bonito! Veja o nosso quarto... - exclamou Rodolfo sem
conter a alegria, e mostrando  mulher um bercinho que estava a um
canto.
- J o vi, querido - respondeu Sinh-Moa corando e se aproximando para
afagar o estofado da caminha de bronze dourado a fogo.
- Foi meu e de Ricardo. Representa para mim um poema de amor e de
sacrifcio materno. Sim, recorda-me as viglias de minha me sempre
incansvel, velando o nosso sono, receosa de que no estivssemos bem.
- E doravante - exclamou Sinh-Moa - ser o escudo da nossa
felicidade... O trao-de-unio que nos ligar at depois da prpria
morte.
- Antevejo neste bero, querida, um menino gorducho, de olhinhos
brejeiros, verdes como os seus, com esses tons de mel, olhando para mim,
que hei de quer-lo perdidamente. Na sua carne rosada como ptalas de
flor verei voc mesma, nossa grande paixo...
- Quero que se parea com voc, Rodolfo!
- No brigaremos por isto, minha encantadora mulher! Ele h de querer
nos contentar a ambos. Ter um pouco de cada um.
E acariciando a esposa:
- Muito breve o nosso amor ser vida... Desabrochar num lindo corpinho
que estremecer aos nossos afagos, perpetuando-nos no seu sangue, que
ser a sntese de ns mesmos...
Captulo 16
Amanh chegou clarinha como um vestido de primeira comunho. Faceira
como menina em dia de festa. O sol, trfego, espiou atravs das casas da
cortina. J os podia despertar e travessamente comeou a Jarincar com as
madeixas douradas de Sinh-Moa que, se espreguiando, acordou.
Rodolfo ainda dormia gostosamente, refazendo-se da viagem.
Vendo-o to tranqilo, Sinh-Moa levantou-se p ante p, vestiu o
peignoir de gaze branca, calou as chinelas de pelcia bordada e foi ver
se a mucama preparara o caf. Agora tinha responsabilidade de dona de
casa.
Uma surpresa a esperava. -A Senhora Fontes, na cozinha, orientava a
velha ama de Rodolfo, que fizera questo de continuar com seu jovem
senhor.
- To cedo! - exclamou Sinh-Moa. Incomodando-se conosco? Que boa me!
- Que maior recompensa poderemos receber, minha filha, que ouvir
merecidamente tais palavras? Amando-a, Sinh-Moa, tenho a certeza de
que estou conservando o afeto de Rodolfo. E a certeza do seu carinho
tranqilizar meu corao.  assim que compreendo o amor materno. O amor
exclusivista de certas mes que as fazem detestar as esposas de seus
filhos, nada constri, Sinh-Moa.
187
- Como me sinto feliz ouvindo-a! De hoje em diante cham-la-ei de
mezinha.
Dirigindo-se  velha Ba, a Senhora Fontes mandou-a servir o chocolate
que fumegava e as rosquinhas feitas naquele momento.
- Gostaria de tomar apenas uma xcara de caf para esperar Rodolfo.
Enquanto espero ficarei me distraindo com este lindo canrio. Quem o
trouxe, mezinha?
-  presente de Eieardo. Estava todo contente arranjando a gaiola...
- Que lindo! E como canta! Rodolfo  que vai ficar contente!
Fazendo muxoxos para chamar a ateno do passarinho, to entretida
estava que no percebeu a chegada de Rodolfo. Este beijou-a na nuca,
dizendo:
- Voc parece uma slfide! No senti quando fugiu...
- Sempre o mesmo dorminhoco - observou a me.
- Para que acord-lo? - perguntou Sinh-Moa.
- Para vir mais depressa gozar a sua companhia.
- Lisonjeira!
- Vamos, vamos, meus filhos. A Ba j est resmungando que o chocolate
esfria. At logo. Seu pai e Ricardo devem estar sentindo a minha falta.
-  tarde passaremos por sua casa, mame - assegurou Rodolfo
despedindo-se.
- Vamos ver... No se esqueam! Bem sei como so vocs...
- Isso no acontecer. Alm disso, precisamos tambm ir ver Frei Jos,
do contrrio ele se aborrecer conosco.
- Frei Jos  indulgente e logo os perdoar. Eu sei que o tempo lhes
parecer pouco para apreciar sua casa nova...
- Eealmente. Ficou linda! - afirmou Rodolfo, lendo nos olhos da me a
alegria que lhe causava tal elogio.
- Em troca, ns lhes daremos um presente... rgio... Pode ir pensando
nas encomendas de tric e nas roupinhas bordadas.
- Oh! Rodolfo! Com estas palavras voc est pondo no meu corao uma
alegria de prazer.
- Mior  vassunc i pra casa minha ama. S doto Rodolfo assim num deixa
nem Sinh-Moa toma o chocolate. ..
- Est bem. At a tarde, meus filhos.
- Vassunc, sinhazinha, num d ovido pra seo doto. Ele t sempre
tagarelano...
- Realmente. Ficou linda! - afirmou Rodolfo. Sero cimes de Sinh-Moa?
- Credo! Sinhozinho! A senhora Fontes saiu.
- Queria-me vingar de voc - exclamou Rodolfo que, sem o querer, magoara
o corao da velha preta.
- Veja quem est chegando - disse Sinh-Moa, interrompendo a conversa.
188
- Vim cumpriment-los. Mas s agora se levantaram? Ainda tomando o
chocolate? Imaginei encontr-los prontos para irmos juntos visitar Frei
Jos.
- Que ingenuidade, meu irmo! Acordar cedo quando se est to bem!
- Foi bom que voc viesse, Ricardo - disse Sinh-Moa querendo deixar o
rapaz  vontade. Quero agradecer-lhe o lindo presente. Procurava-me
familiarizar com ele quando Rodolfo acordou. Como canta bem!
- Sua generosidade, Sinh-Moa, me confunde e ao mesmo tempo me faz
ficar alegre. Queria oferecer-Ihe um presente que se coadunasse com
sua-delicadeza de alma... E imaginei que um trovador alado deveria lhe
agradar. Far bem ao seu corao de esteta. -A msica  o corao da
vida. Por ela fala o amor; sem ela no h bem possvel, com ela tudo 
belo.- Assim dizia Lizst.
- Voc est inspirado, Ricardo! Pelo que vejo...
- No seria nada estranho que eu quisesse seguir o seu exemplo...
- Claro! S poderamos nos rejubilar! No acha, Sinh-Moa?
- Que grande marido seria Ricardo! Se eu tivesse uma irm trataria de
conquist-lo para ela...
- Fico-lhe muito obrigado pelos cumprimentos. Por enquanto no tenho
candidata. E, a propsito, mame ontem ficou to contente! Cheia de
reservas, falando nos ouvidos de papai! Vi-os como pombos, arrumando...
Fiquei desconfiado. Sabem de alguma novidade ?
189
- Como vai o delegado? - perguntou Rodolfo mudando de conversa.
- Esta noite o Dr. Moreira foi chamado s pressas. Soubemos pelo filho
que se encontrou com papai.
- Pobre homem! Vive numa agonia lenta!
- E ainda levar tempo pagando seus pecados. Nem gosto de pensar!
Lembra-se dos castigos que impunha aos escravos? Daquelas pocilgas que
visitamos!
- Mudemos de assunto - pediu Sinh-Moa, convidando Ricardo a sentar-se.
Falemos de coisas alegres. A vida, sem que o desejemos, nos traz a todo
instante tantas tristezas!
- Voc tem razo, minha mulher. Mas, estou certo de que para ns a
existncia ser sempre prdiga e generosa.
- Oxal que assim seja, meu amor.
- Parece que sou demais aqui - disse Ricardo brincando com o canrio que
se voltava para Sinh-Moa, como a querer admir-la.
- Dentro em pouco j no pensar dessa forma. Existiro aqui
responsabilidades que exigiro a sua presena...
- Ora, Rodolfo - exclamou Sinh-Moa.
- Que me diz?
- Apenas que  bem capaz de se transformar num... titio! - disse Rodolfo
rindo.
- A notcia me faz muito feliz. E desde j agradeo o me julgarem digno
de auxiliar ao nosso...
190
Vendo que Sinh-Moa ficara sria e no a querendo molestar, Ricardo
despediu-se e saiu.
- Ns o veremos  tarde - disse Rodolfo.
- Ficarei  espera - respondeu Ricardo. E saiu cantarolando, a imaginar
o futuro sobrinho, um peralta que lhe haveria de fazer mil perguntas,
tudo querendo saber. Assim, nem percebeu que j passara pelo escritrio
do pai.
- Ol, Ricardo! No vem trabalhar hoje?...
- Caminhava entregue aos meus pensamentos...
- Est ficando assim distrado? - indagou rindo Dr. Fontes.
- No julgue mal, meu pai. So coisas bem diferentes. Rememorava, com
prazer para meu corao, certas palavras de Rodolfo.
- Confesso-lhe, meu filho, que desde o momento em que sua me me disse a
novidade, senti-me to feliz que no posso pensar em mais nada. Falando
de coisas mais imediatas, Ricardo, acaba de sair daqui o filho do
delegado. Veio procurar-me para ir ver o pai. Disse-me que 
impressionante o seu estado. Ento eu me pus a refletir: eis a uma
lio que deveria ser lembrada como exemplo a todos aqueles que vivem
sob a influncia da vaidade, da tirania.
- Tem razo, meu pai. A vida se nos apresenta como um livro aberto que
deve ser meditado e seguido. Os homens, entretanto, em sua maioria, no
o procuram ler. Mas, deixemos estes assuntos tristes. Adivinho como deve
estar contente com a perspectiva de vir a ser av.
191
- Queira Deus que tudo corra bem e que Sinh-Moa seja feliz,
- A meu ver, Rodolfo devia ir logo a Araruna e convencer D, Cndida da
necessidade de vender a fazenda. O filho  muito pequeno,  intil
pensar que possa dirigir os negcios da me. Vindo para c, D. Cndida
ter a companhia de Sinh-Moa. Alm disso, dentro de alguns meses a
filha ter necessidade dela...
- Voc tem toda razo, mesmo porque Sinh-Moa no deve estar fazendo
viagens repetidas. Bem, filho, vamos para casa.
- Vamos andando, pai?
- Que pontualidade! - exclamou a Senhora Fontes, que j andara s voltas
com a mesa do almoo.
- Saudades, minha velha - replicou Dr, Fontes abraando-a,
- Saudades? - indagou a Senhora Fontes fazendo-se incrdula.
- Ou.., quem sabe - falou Ricardo fitando o pai - a esperana de
encontrar um novo casal?
- Ora, - disse o velho advogado, Voc a querer me indispor com sua me!
- No foi essa a minha inteno, Mas, diga a verdade. No esperava
encontr-los?
- No fuja ao assunto, Ricardo, isso  outra coisa. E alm do mais no
impediria que eu desejasse rever mais depressa uma encantadora futura
av.
192
- Sempre galanteador - disse rindo a me de Ricardo, guardando na cesta
de costuras um sapatinho de tric que comeara.
Percebendo-o, disse o Dr. Fontes:
- To depressa?
- Ora, meu pai.- As coisas esto saindo melhores do que as encomendas.
- Deixe de brincadeiras, Ricardo. Vamos almoar. Sinh-Moa e Rodolfo
no vm. Mandaram avisar... - disse a senhora enrubescendo como uma
menina.
- No me resta seno cumprir suas ordens - exclamou Ricardo, fazendo-lhe
uma reverncia.
- Voc no cria juzo, meu filho? At quando gostar de brincar?
- Neste caminho - asseverou Dr. Fontes - nosso neto encontrar nele um
concorrente...
- No me restam mais dvidas. Passei mesmo para o segundo plano. J nem
posso mais ser folgazo !
- Seu pai est gracejando - apressou-se em dizer a me, imaginando que o
filho se contristasse com as palavras do advogado. Deixemos de
criancices. Falemos a srio! Voc esteve hoje em casa de Rodolfo e
Sinh-Moa?
- Passei por l. Estavam to entretidos que resolvi deix-los. Creio que
 tarde iro visitar Frei Jos.
Captulo 17
POR que no me chamou, querido? Deixou-me dormir tanto . . . Queria,
logo depois do almoo, ir  casa de Frei Jos! E o tempo passou - disse
Sinh-Moa, estendendo com graa os braos preguiosos nas almofadas de
cambraia e deixando entrever os seios redondos e bonitos no decote da
camisola de rendas.
-  simples - replicou Rodolfo, acariciando as madeixas de Sinh-Moa,
que marchetavam de ouro o travesseiro. Agora, a futura mame vai-se
preparar muito calmamente e em companhia de seu digno marido vai fazer a
desejada visita! So apenas quatro horas, h muito tempo. Depois, iremos
jantar com meus pais.
- Belo programa, se o pudssemos cumprir sem atrasar nossa ida 
fazenda. Voc sabe que no ficarei tranqila enquanto no for ver mame
e Lus.
- No se aflija, querida. Tudo sair ao seu contento. O que no quero 
que se aborrea. Nosso filho viria um menino zangado - disse rindo
Rodolfo.
- Ora, meu marido. No pensa em mais nada?
- Como seria possvel? - indagou Rodolfo beijando apaixonadamente a
mulher.
Sinh-Moa no respondeu. Sentou-se na cama, calou as sandlias e
estendendo os braos a Rodolfo, que a ajudou levantar-se, deu incio 
toilette.
194
Observando-a, disse o marido:
- Sinto-me cada vez mais enamorado. As linhas do seu corpo esto mais
bem delineadas, mais firmes... Seus olhos tm um novo brilho. Uma luz
diferente os alumia. Estas olheiras roxas feitas pelo amor a tornam mais
mulher, mais sedutora! Amo-a cada vez mais!
- No perde o costume de galantear? - perguntou a moa acabando de se
vestir e sentindo certo langor nas palavras do amado.
-  proibido dizer a verdade?
- Vamos, Rodolfo. Frei Jos h de estar pensando que j o esquecemos...
Pelo caminho, foram fazendo castelos. Rodolfo achava que o mais acertado
era mudarem para So Paulo, onde teriam mais futuro. J era tempo de
comearem a pensar em algum que exigiria grandes sacrifcios. Um pouco
contristada, ponderava Sinh-Moa que no gostaria deixar a me e o
irmo.
- Pois adiemos os nossos planos, querida. Vamos esperar primeiro a
chegada de nosso filho. Quando voc estiver forte, cogitaremos. Penso,
entretanto, que voc deveria induzir sua me a vender a fazenda. A vida
l  muito isolada e sem muita energia no se pode administrar uma
propriedade. A princpio, talvez ela venha a estranhar a mudana. 
natural; viveu sempre em Araruna. Mas a vinda do neto encher o vazio do
seu corao.
- Concordo com voc - suspirou Sinh-Moa, relembrando as cenas passadas
na casa-grande.
195
To absortos estavam, que chegaram sem o perceber. Frei Jos, que os
esperava  porta, foi logo dizendo:
- Bem-vindos sejam, meus filhos! Como esto bem-dispostos! Nem se
acredita que fizeram uma viagem to longa e exaustiva! Que me
conta,Rodolfo? Entremos. Sentem-se. Vou mandar buscar um excelente
refresco. Justino acaba de prepar-lo.
- Ah! Justino! - exclamou Sinh-Moa.
- J sabia que ele estava trabalhando aqui?
- Soubemos ontem pela mamezinha.
- O senhor foi generoso com o pobre escravo - atalhou Rodolfo. Mas, no
recordemos tristezas. Devemos pensar apenas em coisas alegres, tanto
mais que...
- Que significam tais reticncias? Alguma novidade j vem por a? Muito
bem. Folgo muito e espero poder... batiz-lo.
- O senhor percebe tudo de longe - disse Rodolfo satisfeito por ter
conseguido contar indiretamente ao sacerdote seu precioso segredo.
- Vou providenciar o refresco e depois ouvirei as novidades que me
trazem da Capital - exclamou o frade levantando-se.
- Preferimos o prazer da sua companhia - falou Sinh-Moa. No nos
podemos demorar.
-  s um instante, meus filhos. Quero tambm apresentar-lhes meu timo
copeiro.
E gritando para dentro:
196
- Justino!
O escravo veio correndo do fundo da chcara, limpando as mos calosas
nas calas de algodo e mostrando num riso amvel os brancos dentes.
- Seo Reverendo t chamando?
- Sim, Justino. Chamei-o para servir a dois bons amigos que acabam de
chegar. Adivinhe quem so.
Ouvindo a voz de Sinh-Moa na sala, o negro percebeu de quem se
tratava. Deixando cair pesadamente os braos ao longo das pernas que
tremiam de emoo, os olhos rasos de lgrimas, lembrou-se num segundo
das cenas horrveis da fazenda, e respondeu:
- Num tenho corage di aparece pra Sinh-Moa. Ela num vai quer v o
negro, Seo Revereno... Magina qui s ruim taliqu cobra...
- Ora, Justino. Ento j se esqueceu do corao de Sinh-Moa? Veja a
bandeja de prata, forre com um guardanapo de linho e sirva o refresco de
uva que voc fez.
- Assim fico mais contente... To aqui pra obedece Vossa Reverendo...
Frei Jos voltou  sala e se ps a conversar. Falou sobre D. Cndida e
sobre Lus. Contou depois que o delegado estava muito mal e o mandara
chamar...
Na cozinha, Justino preparava tudo para servir sua doce sinhazinha.
- Ento o homem est para morrer? - indagou Rodolfo. Tanto orgulho,
tanta bazfia, para ter um fim to trgico! Sim, porque o Dr. Moreira
afirmou a meu pai que ele levou uma queda horrvel que lhe afetou o
crebro. Se vier a uremia, no ter muitos dias de vida...
197
- Suns Cristo! - exclamou Justino entrando, muito limpo, a carapinha
penteada. A bandeja lhe tremia nas mos quando ofereceu um copo a
Sinh-Moa.
- Como vai, Justino? - indagaram os jovens.
- Viveno na sombra de Seo Reverendo qui tem pena dus infeliz!
- D-me tambm um refresco - exclamou Rodolfo. S Sinh-Moa tem
direito?
- E eu? - perguntou Frei Jos, querendo obrigar Justino a conversar.
- Descurpe... Tava pensano que Sinh-Moa pudia num quer beno mais o
negro. Int mi esquiei di vassunceis.
- J lhe disse que deixe de tolices - replicou o frade.
Sinh-Moa compreendeu a dor do velho negro e o fitou com seu olhar
terno e bondoso.
- Frei Jos tem razo. Gosto de voc sinceramente. No guardo rancores e
creio nos seus elevados sentimentos. Voc nunca teve um esprito
mesquinho. Os sofrimentos de Fulgncio  que o tornaram um revoltado...
Nunca o perdi de vista, Justino! Sei qual tem sido o seu procedimento e
tenho a certeza de que sofre o remorso dos seus antigos impulsos.
- Nosso Sinh benoe vassunc, sinhazinha - disse o negro, enquanto as
lgrimas corriam por suas faces de bano. E qui nunca se desingane cum
nis...
198
Achando a cena demasiado dolorosa para Sinh-Moa, Frei Jos ordenou a
Justino que fosse.
- Cum licena di vassunceis - disse o negro desaparecendo.
- Ns tambm j nos vamos, Frei Jos - disse Rodolfo.
- Amanh vamos para a fazenda. Deseja alguma coisa de l? - perguntou
Sinh-Moa.
- Que voltem depressa. E, a propsito. Por que no trazem D. Cndida
definitivamente para c?
- J pensamos nisso - disse Rodolfo. Despedindo-se mais uma vez do frade
puseram-se a caminho. Enquanto andavam, Rodolfo ia tecendo elogios 
esposa:
- Estou cada vez mais orgulhoso de minha mulher! Considero-me o homem
mais venturoso do mundo! To calada! No concorda comigo?
- No me sinto muito bem, Rodolfo.
- Por que no disse logo? Poderamos ter voltado para casa.
- Sua me ficaria triste. E l tambm poderei repousar.
- Minha me - gritou para dentro Ricardo - adivinhe quem vem chegando!
Saindo  janela, a Senhora Fontes notou o ar cansado de Sinh-Moa.
Preocupada, foi esper-los  porta.
- Que est sentindo, minha filha?
199
- A presena de Justino emocionou-a - disse Rodolfo. Seria melhor que
no o tivesse visto.
- Que tolice, Rodolfo. No foi isso. A viagem j me havia cansado um
pouco.
- Venha comigo, Sinh-Moa - disse a Senhora Fontes. Vai deitar-se um
pouco e logo estar boa.
- Acho que ser imprudncia vocs seguirem amanh para a fazenda, meu
filho - disse o Dr. Fontes.  melhor que voc v sozinho.
- Mas, meu pai, Sinh-Moa no suportaria a minha ausncia.
- Ficar em nossa companhia.
- Vou pensar nisso - disse Rodolfo passando as mos pelos cabelos.
- Compreendo seu estado de nervos, Rodolfo. Agora voc poder dar valor
s lutas e preocupaes que nos causaram quando pequeninos...
- Realmente - replicou o moo acercando-se da me, que entrava no quarto
levando uma botija de gua quente e o ch para Sinh-Moa. Quero
ajud-la. D-me o mais pesado.
- Se voc deseja...
Seguida do filho entrou no quarto onde Sinh-Moa repousava, parecendo
adormecida.
O rapaz aproximou-se p ante p, com receio de acord-la. Afagou-lhe a
cabea querida e esperou que ela dissesse alguma coisa.
Sinh-Moa descerrou os olhos e fitou carinhosamente o marido.
200
- Por que no vo jantar? Vejo que estou perturbando a ordem da casa.
- Ora, que idia! Poderamos estar tranqilos, sabendo-a doente?
No  nada, querido. J me sinto bem e amanh poderemos viajar...
Olhando para a me e sorrindo condescendentemente para a mulher, Rodolfo
respondeu:
- Depois conversaremos, minha corajosa.
Captulo 18
O cu amanheceu juncado de violetas luminosas, mas tristes. Gotas de
chuva como lgrimas de coraes arrependidos caam sobre a terra.
O Dr. Fontes, nessa manh aquosa, foi chamado s pressas pela famlia do
delegado. Ele morrera na paz do Senhor, como mandara dizer a viva. Ao
receber o bilhete, disse  esposa:
- A glria de um verdadeiro sacerdote cristo  muito grande quando ele
consegue lanar numa alma incrdula e rebelde o grmen da F e da
Virtude. Quem imaginaria essa mudana na alma daquele pobre homem? Leia
este bilhete que eu acabo de receber...
A Senhora Fontes tomou o papel e leu-o.
-  edificante - exclamou ela. Imagino a surpresa de Rodolfo quando
regressar!
- E Sinh-Moa, minha velha? Est mais conformada com a demora do marido
em Araruna? Dormiu melhor esta noite?
- Acho-a muito nervosa. Tudo a assusta, tudo a incomoda. Est sempre
preocupada com a me e o irmo.
- Mas isso  prprio do seu estado. Com a chedaga de D. Cndida,
tornar-se- mais calma.
202
Deus permita. Quero um neto robusto e forte. Ricardo entrou
espreguiando-se.
- Sempre a falar no neto! Dr. Fontes mostrou-se grave:
- Escute, Ricardo. Deixemos de brincadeiras. Sabe voc o que aconteceu?
O delegado faleceu ontem  noite.
- Est a uma notcia que eu no esperava. No acha, meu pai, que foi
melhor para ele? Sofreu muito. Naturalmente, conseguiu perdo para seus
pecados.
- No h dvida.
- Fontes, deixe-o ler o bilhete que voc recebeu. Bicardo passou os
olhos pelo papel, ficou srio e disse:
- S o sublime esprito de Frei Jos consegue coisas como esta.
- Isso  to raro hoje em dia... O egosmo, gritando em todas as almas,
j no lhes permite fazer alguma coisa por seus semelhantes.
- Papai tm razo. A espiritualidade da vida retirou-se. No encontra
mais guarida nos coraes. Atualmente, a existncia  feita apenas de
exterioridades. O corpo se agita, luta, em-busca somente de eoisas
materiais. O tempo, sempre ocupado em assuntos grosseiros, no permite o
predomnio do espiritual.
A conversa prolongou-se nesse tom. Depois, Dr. Fontes apanhou o chapu e
saiu.
Ao chegar  casa do delegado, teve uma surpresa. O advogado poderia
esperar tudo, menos o quadro que se lhe deparou  entrada: ajoelhado num
canto da sala, estava um preto rezando. E quem havia de ser ele?
Justino!
203
- Justino! - exclamou o recm-chegado, chamando involuntariamente a
ateno dos presentes com a sua exclamao.
O escravo levantou para ele os olhos e disse.
- Pois  assim, seo doto. S quem no qerdita em Deus no sabe perdoa!
Notando a presena de Dr. Fontes, o filho do delegado levou-o para o
quarto morturio, para que ele apresentasse as condolncias  viva.
- Pobre de meu marido - gemeu ela. Eu tanto quis que ele seguisse os
seus conselhos. Mas ningum conseguiu convenc-lo. Era obstinado. Mas,
na hora da morte, tocado pela graa divina, pediu que chamssemos
Justino. Desejava que o negro o perdoasse. E isso foi feito.
Dizendo estas palavras comoventes, a viva passava as mos carinhosas
pelo rosto de cera do morto.
- No se torture tanto, minha senhora! - pediu o Dr. Fontes,
constrangido por aquela cena.
Ali esteve entre as pessoas que tinham ido ver o delegado pela ltima
vez. A hora derradeira, quando os ntimos se movimentavam para fechar o
caixo, ele se afastou encaminhando-se para perto de Frei Jos.
Apertou-lhe a mo, em silncio. Depois, a meia voz:
- Em conversa com Bicardo, chegamos  concluso de que foi uma vitria
para o esprito o arrependimento dessa alma.
204
- Tem razo, meu amigo.
- E o heri dessa faanha, o senhor saber dizer-me quem ?
.- A conscincia dele. Foi ela que venceu a matria.
- No foi ela apenas. Quem muito fez para isso foi algum de uma
modstia incrvel...
- Quem? - perguntou o frade.
- Frei Jos! - afirmou o Dr. Fontes.
- No concordo com suas palavras, meu amigo. Somente Deus agiu nesse
caso. Ele, na sua imensa misericrdia, quis elevar, dignificar o pobre
homem. E o fez chamar Justino. Com o nobre exemplo que ele deixa, os
homens errados, que ficam, conseguem ver melhor a sua insignificncia no
mundo material. Tudo o que for edificado sobre tais alicerces ter um
dia de ruir. O preto, que ele julgava uma -coisa- sem alma nem
sentimentos, foi aquele a quem chamou na hora da morte para, com o seu
perdo, alcanar a absolvio.
- Surpresas do destino.
- Justia de Deus.
Vendo que o fretro ia partir, Dr. Fontes pegou no brao de Frei Jos e
os dois se afastaram, para dar passagem. Depois, tomaram parte no
cortejo, at o cemitrio, levando com eles o menino que ficara rfo.
Quando regressou  sua casa, o Dr. Fontes estava abatido, sem nimo para
dizer uma palavra. Sentou-se numa cadeira e ali ficou.
- Que  isso, meu velho? - perguntou a esposa.
205
- Nada. No me sinto bem. Essas emoes j no so para mim. Voc
tambm, se fosse ao enterro, ficaria como eu me sinto agora. Os anos vo
passando, as vicissitudes se tornam mais vivas, menos indulgentes ...
- Na verdade, somos quase avs. Mas da vai muito para que eu me sinta
envelhecida... - e mirou-se no espelho da chapeleira, que lhe ficava
prximo.
- Vaidosa!
- Voc no me prefere assim?
- Naturalmente. Tanto mais que o seu esprito continua a ter vinte anos.
E agora: poderia fazer-me um chazinho?
- Num instante. Mas primeiro fale-me sobre o delegado...
- No. Depois do ch...
- Est bem.
E a Senhora Fontes l se foi, depressa, pelo corredor.
Dali a pouco, Sinh-Moa entrou na sala.
- O senhor est a, Dr. Fontes? Vim cumpriment-lo.
- Obrigado, minha filha. E voc, como vai? Imagino como deve sentir-se
ansiosa pela chegada de Rodolfo!
- E de minha me. Meu desejo  que ela chegue quanto antes. Estive
construindo uns castelos... Mandaremos Lus para o Colgio dos Jesutas
e reteremos mame para sempre em nossa companhia.
- Acho que pensa muito bem. Sua me nunca encontrou sossego. A vida
foi-lhe sempre hostil e acidentada.  razovel que tenha um pouco de
tranqilidade, sem outras preocupaes que no sejam as do... neto!
Sinh-Moa sorriu. Depois, mostrou ao Dr. Fontes a touquinha de cambraia
que estava bordando:
- Pelo jeito, seu neto vai dar que fazer! Curioso, o advogado pediu-lhe
a pea do enxoval em que estava trabalhando. Sinh-Moa achou gro e
satisfez-lhe a vontade. A Senhora Fontes, que chegava com a bandeja de
ch, viu o marido absorto na contemplao da touca e lhe disse:
- Sim, senhor! Um grande homem inteiramente dominado por um pedacinho de
cambraia!
- Tudo isso  cime, minha velha?
- Pretensioso! - respondeu a mulher a rir. Fui eu que iniciei o
trabalho. Se duvidar, pergunte a Sinh-Moa.
- Muito bem, muito bem - conveio o Dr. Fontes, olhando de soslaio para a
nora, que no podia conter o riso ouvindo a discusso dos dois velhos.
- Agora, tome o ch, querido...
- Voc deseja  que eu lhe conte o caso do...
-  isso mesmo.
- Pois creiam, l vi coisas que jamais poderia esperar!
- Como? - indagaram as duas mulheres.
O advogado ficou ainda em silncio; no sabia como principiar.
207
- Conte logo, Fontes! Para que nos quer matar de curiosidade?
- Eu adivinho - disse Sinh-Moa. Ele,  hora derradeira, acusou o juiz
e o presidente da Provncia como responsveis pela sua morte. No foi
isso mesmo que se deu?
- E nisso, por acaso, haver alguma surpresa?
- No quero alongar-me em pormenores. Apenas direi que o delegado, ao
sentir-se morrer, pediu a presena de Justino.
- Para insult-lo? - perguntou a Senhora Fontes.
- No. Para pedir-lhe perdo.
As duas mulheres mostravam-se incrdulas. Foi preciso que o Dr. Fontes
dissesse com a gravidade habitual:
- No h a menor dvida. Frei Jos contou-me que foi uma cena de
verdadeira edificao para todos os que a assistiram.
- Deus Nosso Senhor seja louvado pela sua imensa misericrdia! -
exclamou Sinh-Moa, ajeitando os ps cansados no banquinho que lhe
ficava prximo.
Depois, absorta num pensamento:
- Rodolfo  que vai ficar contente...
Captulo 19
Os dias, compridos e iguais, foram passando sem que Rodolfo tivesse
podido regressar. Embora as notcias dele chegassem dirias, Sinh-Moa
sentia-se preocupada. Desejava-o ali perto, acompanhando os trabalhos
divinos da maternidade.
O sono j no lhe era to calmo, to sossegado. Algumas vezes, acordava
com falta de ar. O corpo doa-lhe muito . . . Com as viglias,
mostrava-se abatida; um cansao pesado atormentava-a incessantemente.
Acabou por escrever ao marido pedindo-lhe que trouxesse D. Cndida e
deixasse os negcios para depois. Sentia necessidade de t-lo junto a
si, seguindo todos os minutos de sua abenoada maternidade.
Uma tarde, numa bela surpresa, Rodolfo entrou pela porta adentro.
Sinh-Moa descansava  sombra benfazeja de uma laranjeira. Ela gostava
de passar horas ao ar livre admirando o cenrio da natureza sempre em
festa. E, assim, ali ficava horas esquecidas, vendo a abelha que pousava
na flor, a folha que estremecia ao beijo das viraes, ouvindo o trilar
dos grilos ou o gorjear melanclico de um sabi. Tudo isso era para ela
motivo de satisfao.
209
Sentia que nesse quadro natural o fruto de suas entranhas se desenvolvia
num mpeto de vida. Desejava que o delicado ser em formao participasse
daquela harmonia, daquela beleza que entrava pelos olhos e cantava no
corao. Sim, porque Sinh-Moa sentia o amor, a paixo, como se sente
uma grande beleza espiritual, que nos alumia, que nos impregna de
qualquer coisa de azul. Ela no se entregava ao amor como tantos outros.
Para ela, a aproximao de dois seres representava a prpria beleza na
sua mais alta expresso.
Sinh-Moa pensava nessas coisas quando Rodolfo surgiu na porta do
quintal. Ele ficou parado, a contempl-la. Depois correu at ela,
dizendo:
- Estou com cimes dessas flores e dessas borboletas !
A jovem esposa levantou os olhos, viu-o e fez meno de levantar-se.
- No se levante da.
Ela sorria.
- Ah! Rodolfo! Se os homens soubessem o que custaram a suas mes!
- Est por pouco... Quando -ele- chegar, voc j ter esquecido tudo
isso. As mes sabem esquecer-se, como sabem lembrar-se. Ouvindo o vagido
do filho, apertando-o junto ao seio, o sacrifcio  dado por bem pago,
por divinamente pago.
- D-me o seu brao. Vamos para dentro. D. Cndida deve estar aflita, 
sua espera.
210
- Que bom, Rodolfo! Mas por que motivo voc demorou tanto para voltar?
- Coisas imprevistas. O presidente da Provncia, sabendo que eu estava
em Araruna, mandou um seu parente propor a compra da fazenda.
- Ele - disse o mensageiro - sabia que a fazenda era tima. Magnfico
cafezal, bons pastos, guas de primeira. At sobre o rio Arari ele
falou. Depois, veio a oferta, por sinal bem vantajosa para sua me...
Conversei com D. Cndida e fiz a contraproposta, que foi aceita. Como
no era nossa inteno deixar sua me sozinha, ela se preocupa muito com
voc, com o nosso filho... resolvemos fechar o negcio, o que foi feito
ontem mesmo.
Diante disso, tivemos de esperar a chegada do representante do
presidente da Provncia; recebemos o sinal e tudo ficou assentado. As
ltimas formalidades sero levadas a efeito aqui. Assim  melhor, para
que meu pai, que se especializou na matria, possa assistir de perto 
transao.
- Foi melhor assim. Se havia em Araruna recordaes amveis, como o
nosso encontro, o nosso noivado, os idlios naquele jardim marchetado de
flores e por ltimo o nosso casamento, havia tambm aqueles quadros
espantosos que eu prefiro esquecer, para sempre. Eu no gostaria,
Rodolfo, que o nosso menino...
- Menino, Sinh-Moa? Voc tem certeza disso? Rodolfo amparou-a
docemente e os dois subiram a escada do quintal. Ela mostrou-se
fatigada, mas assim mesmo falou:
211
- . No entanto, se no for tambm no faz mal. - Mas - como estava
dizendo - eu no gostaria que... brincasse naqueles lugares.
D. Cndida vinha pelo corredor. Estava afogueada pela viagem. Ao ver a
filha, atirou-se nos seus braos.
- J ia busc-los! Que conversa comprida foi essa?
- Ah! minha me! No deve esquecer-se de que eu j no sou aquela
esbelta menina...
D. Cndida ficou penalizada. Levou a filha para a sala de jantar, f-la
descansar numa cadeira de balano e puxando um tamborete para perto,
iniciou as suas confidencias:
- Sabe? Estou encantada com Rodolfo. Agora estou certa de que tenho mais
um filho...
Virgnia aproximou-se, botando a sua colher torta na conversa.
- Pois  verdade, mermu! Vassunc, sinhazinha, vai s feliz! Nosso Sinh
h de premia, mandando um sinhozinho, taliqu uma fr de buniteza!
Sinh-Moa convenceu-se.
- Minha querida Virgnia, eu sei que as suas profecias no falham. Por
isso, essas palavras me deixam to contente...
A Senhora Fontes veio l de dentro, com os filhos.
- Por que no vm ter conosco?
- A conversa aqui estava muito animada... - disse Rodolfo.
- Est bem. Mas Sinh-Moa no deve fatigar-se.
- Minha me tem razo...
212
E, dizendo isso, estirou os braos para carregar Sinh-Moa, mas a jovem
se ops, mostrando susto.
- No se esquea, Rodolfo, de que o nosso filho  muito cheio de
vontades. Vai ser o mando desta casa.
- J? To prepotente? No o eduque to mal, minha mulher!
Ricardo espetou para o cu o fura-bolos e sentenciou:
- Em pequenino  que se torce o pepino!
- Indiscreto! - ralhou Sinh-Moa. E todos riram.
- Penitencio-me da falta, minha cara senhora... - respondeu o rapaz, que
no perdia o seu jeito de menino levado da breca.
A Senhora Fontes interveio;
- E havia de ser voc, Ricardo, o representante do bom senso nesta casa?
Estou certa de que voc ser o primeiro a estragar a educao de meu
neto, fazendo-lhe todas as vontades...
- Ora, isso que a senhora est dizendo no passa de uma hiptese!
- Veremos, veremos...
Sinh-Moa manifestou grande alegria. E exclamou:
- Olhem quem vem a!
Todos se voltaram para a porta do corredor. Lus entrou com o cachorro
Fiel pela coleira. Ao ver-se alvo de tanta curiosidade, mostrou-se
acanhado. E para disfarar atirou-se nos braos da irm.
213
- Ih! Sinh-Moa, como voc est bonita!
- Bobinho! Voc no sabe que, a quem ama, o feio bonito lhe parece? - e
beijou-o carinhosamente.
- O Lus est dizendo a verdade! - exclamou Rodolfo.
- Quando  que voc vai criar juzo, meu marido? Depois, enquanto todos
conversavam, Sinh-Moa levantou-se e levou a me para seu quarto.
- Venha ver o enxovalzinho. Rodolfo, porm, estava vigilante.
- Ora, Sinh-Moa! H tempo para isso. Sua me vai ficar conosco. Agora
voc deveria repousar um pouco.
- Pois eu fico aqui, com o Dr. Fontes e o Fiel... - exclamou Lus.
D. Cndida sentiu-se aborrecida.
- Que liberdades so essas, menino? Quem lhe permitiu falar nesse tom?
- Foi o prprio Dr. Fontes, na fazenda, por ocasio do casamento de
Sinh-Moa.
A Senhora Fontes achou graa naquilo.
- Ele tem razo. Meu marido prometeu. E promessa  dvida.
Sinh-Moa voltou-se da porta.
- V brincar, Lus. Voc j esteve no quintal. Pois l tem muito que
ver.
- Quero ver as roupinhas -do senhor meu neto!
- A mezinha - segredou Sinh-Moa, olhando afetuosamente para a Senhora
Fontes - fez as mantas e as bordou. No esto lindas?
214
- Eu tambm fiz alguma coisa para ele. Virgnia, venha abrir o ba!
Virgnia, sentindo-se feliz em receber essa ordem que lhe permitia
admirar os mimos que D. Cndida trouxera para sinhozinho, foi logo abrir
o ba de lata, com uma rosa na tampa. E, com muito cuidado, comeou a
tirar as peas, embrulhadas em papel de seda, trescalante a alfazema e a
razes cheirosas. Colocava-as no colo de D. Cndida que, apressadamente,
as abria.
Sinh-Moa era toda olhos. Aguardava a surpresa com alvoroo de uma
menina a quem se prometeu boneca vistosa. Do embrulho comearam a surgir
sapatinhos de l, azuis como no-te-esqueas-de-mim, rseos como as
faces de recm-nascidos, alvos como pompons de p-de-arroz. Sapatinhos
enfeitados de linha de seda e de rosinhas rococ. Um dilvio, um
mundaru de coisas bonitas e delicadas!
Rodolfo e a mulher seguravam as peas feitas para o filho. Faziam-no com
tanta doura, com tanto encantamento, como se fosse um pouquinho deles
mesmos que estivessem sentindo nas mos.
A Senhora Fontes, examinando atentamente aquelas jias de seda e l,
elogiava a perfeio do trabalho.
- L francesa? - perguntou ela.
- Sim, senhora... - respondeu D. Cndida, com uma pontinha de vaidade.
Fora Frei Jos quem, por nmia gentileza, mandara busc-la na Bahia,
numa casa que recebia esses artigos diretamente de Paris.
215
- At Frei Jos! - exclamou Ricardo. O menino vem mesmo como prncipe.
Dr. Fontes apareceu  porta e se ps a rir.
- Que falatrio, santo Deus! De longe a gente ouve a conversa animada de
vocs! Que h de novo por aqui? Temos festa?
S ento viu D. Cndida. Dirigiu-se a ela:
- Agora compreendo a razo de toda esta alegria. A senhora fez boa
viagem? Quando chegou? E voc, Lus?
O advogado abriu os braos e o menino atirou-se neles, dando expanso a
uma alegria incontida:
- Vim para morar com o senhor. Mame ir para casa com Sinh-Moa e o
nen. Mas eu fico.
- timo, Lus - disse Dr. Fontes, achando graa na espontaneidade do
menino.
As conversas prosseguiam animadas. Rodolfo chamou o pai para um canto e
explicou-lhe pormenorizadamente o negcio que havia fechado e que era a
venda da fazenda Araruna. O Dr. Fontes fez-lhe algumas perguntas e
diante das respostas do filho achou que a transao tinha sido tima.
Virgnia e Bastio seguiram para a casa de Sinh-Moa. L estava a velha
Ba, que arranjara tudo com esmero para receber os queridos hspedes. Ela
sabia que, agradando D. Cndida e Lus, alegrava o corao de
Sinh-Moa.
- Louvado seja Nosso Sinh! To adivinhano que meceis to chegano da
casa-grande pru morde no dex a famia. Seu doto conto que iam vende a
fazenda...
218
- Como voc est linda, assim, aureolada pelo sofrimento! Cada dor que a
lanceia  uma centelha de luz que espalha para o despertar de uma nova
vida!  sagrada trajetria para oferecer ao mundo um ser criado  sua
prpria imagem, com a sua beleza e as suas virtudes!
Inebriada pelos beijos apaixonados de Rodolfo, a jovem achegou-se mais a
ele, para confessar lhe em segredo:
- Mas... tenho medo... A medida que os dias passam o sofrimento
aumenta... No sei se poderei suportar... Repare agora para mim: tenho
os cabelos molhados de suor. E as dores so mais fortes.
Surpreendido com as palavras de Sinh-Moa, o marido ergueu o busto e
olhou-a com maior ateno. Notou que ela estava mais plida, mida de
suor e seus olhos tarjados de escuro. Sem deixar transparecer
preocupaes, para no assust-la, o marido esperou passar um tempo,
pretextou uma desculpa e tentou afastar-se. Mas Sinh-Moa no quis
deix-lo sair dali, com receio de ficar sozinha. Rodolfo foi  porta e
chamou:
- Bastio!
- To aqui, seu doto!
- V depressa  casa de mame e chame D. Cndida. Diga-lhe que venha j.
- Eu v num pulo...
E se bem disse, melhor fez; precipitou-se pela porta e perdeu-se na rua
quieta, banhada de sol.
219
Quando Rodolfo voltou ao leito, Sinh-Moa estava a torcer-se de dor.
- No posso mais, acho que vou desmaiar. As dores esto aumentando de
minuto para minuto.
- Tenha pacincia, querida! Dentro de algumas horas voc j no se
lembrar mais disso!
Rodolfo, aflito, foi vrias vezes  janela e perscrutou o fim da rua.
Ningum. De repente, voltou muito animado:
- Vieram todos!
- Onde esto?
- Na esquina, chegam j...
De fato, D. Cndida e os pais de Rodolfo chegaram apressados, fazendo
perguntas  Virgnia,  velha Ba e at ao pobre Bastio. Com eles veio
um senhor idoso, de fraque, com uma maleta na mo. Era o Dr. Moreira.
Ele foi entrando no quarto sem pedir licena, fechou-se por dentro com
Rodolfo e, minutos depois, saiu para anunciar s pessoas que estavam na
sala de visitas:
- Dentro de poucos momentos tudo estar resolvido. Seu pulso est timo.
Ela  muito animosa e a criana vir sem novidade.
- Hoje, doutor? - perguntou D. Cndida, assustada.
- Sim, minha senhora; o nascituro quer antecipar a festa...
Ouvindo o mdico falar com tanta segurana, Sinh-Moa recobrou o nimo.
No oratrio do quarto dos fundos Virgnia rezava, desfiando entre seus
dedos
220
nodosos as contas do rosrio. Pedia  Virgem que aliviasse as dores de
sua sinhazinha. Quando a velha Ba passou por ali, Virgnia voltou-se e
perguntou: - Eu num tava falano? Sinhazinha num podia espera mais...
Na cozinha, Bastio auxiliava a tia Ba a encher as grandes vasilhas para
que no faltasse gua quente.
Dr. Fontes, emudecido pela emoo, passeava de um lado para outro. De
quando em quando, consultava o relgio.. Ricardo, na sala de visitas,
leu um artigo da Provncia de So Paulo. Depois de ler, perguntou a si
mesmo:
- Mas, afinal, de que trata esse artigo?!...
Junto de Sinh-Moa, a Senhora Fontes e D. Cndida auxiliavam o Dr.
Otvio Moreira. De repente, o mdico exclamou:
- Ei-lo!
Essas palavras foram acompanhadas pelo chorinho aflito do recm-nascido.
Sinh-Moa enxugou os olhos e pediu que lhe mostrassem o filho. Sua
ventura era to grande que superou o abatimento em que ela se
encontrava. Foi ento que a voz de Rodolfo se fez ouvir:
-  uma menina. Linda como voc! Sinh-Moa estendeu os braos para
receber a filha, mas as pessoas que a rodeavam disseram quase ao mesmo
tempo:
- Depois, depois...
- Precisamos vesti-la para no resfriar-se... - exclamou Rodolfo.
221
- Pois eu no consigo vencer a impacincia de apert-la contra o meu
corao.
Dr. Otvio Moreira entregou a menina a D. Cndida, abraou Rodolfo,
cumprimentou Sinh-Moa e as avs e saiu do quarto. Na porta, encontrou
Dr. Fontes e Ricardo que, tendo ouvido o vagido da criana, para l
haviam corrido,  espera da boa notcia.
O mdico, vendo-os ali, anunciou:
- J chegou Sua Alteza!
- O Prncipe! - perguntou Ricardo.
- No: a Princesa.
Ento o rapaz, com uma pontilha de mgoa, verdadeira ou fingida, ps-se
a lamentar:
-  uma pena... Eu preferia um menino!
- Pois eu me sinto contente com isso - disse o advogado. Estava faltando
uma menina em nossa casa. Dr. Otvio Moreira, podemos v-la?
- Ainda no; deixemos descansar um pouco a nova mame. Voc est-me
saindo um av muito impa-
ciente ...
- Vejam quem est falando... Eu gostaria de ver voc no meu caso!
J na porta, de chapu na mo, despedindo-se, Dr. Otvio Moreira disse a
rir:
- Ora, eu tambm sou candidato a sogro. Para me livrar de dvidas, j
estou lendo a -Arte de ser av- de Vtor Hugo.
Dr. Fontes lembrou-se de uma coisa e gritou ao mdico, que j ia a uns
dez passos:
222
- Dr. Otvio Moreira! Comunique a novidade em nosso nome a Frei Jos;
ele nunca nos perdoaria essa falta...
 Ele voltou-se:
- Estive ontem com ele, est animadssimo! Ricardo disse ao pai: '
- No  para menos. No dia 2 de abril, pela Lei Provincial n? 27, a
nossa vila de Araras ser elevada  categoria de cidade! Frei Jos no
cabe em si de contentamento.
Voltando para dentro e esfregando as mos de alegria, o advogado no
escondia o seu desejo de conhecer logo a neta. O vagido insistente que
vinha do quarto de Sinh-Moa dava-lhe a impresso de ser um chamado da
pequerrucha, para que o av fosse v-la. Afinal, no podendo resistir
mais, bateu  porta.
- Quem ? - indagou baixinho sua esposa.
- Ora, minha mulher-disse o Dr. Fontes - ento  s voc que tem o
direito de estar com a menina? Que egosmo!
- Pronto! J querem brigar por causa da menina - observou Ricardo que,
por trs do pai, queria conhecer a sobrinha.
- Longe disso, seus curiosos! Eu estava preparando a mocinha para
apresent-la na sociedade...
- Entrem! - disse D. Cndida, sentada na borda do leito.
O quarto estava envolto numa penumbra que convidava  contribuio.
Trescalava a alfazema e gua de flores de laranjeira. Sinh-Moa,
deitada, aconchegava  ao seio o pequenino boto de rosa que se sentia
feliz no regao de sua jovem me, Tudo ali respirava felicidade. E
Rodolfo, sem saber o que fazer, acariciava os cabelos dourados da
esposa.
223
- Deixe-me v-la - pediu o Dr. Fontes, quebrando o silncio leve que ali
reinava.
D. Cndida debruou-se na cama, pegou cuidadosamente a menina e a deps
nos braos do av.
- Como  linda! - exclamou ele. Ricardo tambm quis ador-la.
- O senhor tem razo, papai.
E, examinando a menina, ps-se a descrev-la a seu modo:
- ... olhos que lembram esmeraldas vivas. Dedinhos que falam de
espiritualidade: pequenos, afilados, de unhas amendoadas...
- Vocs me deixam muito vaidosa ao falarem de minha filha... - respondeu
Sinh-Moa, experimentando uma sensao nova e muito doce ao proferir
essa expresso -minha filha-.
Estendeu as mos ainda frias para Ricardo, num belo sorriso de
agradecimento.
- Ricardo tem razo em deslumbrar-se com a menina. As senhoras no
acham?
E se dirigiu ao pai:
- Que diz o senhor?
- A mesma coisa; as palavras de Ricardo representam a expresso da
verdade.
Virgnia entrou, interrompendo aquele rasgar de sedas. Trazia a bandeja
de prata dos grandes dias nela a xcara de faiana azul, com um caldo
apetitoso, para Sinh-Moa.
224
- Vassunceis do licena? Sinhazinha agora percisa r alimenta. A minina
t i bunita que nem rosa. Ela vai quer s muito bem tratada...
-  isso mesmo! - respondeu D. Cndida. Rodolfo pareceu recobrar a
calma, depois de tantas emoes:
- D-me, Virgnia, eu mesmo quero ter a honra de servir minha mulher.
Dizendo isso, tomou a colher de prata que a mucama lhe apresentava e
levou aos lbios de Sinh-Moa, ainda largada na cama, sem foras, o
caldo cheiroso que deveria reanim-la.
- Voc precisa tomar toda esta xcara de caldo, minha querida. Quero-a
boa e isso depressa!
Enternecida, Sinh-Moa aceitava o alimento que lhe dava o marido. E
olhava repetidamente para seu rosto.
- Que  isso, meu amor? Voc est-me desconhecendo?
- No. Estou encontrando na sua fisionomia os mesmos traos que compem
a fisionomia de nossa filha...
Todos riram.
E ela tambm cheia de um grande, de um profundo contentamento.
Captulo 20
FREI Jos entrou pela casa adentro, a dizer: - S hoje pude vir conhecer
a menina, que Deus a faa feliz! S hoje pude vir contar como foi bonita
a festa da elevao do nosso povoado  categoria de cidade!
Entregou o chapu a D. Cndida, escolheu uma cadeira e sentou-se. Depois
de tomar alento, prosseguiu:
- O presidente da Provncia quis premiar os esforos do nosso povo
promovendo essa elevao. Com certeza o Dr. Fontes e os filhos j lhes
contaram como isso se deu.  bem um progresso bandeirante. No contente
em formar a linda Piratininga, quer transformar em grandes cidades os
pequenos povoados do interior! Venho tambm convid-los para assistirem
 cerimnia da colocao da pedra fundamental da nova matriz, no dia 15
de agosto. Ser uma festa lindssima e espero que todos os amigos l
estejam presentes. Se lhes disser, D. Cndida, que ainda sinto
Sinh-Moa no ter podido comparecer  solenidade da ascenso de nossa
vila! Ela que  to entusiasta das coisas do progresso!
- Mas o senhor no acha, Frei Jos, que esse desprazer para ela foi bem
compensado pelo nascimento da filha? - perguntou a velha um pouco amuada
por achar que a netinha ficara em segundo plano no esprito do
religioso.
226
Frei Jos, que lia nos rostos como em livros abertos compreendeu o
pensamento de D. Cndida e procurou corrigir a tempo a m impresso
causada pelas suas palavras. Perguntou:
- A menina continua bem disposta? J lhe escolheram o nome!
-  uma criana fora do comum - exclamou D. Cndida, satisfeita de poder
falar na netinha. Rodolfo e Sinh-Moa deram-lhe o nome de Maria Camila.
- Gosto desse nome;  muito expressivo. Mas eu no poderia v-la?
- Vou chamar Sinh-Moa, para mostr-la.
- No se incomode, D. Cndida. Talvez Sinh-Moa esteja descansando ou
fazendo-a adormecer. Voltarei outro dia.
- No senhor, no consinto! Seria possvel deix-lo ir-se embora sem
conhecer Maria Camila? Com licena. .. Um instantinho...
Antes mesmo da me chegar ao quarto, Sinh-Moa, que ouvira a voz de
Frei Jos, para ela to familiar, j havia tirado a filha do bero e a
levava para a sala.
-  Frei Jos! Bons olhos o vejam! H quanto tempo que desejava
apresentar-lhe Maria Camila. Eu j estava ficando triste. Tinha a
impresso de que o senhor nos havia esquecido!
227
- No quero fazer a injustia de supor que est falando sinceramente...
- replicou o religioso. Sabe muito bem que s motivos imperiosos me
fariam declinar do prazer de vir imediatamente conhecer sua filha. O Dr.
Fontes, Rodolfo e Ricardo no a informaram da elevao do nosso povoado
de Araras  categoria de cidade, precisamente no dia do nascimento de
Maria Camila?
- Perdoe-me, Frei Jos. Queria ver o que o senhor me respondia. E, a
propsito, quero felicit-lo por mais essa vitria.
- No cabem a mim tais cumprimentos, mas a todos os filhos de Araras,
que tanto labutaram para que o seu ideal se tornasse realidade.
- Ningum mais do que eu, Frei Jos, sabe o quanto trabalhou para essa
elevao. Estou aflita para poder sair, visitar nosso ex-povoado, to
potico na sua simplicidade. Quero voltar a ver as suas encostas, os
mansos ribeires das Furnas e Arari...
Maria Camila dormia. O frade afagou-lhe o rosto rosado e disse:
- Voc ter de ser como sua me, o anjo bom destas plagas... Ouviu?
- Agora o senhor me fez lembrar tanta coisa... Com o nascimento de Maria
Camila eu fiquei um tanto alheia a muitos assuntos, entre os quais
aqueles que em solteira mais me interessavam. Que me conta sobre a
abolio?
- Sempre interessada pela sorte dos escravos... Pois esse assunto que
tanto agitou os seus dias de adolescncia e depois, no apogeu da sua
felicidade pessoal, ainda a preocupa... No se esquece jamais do
sofrimento dos humildes!
228
- Mas essa  a obrigao de todas as criaturas. Devemos assistir ao
nosso semelhante, procurando proporcionar-lhe os meios para que ele
tambm seja feliz!
- Se todos pensassem assim - suspirou Frei Jos - o mundo estaria bem
melhor. Quanto  situao geral, Sinh-Moa, devo dizer-lhe que 
promissora. Embora, como  natural, haja da parte de certos fazendeiros
uma guerra surda e egosta para que a voz dos abolicionistas no
encontre eco, a campanha sagrada da redeno do homem negro cada dia se
torna mais forte e consegue numerosos adeptos.
- No imagina, Frei Jos, como me sinto feliz com as suas notcias. Esta
menina ter a ventura de ver, com a libertao dos cativos, sua terra
erguer-se entre as outras, de um modo moral e espiritual. Essa vitria
destruir a tirania que a oprime, cobrindo-a de maldies. Cessaro os
gemidos dos escravos algemados, os soluos das mes que assistem ao
sacrifcio de seus filhos nos troncos e nas enxovias...
- Nossa Senhora do Patrocnio tornar uma realidade  o seu sonho de
tantos anos! Sua filha ver a glorificao de seu ideal. Tenho tantas
providncias a tomar para o grande dia de Araras! Por que no aproveita
para batizar Maria Camila? Assim, seriam duas festas ao mesmo tempo!
- Sua idia  deveras tentadora. A dvida, porm, est na escolha dos
padrinhos. Preciso conversar a esse respeito com Rodolfo. Para mim, esse
problema me parece mais difcil no momento do que a prpria emancipao
dos escravos!
- Sinh-Moa no perde o bom humor! - exclamou o religioso. A senhora
no acha, D. Cndida?
A velha sorriu, acariciou a neta e respondeu:
- Na qualidade de av, acho que o ttulo de madrinha deve ser conferido
 Senhora Fontes. Mas isso  l com os pais de Maria Camila.
- Sinh-Moa tem receio de mago-la, D. Cndida ... - observou o frade.
- No tem motivos para isso. Eu a deixo inteiramente  vontade. Para
mim, a satisfao de ser av me faz declinar de qualquer outra
prerrogativa.
- Se assim  - respondeu Sinh-Moa, visivelmente satisfeita com a
soluo desse problema que a azucrinava - poderemos batizar Maria Camila
no dia 15 de agosto.
- Est bem. Mas antes disso espero visit-la novamente.
- At l, Frei Jos.
- At l,menina... - e saiu depressa, para no chegar tarde.
Dali a pouco Sinh-Moa ouviu os passos do marido, que chegava do
escritrio.
- Voc to cedo? - indagou a jovem, beijando o marido. Que aconteceu?
Por pouco encontrava Frei Jos, que veio conhecer Maria Camila e
contar-nos as novidades da terra. Ele nos disse que a pedra fundamental
da matriz ser colocada no dia 15 deste ms.
230
-  verdade, querida. Eu j vi o desenho dessa pedra; ser em basalto,
com uma cruz cravada no centro. Nela sero postas moedas de ouro, prata,
nrfuel e cobre, para perpetuar a poca.
- Pois eu disse a Frei Jos que nesse dia batizaria Maria Camila.  do
seu agrado essa minha lembrana!
- Eu s posso aplaudir a sua lembrana. Dizendo isso, Rodolfo descobriu
o rostinho da filha, que dormia sob as rendas da blusa de Sinh-Moa.
Depois de beij-la enternecidamente, perguntou:
- E sobre os padrinhos? J tem alguma idia?
- Escolhi seus pais. Mame declinou do convite. Contenta-se com o ttulo
de av... Mas voc fugiu  minha pergunta: por que voltou to cedo?
- Isso porventura a aborrece?
- Que pergunta! Voc no me entendeu. Sabe que a minha satisfao seria
t-lo constantemente a meu lado. Mas tendo voc voltado
desacostumadamente to cedo, poderia ser algum motivo grave... Quem
sabe?
- No, bobinha. Tive uma folga. Um cliente que esperava foi a So Paulo
e eu pude vir matar saudades de minha mulher e minha filha.
- No quer segur-la um pouco? - indagou Sinh-Moa entregando Maria
Camila ao marido. Mas a menina acordou e comeou a chorar, estranhando
os modos desajeitados do pai.
231
- Tome-a, Sinh-Moa, ela no me quer...
- Pois  preciso aprender a carreg-la. Quer ver?- e aconchegou a menina
ao peito do marido que, na nsia de agradar a filha, comeou a
cantarolar. E conseguiu o que queria: a criana no chorou mais.
- Eu no lhe disse? Agora  s praticar um pouco e acabar ninando
perfeitamente Maria Camila ...
E os dias foram-se passando. Os meses, os anos...
A vida de Maria Camila se desenvolvia cheia de ventura. Ia crescendo sob
as vistas da me. Esta, como jardineiro zeloso, no deixava de vigi-la
com carinho, como a mais preciosa das plantas.
Muita vez, Frei Jos foi visitar a famlia e vendo Maria Camila que
andava a correr de um lado para outro, na alegria dos seis anos, dizia:
- Tal me, tal filha! Estou  ver Sinh-Moa, com a mesma idade, a
brincar na casa-grande de Araruna! Ela se repetindo na filha!
-  isso mesmo - confirmava o av. Se todas as mes compreendessem a sua
responsabilidade... Se elas compreendessem que o altar da ptria se
constri no lar e que s a elas compete realizar essa obra! Ah! Ento o
mundo seria completamente feliz...
- O senhor tem razo, Dr. Fontes. A est o exemplo. Sinh-Moa, aliando
a sua cultura  sua inteligncia, a sua bondade aos sagrados deveres de
me, est formando com esta menina uma esplndida realidade para o
futuro!
232
Rodolfo, que a um canto da sala conversava com Ricardo, interveio:
- Estou gostando de ouvi-los. Sinto-me por tudo isso um homem feliz.
Possuo a mais encantadora mulher, que sabe ser esposa e me. Uma filha
que se torna pouco a pouco o retrato vivo de Sinh-Moa... A que mais
posso aspirar?
Ricardo, com seu eterno bom humor, falou:
- Meu irmo, voc bem poderia ensinar-me a descobrir felicidade
semelhante!
Maria Camila, que o queria perdidamente e, sem parecer, estava ouvindo
aquelas palavras, abraou-lhe os joelhos e respondeu:
- Eu ensino, titio!
Captulo 21
Uma vez, Sinh-Moa, dando por falta de Maria Camila, saiu a procur-la
pela chcara. Foi encontr-la junto  grade, conversando com Justino
que, todas as tardes, com verdadeira devoo, ia visitar os antigos
senhores. Ele j estava alquebrado menos pelos anos que pelos
infortnios.
Sinh-Moa, ao v-los assim, escondeu-se atrs do p de reseds, coberto
de flores, e ficou a ouvi-los.
A menina, sria, compenetrada, acariciava a cabea grisalha do escravo e
dizia-lhe:
- Por que est triste, Pai Justino? Mame diz sempre que a gente para
ser feliz no deve procurar a felicidade apenas para si. Deve desej-la
para todos, ouviu? Papai fala sempre que a liberdade dos escravos ser
hoje ou amanh...
- Qu, sinhazinha! Preto Justino nunca ser livre. T veio, t doente...
- e se ps a chorar.
Maria Camila, com a ponta do avental, procurou enxugar-lhe as lgrimas.
Justino, que ouvia atentamente, passou as costas das mos pelos olhos,
fitou a menina e comeou a rir, com um riso franco de quem desperta de
um pesadelo e sente que todos os seus padecimentos eram em vo.
234
Era a primeira vez que Sinha-Moa via Justino rir, rir com aquela
plenitude de corao.  que Maria Camila, com sua simplicidade, havia
afugentado as nuvens que toldavam a alma delicada do escravo.
A menina, porm, no conseguiu explicar a si mesma a razo daquela
alegria de Justino. Olhava-o assustada. Seus olhinhos curiosos se
fixaram no rosto do negro, numa indagao.
- Por que est rindo, Pai Justino?
- Nunca fica cum medo do nego, sinhazinha! Vassunc que  to boa num
intendeu que tiro de meu corao o peso de um morro como aquele que t
l longe. Arma de Justino t leve, leve como passarinho. Pode int voa!
Perplexa, Maria Camila continuava a olhar o escravo numa voz muito
cansada de quem estava exausto, de quem sofria muito, de quem fora
sacudido por uma forte emoo.
- Pai Justino t livre de hoje em diante - dizia ele, a fisionomia
iluminada por uma nova felicidade que s agora lhe fora dado conhecer.
Agora, sim, j posso morre, porque int pra morre percisa a gente s
livre de conscincia... Frei Jos  quem tem mermo razo!
Vendo que Justino falava cada vez com maior dificuldade e que Maria
Camila estava plida de emoo, Sinh-Moa aproximou-se e perguntou:
- Que fazem os dois aqui? Maria Camila, voc no est fatigando Justino
com a sua tagarelice?
235
- Eu, mame? Eu estava ensinando Pai Justino a ser feliz!
-  isso, Sinh-Moa. Ela est aperparano a arma do nego veio, pra ele
entrega a Nosso Sinh!
- Por que diz isso, Justino? Voc est apenas cansado. Vamos para casa.
Vou mandar Virgnia dar-lhe uma cuia de garapa e tudo passar. Aqui fora
est fazendo frio. Crianas e velhos - disse ela, forando um riso que
modificasse aquela situao - por este tempo no devem apanhar sereno...
-  verdade, Pai Justino - interveio Maria Camila criando alma nova com
a presena e as palavras da me - se ficar doente no ir  festa de que
falei...
O escravo esboou um sorriso incrdulo de quem j no tinha mais
esperanas de ver alguma coisa neste mundo e respondeu, s para
contentar a menina:
- Num arreceie isso, sinhazinha. Nego veio t forte. Ele vai  festa,
sim.
E, dizendo isso, sentia a morte no corao.
- Vamos, minha filha! - disse Sinh-Moa, aflita, pois percebia o estado
de Justino. Queria levar o escravo para casa e mandar chamar o Dr.
Otvio Moreira.
Mal tinham dado alguns passos em direo  porta, quando ouviram o
galopar de um cavalo. Sinh-Moa, que auxiliava Justino a caminhar,
olhou para trs e reconheceu Rodolfo, que apeava do cavalo, diante do
porto. Assustou-se com a brusca chegada do marido. Perdeu-se em mil
conjecturas. Algum da famlia teria adoecido? E ainda estava nessa
aflio quando Kodolfo, sem esperar, gritou-lhe:
236
- Sabe, Sinh-Moa?
- Sabe o qu? Meu Deus! Diga logo! Rodolfo entrou pelo porto adentro,
exaltadamente alegre.
- O dia de hoje, 8 de abril de 1888, ficar para sempre na histria de
nossa terra! A campanha abolicionista venceu em nossa terra! A campanha
abolicionista venceu em nossa terra, com a libertao do ltimo escravo
que aqui existia!
- Viva a liberdade! Justino est livre? exclamou Sinh-Moa, seguida de
Maria Camila, que batia palmas com indizvel satisfao.
Depois, a menina voltou-se para o negro, que parecia ter piorado com a
emoo, pois a cabea tombara-lhe de um lado, sobre o ombro, e
falou-lhe:
- Eu no lhe disse, Pai Justino?...
O antigo escravo fez grande esforo, mas s conseguiu balbuciar:
- Viva a liberdade, sinhazinha! Nosso Sinh benoe us branco que
redimiro us escravo!
Depois, fechando os olhos docemente, como quem adormece, sem o menor
estremecimento, numa tranqilidade, numa serenidade de homem justo,
quite com a sua prpria conscincia, morreu.
Sinh-Moa e Rodolfo perceberam o que havia acontecido e se entreolharam
penalizados. No quiseram, no entanto, que Maria Camila conhecesse a
realidade. Preferiram que a menina o julgasse adormecido de cansao. Mas
a menina chegou-se a Pai Justino e se ps a alisar-lhe a carapinha, e as
mos calosas que j no sentiam mais as suas demonstraes de afeto, e
no tiveram coragem de afastar a filha dali.
237
- Formoso smbolo! - disse Rodolfo abraando Sinh-Moa que, por essa
altura, j no conseguia conter as lgrimas.
- Veja... A Primavera, o Porvir, acariciando o velho escravo que foi
algemado, repudiado, martirizado, e morreu livre, no momento memorvel
da sua emancipao. Jamais poderemos esquecer - insistia Rodolfo,
passando as mos pelos cabelos dourados da filha - o dia 8 de abril de
1888!
- E a primazia coube  nossa pequenina terra!
- Nisso, nossa terra deve muito a voc e ao nosso admirvel Frei Jos.
- A mim? Ser possvel? No acredito. Mas a voc,  sua famlia, a Frei
Jos! - respondeu ela com veemncia.
Maria Camila, alheia ao que conversavam, continuava a alisar a cabea de
Justino, esperando que ele acordasse do seu sono para tomar parte na
festa.
- Sinh-Moa, voc poder dizer com orgulho: dei alforria a todos os
escravos do meu torro, que com seu sangue e seu suor regaram este solo,
fazendo-o rico e produtivo. Sim, minha mulher, esse trabalho magnfico
foi feito exclusivamente por idealistas como voc! - e os dois
continuaram a olhar a filha que, com seu gesto de bondade, continuava
ali o que eles tinham feito pela abolio da escravatura.
238
Sinh-Moa olhou para Justino e para o cu, dizendo:
- Se Deus entrasse no corao de todos os homens e lhes desse, por todo
o Brasil, de norte a sul, um grande sentimento de humanidade...
- Voc tem razo, minha mulher. E hoje podemos dizer, convictos: com a
redeno do homem negro, ganhamos mais uma esplndida vitria para a
nacionalidade !
Rodolfo, depois de dizer essas palavras, chamou Maria Camila,
mostrou-lhe Justino e levou-a pela mo:
- Deixe-o dormir o primeiro sono... Voltaremos para casa, devagarinho,
pois Justino  cidado livre e sonha com a sua mais alta felicidade.
Sinh-Moa acompanhou-os, dizendo  filha:
- Devagarinho, minha filha, para no acordar Pai Justino...
Fim do livro

